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A ciência avança, mas o estigma ainda decide quem consegue prevenir do HIV

Tedson Souza,
29/07/2026 | 00h07
(Foto: Tedson Souza)

Nova medida pode tornar mais simples e ampliar os cuidados e a prevenção ao HIV no Brasil. Já está na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC), a proposta de incorporação da PrEP injetável de longa duração ao SUS, Sistema Único de Saúde. O anúncio, realizado pelo Ministério da Saúde na conferência AIDS 2026, no Rio de Janeiro, foi recebido com entusiasmo.
Se aprovada, a prevenção ao HIV poderá contar com uma formulação de ação prolongada, uso de medicação injetável a cada 2 meses, ampliando as possibilidades de cuidado. Outra novidade anunciada foi a implantação de um estudo de Prep oral de dose única pela Fiocruz, que, se der certo, vai permitir ao paciente previnir o vírus HIV, tomando apenas um comprimido por mês ao invés de um comprimido por dia como é atualmente.

São conquistas importantes. A ciência segue produzindo respostas cada vez mais eficazes para enfrentar a epidemia.

(Foto: Tedson Souza)

Mas bastaram alguns passos pelos corredores do Riocentro para perceber que existe uma pergunta tão urgente quanto o avanço da tecnologia: quem, de fato, conseguirá chegar até ela? Hoje, a Prep tradicional no Brasil, apesar de ser disponibilizada gratuitamente na rede pública, consegue atingir principalmente homens gays brancos e de alta escolaridade.

Foi com essa inquietação que, na manhã desta terça-feira (28), entrei na sessão “Moving Away from astigmatismo” em tradução livre “Superando o estigma “. O momento foi marcado pelo silêncio do auditório que ouvia atento pesquisadores de diferentes países apresentando evidências de que o estigma continua sendo um dos principais obstáculos no enfrentamento ao HIV. Para além do preconceito a discussão era também sobre acesso. Quem consegue fazer um teste, iniciar a PrEP, permanecer em tratamento ou simplesmente entrar em um serviço de saúde sem medo de ser julgado?

A pesquisadora da Universidade de Toronto, no Canadá, Carmem Logie mostrou que o estigma raramente atua sozinho. Ele se cruza com o racismo, a pobreza, as desigualdades de gênero e outras formas de exclusão produzindo barreiras que atingem principalmente populações historicamente marginalizadas. Quando esses fatores se acumulam, aumentam também as dificuldades para acessar prevenção e cuidado.

Entre os destaques da mesa estavam dois brasileiros. Maria Amélia Veras, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, lembrou que a resposta ao HIV não pode ser pensada apenas a partir da biomedicina. É preciso enfrentar as desigualdades que determinam quem tem acesso às políticas públicas. Já Angelo Brandelli Costa, da PUC-RS, apresentou pesquisas mostrando que o estigma influencia diretamente a prevenção, a adesão ao tratamento e a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV. Não basta que um medicamento exista; é preciso que as pessoas consigam acessá-lo sem enfrentar discriminação.

Essa reflexão ganha ainda mais sentido quando olhamos para o Brasil. Embora o SUS ofereça gratuitamente testes, tratamento e PrEP, jovens negros, indígenas, pessoas LGBTQIAPN+ e moradores das periferias continuam encontrando barreiras que vão muito além da oferta do serviço. Muitas vezes, o primeiro obstáculo não é a falta de medicamento, mas o medo do julgamento, do racismo institucional e da violência simbólica dentro dos próprios espaços de cuidado.

A australiana Carla Treloar, do Centro de pesquisa social em saúde da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sidney, reforçou que reduzir o estigma exige transformar também os serviços de saúde. Não basta incorporar novas tecnologias sem construir ambientes acolhedores, onde todas as pessoas sejam tratadas com respeito e dignidade.

Ao deixar o auditório, a sensação era inevitável. A AIDS 2026 está mostrando que talvez nunca tenhamos tido tantas ferramentas para prevenir o HIV. Mas também deixou claro que nenhuma inovação biomédica será suficiente enquanto o estigma continuar decidindo quem consegue atravessar a porta de uma unidade de saúde. O futuro da prevenção depende tanto da ciência quanto da capacidade de combater as desigualdades que ainda afastam milhares de brasileiros do direito ao cuidado.

*Tedson Souza é jornalista, professor adjunto da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e doutor em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com estágio doutoral na Brown University, nos Estados Unidos. Pesquisador das interfaces entre comunicação, saúde e HIV, participa da cobertura da AIDS 2026 como colaborador do site Dois Terços.