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Conheça a história de resistência de Domynyk Andrés, mulher indígena, imigrante argentina e travesti intergênero vivendo com HIV

Genilson Coutinho,
17/04/2023 | 10h04
Foto: Divulgação

O Dia dos Povos Indígenas, que teve seu nome mudado no ano passado, é celebrado em 19 de abril. Em homenagem a data, que tem como propósito celebrar a diversidade das histórias e das culturas dos povos indígenas brasileiros; combater preconceitos contra os indígenas; e estabelecer políticas públicas que garantam os direitos dos povos originários, a Agência Aids traz a história de Domynyk Andrés, 26, mulher indígena tupi-guarani, travesti intergênero vivendo com HIV e imigrante argentina.

Sua história de resistência é combinada com coragem e determinação de ser quem é. Foi na espiritualidade e ancestralidade que ela encontrou outras formas de viver e existir.

Filha de um argentino com uma brasileira, Domynyk chegou ao Brasil ainda criança, junto com sua família. Aos 13 anos foi diagnosticada com HIV. Com a chegada do vírus sua vida virou de cabeça para baixo.

“Eu só tinha 13 anos e ainda estava em processo de documentação no Brasil, eu era considerada indigente no país. E nesse processo de eu adoecer e precisar do estado, houve uma rejeição familiar, inclusive da minha mãe. Houve também uma rejeição do feminino, que para mim foi o mais pesado, porque não bastava ser mulher e transicionar para mulher feminina, tinha que ser uma mulher saudável.”

Naquele contexto, Domynyk foi abandonada pela sua família biológica e acolhida em um abrigo governamental com medida protetiva, onde ficou até completar 18 anos.

Segundo ela, seu processo de tutela pouco abordava a questão da sua orientação sexual/identidade de gênero, o documento citava, sobretudo, a questão do diagnóstico positivo para o HIV.

“Aparecia sobre a negação e a rejeição familiar pela minha sorologia, daí a vara da infância, o conselho tutelar, denunciaram as quatro gerações da minha família por abandono de incapaz, de uma criança imigrante irregular no país, e vivendo com HIV.”

Domynyk dividiu em entrevista à Agência Aids que não contou e ainda não conta, de fato, com uma rede de apoio familiar. “Até hoje não tenho alguém que seja meu parente que me acompanhe, pergunte se estou tomando devidamente as medições…”

Por outro lado, conta com os cuidados e atenção da sua médica infectologista e psicóloga que lhe acompanham desde nova, e também de seu namorado, Alessandro França. Alessandro é um homem negro, não binário, e também indígena do povo Pataxó.

Devido dificuldades financeiras e outros desafios que foram impostos ao longo do caminho, a jovem Domynyk entrou no mundo da prostituição, e a alta exposição e vulnerabilidade fez com que ela não só tivesse que lidar com o HIV, mas também adquirisse outras ISTs.

Neste intervalo da vida, Domynyk conheceu seu parceiro. O receio de uma possível rejeição afetiva por conta da sua sorologia era real, mas ela conta que o amor falou mais alto. “Ele me amou por quem eu sou, me tirou da prostituição, cuidou de mim, incentivou eu me tratar…”, compartilhou emocionada.

A sua vivência transexual também não foi um opositor ao amor que nutrem um pelo outro. Segundo ela, seu companheiro nunca lhe enxergou com um olhar de estigma. Ela considera que esse apoio incondicional esteve presente quando encarou momentos delicados de saúde mental, como uma depressão.

O organismo de Domynyk rejeitou esquemas medicamentosos dos antirretrovirais e ela teve de lidar com efeitos colaterais por muito tempo, mas hoje encontrou uma boa opção. Para ela, cuidar da sua saúde é um ato de autoamor.

Domynyk e Alessandro, apaixonados, vivem hoje em Brasília e desfrutam de um relacionamento sorodiferente (quando uma pessoa vive com HIV/aids e a outra não), e juntos embarcam em diferentes aventuras.

Alessandro é um artesão e Domynyk uma profissional de saúde, também artesã e tem dedicado seus dias aos estudos ambientais. Nas redes, divulgam trabalhos relativos à cena cultural em Brasília DF. “Minhas raízes e a arte são como uma válvula de escape.”

Ela decidiu botar a voz no mundo e compartilhar sua história, pois acredita que suas superações próprias podem inspirar outras vidas, principalmente aquelas positivas para o HIV.

Da Agencia AIDS