Um manifesto da fé e da arte do Brasil

Por Genilson Coutinho
O encerramento da “Equilibrivm Tour”, em Salvador, na noite do último sábado (29), foi muito mais do que um grande espetáculo. Foi um manifesto de fé, arte, respeito e resistência. Um verdadeiro tapa de luva de pelica na intolerância religiosa, dado com beleza, coragem e o brilho de Oxum.
Anitta, visionária e corajosa, em tempos marcados pelo ódio e pela intolerância no Brasil, trouxe para o centro do palco — e também para o centro do debate e da visibilidade — a beleza, a força e a ancestralidade das religiões de matriz africana. E fez isso com Exu à frente, abrindo os caminhos de uma trajetória que a colocou no topo e entre as grandes mulheres que assumem o protagonismo das próprias histórias.
Ela serviu a Ogum e saciou a fome dos milhares de fãs que chegaram à noite do show com o “modo ansiedade” ativado há dias. Foram mais de duas horas — e um tantinho a mais — de um espetáculo simplesmente fantástico em todos os sentidos: música, dança, estética, figurinos, fé, ancestralidade e representatividade.

“Ela é o mundo!”, gritou um fã na plateia.
E eu acrescentaria: ela ganhou o mundo. E conquistou, de maneira muito especial, a comunidade LGBTQIAPN+, que mostrou mais uma vez sua força, inclusive econômica, e seu amor por dona Anitta.
Mas houve um momento que também merece nossa reflexão. Quando Anitta ressaltou e agradeceu o apoio da Natura, a plateia respondeu gritando o nome da marca. Aquela cena diz muito sobre a importância de empresas que têm coragem de colocar seus nomes ao lado da diversidade, da cultura e de manifestações artísticas que enfrentam preconceitos.
E aqui faço uma provocação: quantas empresas ainda não têm coragem de apoiar projetos como esse? E isso não é diferente quando falamos dos projetos realizados pela comunidade LGBTQIAPN+. Sempre aparece uma nova justificativa, uma nova burocracia, uma nova maneira de dizer não.
Não basta ter diversidade escrita nas políticas de ESG, nos relatórios institucionais ou nas campanhas publicitárias. É preciso ter coragem. É preciso transformar discurso em investimento, presença e atitude.
Por isso, vida longa à Natura por compreender a importância de valorizar nossas artes, nossa cultura e nossa diversidade.
E vida longa à arte que incomoda, provoca, encanta e transforma.
Porque, naquela noite em Salvador, não assistimos apenas ao encerramento de uma turnê. Assistimos a uma artista brasileira usando um dos maiores palcos de sua carreira para dizer, através da música, da estética e da fé, que a nossa ancestralidade merece respeito.