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PrEP injetável: Dra. Beatriz Grinsztejn aponta caminhos para ampliar o acesso e garantir a continuidade da prevenção no SUS

Genilson Coutinho,
19/10/2026 | 12h10

A PrEP injetável pode ampliar a proteção contra o HIV entre pessoas que enfrentam dificuldades para manter o uso diário de comprimidos, mas transformar esse avanço em acesso regular exige enfrentar o preço do medicamento, organizar os serviços e assegurar a continuidade da prevenção. É o que afirma a Dra. Beatriz Grinsztejn, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), investigadora principal do ImPrEP CAB Brasil. Em entrevista à Agência Aids, a pesquisadora defende que a chegada de novas tecnologias seja acompanhada de respostas às barreiras que afastam parte da população do cuidado: “não é adequado atribuir a responsabilidade pela adesão exclusivamente ao indivíduo”.

Publicado na revista The Lancet HIV, o estudo avaliou a oferta do cabotegravir de longa duração em seis serviços, localizados em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Manaus, Salvador e Florianópolis. Entre os 1.447 participantes que puderam escolher o método, 1.201 optaram pelo injetável. Nesse grupo, a cobertura preventiva alcançou 90,8% dos dias de acompanhamento, frente a 47,3% entre os que escolheram a PrEP oral na pesquisa e 35,5% no grupo de comparação da PrEP oral na rotina do SUS. A incidência de HIV foi de 0,20 caso por 100 pessoas-ano com o cabotegravir, contra 1,48 no grupo de comparação. Como a escolha não foi aleatória, diferenças entre os grupos e no acompanhamento precisam ser consideradas na interpretação dos resultados.

O cabotegravir é uma modalidade de profilaxia pré-exposição (PrEP), destinada à prevenção do HIV em pessoas que não vivem com o vírus. As aplicações são feitas a cada dois meses após a etapa inicial, mas a continuidade da proteção também depende do retorno aos serviços dentro do prazo recomendado. No ImPrEP CAB Brasil, 92% das aplicações ocorreram na janela prevista. Para a Dra. Beatriz, esse resultado está ligado à capacitação das equipes, ao aconselhamento individualizado, à atuação de educadores de pares e ao atendimento acolhedor, sem discriminação.

A pesquisa chega em um momento de discussão sobre a ampliação das opções de prevenção na rede pública. Em julho, o Ministério da Saúde anunciou o encaminhamento da proposta de incorporação da PrEP injetável à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec); a avaliação do cabotegravir passou pela Consulta Pública nº 76/2026, encerrada em agosto. A oferta regular, explica a entrevistada, depende das condições de aquisição, das negociações com a fabricante e do orçamento disponível. Se a implementação ocorrer de forma gradual, ela defende que a prioridade seja ampliar a proteção de pessoas que enfrentam maiores barreiras para utilizar as opções já disponíveis.

Há também uma transição que preocupa a pesquisadora: segundo ela, o ImPrEP CAB Brasil dispõe de cabotegravir para seus participantes até maio de 2027. Uma doação suplementar anteriormente sinalizada pela farmacêutica não será mais disponibilizada, relata. A expectativa é construir com o Ministério da Saúde uma solução que assegure a continuidade da prevenção. Na entrevista, a médica detalha ainda as três infecções identificadas no grupo do injetável, os cuidados com a testagem e os limites do estudo para avaliar pessoas que já haviam enfrentado dificuldades com a PrEP oral.

Confira a entrevista na íntegra.

Agência Aids — O material apresenta incidência de HIV de 0,20 por 100 pessoas-ano na coorte que optou pelo cabotegravir, contra 1,48 na coorte de comparação da PrEP oral. Considerando que a escolha do método e as condições de acompanhamento podem influenciar os resultados, o que essa comparação permite concluir sobre o benefício da modalidade injetável e quais são os limites dessa interpretação?

Dra. Beatriz Grinnsztejn, Fiocruz

Dra. Beatriz Grinsztejn — De fato, em contextos de pesquisa, os participantes geralmente se beneficiam de serviços e de um acompanhamento mais abrangentes, o que pode exercer alguma influência sobre os resultados. No entanto, a principal explicação para a diferença observada na incidência de HIV está relacionada às características do cabotegravir de longa duração, que proporciona cobertura preventiva por um período prolongado. Em comparação, para alcançar sua eficácia máxima, a PrEP oral depende da adesão adequada ao regime prescrito.

Está amplamente documentado que grande parte das infecções pelo HIV entre usuários de PrEP oral está associada à adesão insuficiente ou inconsistente. Por não exigir a manutenção de um comportamento diário, o cabotegravir pode facilitar a continuidade da proteção ao longo do tempo e, consequentemente, contribuir para a redução da ocorrência de novas infecções pelo HIV.

É importante, contudo, considerar os limites dessa comparação. Como não se trata de uma comparação randomizada entre os dois métodos, diferenças entre as populações, o contexto de acompanhamento e a própria escolha da modalidade de PrEP podem influenciar os resultados. Portanto, os achados reforçam o benefício potencial da modalidade injetável de longa duração, particularmente por reduzir as dificuldades relacionadas à adesão diária, mas devem ser interpretados levando em conta essas diferenças entre as coortes.

Agência Aids — O tempo coberto pela prevenção foi de 90,8% dos dias com cabotegravir, contra 35,5% na coorte de comparação. Em que medida esse resultado questiona a ideia de que a dificuldade de adesão é responsabilidade individual e revela a necessidade de adaptar a prevenção à vida das pessoas? A injeção conseguiu alcançar quem antes não conseguia manter a PrEP oral?

Dra. Beatriz Grinsztejn — Por não exigir um comportamento diário de adesão, o cabotegravir proporciona proteção durante o intervalo de aproximadamente dois meses entre as aplicações. A menor proporção de dias cobertos observada entre os usuários de PrEP oral pode estar relacionada, entre outros fatores, a períodos em que não houve uso adequado ou consistente dos comprimidos.

A adesão ao método de PrEP é um elemento essencial para garantir sua máxima efetividade. Mesmo no caso do cabotegravir, é necessário que os usuários retornem para as aplicações subsequentes dentro da janela prevista para a injeção, que compreende um período de 14 dias, a fim de manter a continuidade da proteção.

Assim como ocorre em outras áreas da saúde, o método de prevenção deve estar adequado às necessidades, preferências e condições de vida de cada pessoa. Algumas pessoas não encontram dificuldades para manter o uso diário de comprimidos, enquanto outras enfrentam barreiras sociais, culturais, estruturais ou individuais que dificultam a manutenção desse comportamento ao longo do tempo. Nesse sentido, não é adequado atribuir a responsabilidade pela adesão exclusivamente ao indivíduo. Cabe também aos serviços e às políticas públicas de saúde oferecer uma diversidade de métodos que se adaptem às diferentes necessidades e contextos, ampliando o acesso a uma prevenção efetiva.

Um dos objetivos deste estudo foi justamente analisar a escolha do método de PrEP. Para isso, apenas pessoas que nunca haviam utilizado PrEP foram elegíveis para participar. Portanto, o desenho do estudo não permite avaliar especificamente se o cabotegravir alcançou pessoas que anteriormente apresentavam dificuldades para manter o uso adequado da PrEP oral. Essa questão será analisada em outro estudo atualmente em andamento, que avalia o uso do lenacapavir injetável, administrado a cada seis meses.

Agência Aids — O material informa três infecções pelo HIV na coorte que optou pelo cabotegravir. Em quais circunstâncias ocorreram e houve algum caso apesar das aplicações em dia? O que esses episódios ensinaram sobre os cuidados necessários para iniciar e acompanhar a PrEP injetável, especialmente quanto à identificação de infecção recente e à possível resistência ao medicamento?

Dra. Beatriz Grinsztejn — Entre os três casos de infecção pelo HIV identificados no estudo, dois ocorreram em participantes que estavam com as aplicações de cabotegravir em dia. A ciência ainda busca compreender melhor os mecanismos envolvidos nesses raros casos de infecção apesar do uso adequado do método.

Antes do início do cabotegravir, o estudo utilizou um teste rápido de carga viral do HIV com o objetivo de identificar possíveis infecções agudas que ainda não seriam detectadas pelos testes rápidos convencionais. No entanto, os resultados do estudo indicaram que a realização rotineira desse exame não se mostrou essencial para a iniciação da PrEP injetável de longa duração.

Nas consultas de acompanhamento e nas visitas para novas aplicações, além do teste rápido para HIV, era coletada uma amostra de sangue para testagem retrospectiva da carga viral. Essa estratégia permitia investigar eventuais infecções que poderiam apresentar diagnóstico mais difícil pelos métodos sorológicos convencionais durante o uso do cabotegravir. As duas infecções ocorridas entre participantes que estavam com as aplicações em dia foram identificadas por meio do exame de carga viral. É importante destacar, entretanto, que esses eventos foram raros diante do número total de aplicações realizadas durante o estudo.

O terceiro caso ocorreu em um participante que havia interrompido o acompanhamento e retornou para uma nova aplicação após aproximadamente um ano afastado do estudo. Nesse caso, a infecção foi identificada por meio teste rápido de HIV.

Foram realizados testes de resistência aos medicamentos nos três casos de soroconversão. Em apenas um deles foi identificada resistência aos inibidores da integrase, classe de antirretrovirais à qual pertence o cabotegravir.

De forma geral, os resultados do estudo demonstraram que a testagem rápida para HIV, conforme preconizado pela Organização Mundial da Saúde, é uma estratégia adequada para a iniciação e o acompanhamento da PrEP com cabotegravir. Os testes de carga viral podem ser reservados para situações em que existam dúvidas ou necessidade de investigação diagnóstica adicional.

Agência Aids — A adesão às aplicações no prazo correto chegou a 92%. Quais condições de atendimento foram decisivas para esse resultado e quais delas precisam ser garantidas para reproduzi-lo fora da pesquisa, sobretudo em serviços do interior e com equipes menores?

Dra. Beatriz Grinsztejn — A capacitação oferecida aos profissionais de saúde das unidades que participaram do estudo foi um elemento importante para alcançar esse resultado. O treinamento contribuiu para que o aconselhamento aos participantes fosse abrangente, individualizado e adaptado às necessidades e ao contexto de vida de cada pessoa, reforçando a importância do comparecimento às visitas de aplicação dentro do período recomendado para assegurar a continuidade da proteção.

O ImPrEP CAB Brasil também contou com a importante participação de educadores de pares comunitários, que desenvolveram atividades individuais e em grupo com os participantes, contribuindo para fortalecer o vínculo com os serviços e reforçar a importância do comparecimento às visitas de aplicação dentro do prazo previsto.

O estudo também desenvolveu um sistema de mensagens de lembrete via WhatsApp, enviadas aos participantes para recordá-los das próximas visitas. .

De forma geral, a qualificação das equipes, o aconselhamento individualizado e sensível às necessidades dos participantes, o envolvimento de pares comunitários e a oferta de um ambiente acolhedor e não discriminatório foram componentes fundamentais para os elevados níveis de adesão observados. Esses elementos podem ser incorporados à rotina do SUS, inclusive em serviços com equipes menores, desde que sejam garantidos treinamento adequado, organização dos fluxos de atendimento e estratégias de acompanhamento adaptadas à realidade de cada serviço.

Agência Aids — Diante das evidências apresentadas, qual é hoje a principal distância entre demonstrar a viabilidade do cabotegravir no SUS e garantir acesso regular à população? Se a oferta inicial for limitada, quais critérios deveriam orientar sua distribuição para ampliar a proteção de quem está menos alcançado pela prevenção?

Dra. Beatriz Grinsztejn — A garantia de acesso regular ao cabotegravir no SUS depende, neste momento, das condições de aquisição do medicamento e das negociações entre o Ministério da Saúde e a empresa farmacêutica responsável pelo produto e do orçamento disponível para aquisição de medicamentos de PrEP. O Brasil não está incluído nos acordos que permitem o acesso às versões genéricas do cabotegravir de longa duração, em razão das condições de licenciamento e proteção de propriedade intelectual. Dessa forma, para viabilizar sua oferta no SUS nas condições atuais, será necessária a aquisição do medicamento junto à empresa detentora do produto.

É provável que a implementação do cabotegravir no SUS ocorra de forma gradual, considerando tanto o custo do medicamento quanto a complexidade logística de sua oferta em um sistema de saúde de dimensão nacional. Nesse cenário, será especialmente importante que a implementação inicial priorize a ampliação do acesso à prevenção, alcançando pessoas que enfrentam maiores barreiras para utilizar de forma efetiva as opções de PrEP atualmente disponíveis. A experiência acumulada com o ImPrEP CAB Brasil pode contribuir para orientar esse processo, identificando estratégias para que a nova tecnologia seja incorporada de maneira equitativa e adequada às diferentes realidades dos serviços e das populações atendidas.

Também é necessário considerar a continuidade da prevenção para os participantes que já utilizam cabotegravir no contexto do estudo. Antes do anúncio da incorporação do medicamento pelo Ministério da Saúde, a empresa farmacêutica havia sinalizado a possibilidade de doar um estoque suplementar de cabotegravir, correspondente a alguns meses adicionais de uso, o que permitiria prolongar a oferta aos participantes durante o período de transição. No entanto, fomos informados recentemente de que esse apoio não será mais disponibilizado.

O ImPrEP CAB Brasil tem cabotegravir disponível para seus participantes ate maio de 2027. Esperamos que ate la possamos acordar com o Ministerio da Saude essa transicao, caso o cabotregravir venha a ser incorporado ao SUS. Nesse contexto, além de ampliar progressivamente o acesso a novos usuários, será fundamental estabelecer estratégias que assegurem uma transição adequada e a continuidade da prevenção para as pessoas que já utilizam o método.

Da AG. AIDS