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Luiz Mott resgata a trajetória de Xica Manigongo, primeira transexual documentada do Brasil

Genilson Coutinho,
21/05/2026 | 15h05

A vida de Xica Manicongo, escravizada africana batizada como Francisco em 1591, é resgatada de maneira inédita neste livro pelo antropólogo Luiz Mott, professor decano e reconhecido pesquisador de identidades sexuais dissidentes. Pioneiro ativista pelos direitos civis da comunidade gay desde os anos 1970, Mott revela em sua escrita, que une rigor histórico e linguagem irreverente, como Xica foi a primeira transexual documentada na história do Brasil e de todas as Américas.

A partir de sua pesquisa do manuscrito original da Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil, em 1591, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, o autor reconstrói a trajetória individual de Xica, abordando a cultura e religiosidade do antigo reino do Congo e sua condição de pessoa escravizada do sapateiro Antônio Pires, em Salvador.

Mott apresenta também o contexto histórico e cultural da época, desde as formas coloniais de nomear a sodomia, passando pelos modos de policiamento dos corpos, até os sinais pelos quais se codificavam gênero, vestimenta, performance e pertencimento.

Capa da obra xica manicongo

Denunciada à Inquisição por comportamento homossexual e acusada de “somítigo” (passivo) e de usar vestes femininas nas ruas de Salvador – na verdade, um traje das sacerdotisas quimbandas do reino do Congo, que desde a infância portavam dualidade de gênero –, Xica assumiu contornos de lenda, símbolo de luta e resistência para a comunidade trans no Brasil.

Na introdução, Mott discorre sobre sua escolha em identificá-la como Francisco/Xica Manicongo: “É intencional e politicamente correta, pois preza por sua real performance de gênero e reconhece a relevância contemporânea de sua vivência de gênero fluida ou mutante”.

Ele explica também o uso da língua pajubá: “Optei, em algumas passagens, por empregar intencionalmente estilo e vocabulário ainda pouco usados pelos acadêmicos, o léxico pajubá, o criptodialeto das travestis e gays que documentei desde a década de 1990. Além de incorporar gírias e expressões populares, trata‑se o pajubá de uma linguagem secreta, de inspiração nagô, criada e usada por travestis, mulheres trans e gays em contextos de repressão, resistência, espiritualidade e sobrevivência”.

Ao final, Mott apresenta um panorama da história recente da publicização e do sucesso midiático de Xica Manicongo e de sua apropriação pela população trans como símbolo de resistência em diversas frentes: no teatro, na moda, nas artes visuais, como nome de rua e de um quilombo urbano carioca, até sua consagração máxima como homenageada no enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti, no Carnaval carioca de 2025.

Em seu prefácio à edição, o escritor e professor de direito Renan Quinalha afirma que “uma das maiores virtudes desta obra está justamente em enfrentar um dos mais difíceis desafios do ofício historiográfico: reconstruir vidas que chegaram até nós por meio de vestígios escassos, fragmentários e hostis. No caso de Xica, as fontes disponíveis não foram produzidas para reconhecer a sua humanidade, mas para vigiar, enquadrar e punir. São documentos gerados pelo aparelho repressivo da Inquisição e por uma ordem colonial fundada na escravidão, no racismo e na imposição de normas rígidas de sexualidade e gênero”.

Sobre o autor

Luiz Mott (São Paulo, 1946) é professor titular aposentado do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Formou-se em Ciências Sociais pela USP, é mestre em Etnologia pela Sorbonne e doutor em Antropologia pela Unicamp. Ativista dos direitos humanos da população LGBT+, fundou o Grupo Gay da Bahia, em 1980, e coordena, há 45 anos, o Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil. É autor de mais de vinte livros, entre eles, Rosa Egipcíaca, uma santa africana no Brasil (2023), Bahia: inquisição e sociedade (2010), Homossexualidade: mitos e verdades (2003), Homossexuais da Bahia: dicionário biográfico (1999), Escravidão, homossexualidade e demonologia (1988). Foi incluído pela revista holandesa Wink Magazine entre os quinhentos gays mais importantes da humanidade. Vive em Salvador, Bahia.

XICA MANICONGO,
PRIMEIRA TRANSEXUAL DO BRASIL

Autor: Luiz Mott
Prefácios: Renan Quinalha e Jaqueline Gomes de Jesus
Orelha: Amara Moira
Área: Biografia, História, Ensaio social
Projeto gráfico: Raúl Loureiro
Formato: 16×23 cm
Páginas: 240
R$ 92,00
ISBN 978-65-5590-049-1