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Após acordo, Brasil poderá ter injeção contra HIV aplicada duas vezes ao ano

Folhapress,
17/09/2026 | 21h09
(Foto: Ihsaan Haffejee/AF)

Um acordo firmado entre a farmacêutica Gilead Sciences e a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) pode facilitar a chegada ao Brasil do lenacapavir, medicamento injetável contra o HIV que é aplicado a cada seis meses. O entendimento foi anunciado nesta terça-feira (15) e contempla 14 países da América Latina e do Caribe.

O Brasil está entre as nações incluídas na iniciativa que não fazem parte dos contratos de licenciamento voluntário da Gilead com fabricantes de medicamentos genéricos. Com isso, o acesso ao lenacapavir depende de negociações diretas com a farmacêutica.

Acesso ainda depende de negociações

O acordo não representa, porém, uma liberação imediata do medicamento. A Gilead não divulgou o preço, a quantidade destinada ao Brasil ou um calendário de fornecimento. Antes disso, cada governo deverá decidir se participa da iniciativa.

No Brasil, o lenacapavir já passou por uma etapa importante. Em janeiro deste ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou o uso do Sunlenca, nome comercial do medicamento, como PrEP (profilaxia pré-exposição) para adultos e adolescentes a partir de 12 anos e com peso mínimo de 35 kg.

Segundo a agência, a comercialização depende ainda da definição do preço máximo pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos).

Para que o remédio seja disponibilizado pelo SUS, também é necessária uma avaliação da Conitec, comissão responsável por analisar a incorporação de novas tecnologias, além de uma decisão favorável do Ministério da Saúde. Em julho, a pasta tentou negociar diretamente a compra com a Gilead, mas as tratativas não avançaram.

A farmacêutica afirma que continuará negociando com o governo brasileiro mesmo após o acordo com a Opas.

Duas aplicações por ano

O lenacapavir é apontado como uma das principais novidades recentes na prevenção do HIV por reduzir a necessidade de uso diário de comprimidos. Aplicado sob a pele do abdômen a cada seis meses, o medicamento interfere em diferentes etapas do funcionamento do capsídeo, estrutura que envolve o material genético do vírus.

Nos estudos de fase 3 que serviram de base para a autorização sanitária, não foram registradas infecções entre as mulheres cisgênero que receberam o medicamento no estudo Purpose 1. Já no Purpose 2, realizado com homens cisgênero e pessoas de gênero diverso — incluindo centros brasileiros —, o lenacapavir reduziu em 96% a incidência de HIV em relação à taxa esperada sem PrEP e apresentou eficácia 89% maior que a profilaxia oral diária usada como comparação.

O medicamento não é uma vacina e não elimina a necessidade de acompanhamento médico. Antes de cada aplicação, é preciso confirmar que a pessoa não está infectada pelo HIV. A Anvisa alerta para o risco de resistência caso alguém em fase aguda da infecção, ainda não identificada, receba o produto ou demore a iniciar um tratamento eficaz após uma falha da PrEP.

Em julho de 2025, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou o lenacapavir como uma opção adicional nas estratégias de prevenção combinada. Por exigir apenas duas aplicações anuais, o medicamento pode beneficiar pessoas que têm dificuldade para manter a PrEP diária ou que enfrentam receio do estigma relacionado ao uso dos comprimidos.

Brasil ficou fora de acordo para genéricos

A negociação anunciada nesta terça-feira ocorre após meses de pressão de autoridades sanitárias e organizações da sociedade civil. Em outubro de 2024, a Gilead autorizou seis fabricantes a produzir versões genéricas do lenacapavir para 120 países de baixa e média renda. O Brasil e a maior parte da América Latina ficaram fora da lista.

Na época, o Conselho Nacional de Saúde aprovou uma moção de repúdio à decisão. O órgão destacou que o Brasil havia participado do estudo Purpose 2, mas não havia sido incluído nem no acordo para produção de genéricos nem na lista inicial de países prioritários para registro.

O conselho também defendeu que o governo voltasse a discutir a possibilidade de licenciamento compulsório — a chamada quebra de patente — caso o preço do medicamento dificultasse sua oferta pelo SUS.

A discussão continuou mesmo após a aprovação da Anvisa. Em julho deste ano, o diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, Draurio Barreira, afirmou que governo e empresa não haviam alcançado um acordo de curto prazo para incorporar o medicamento. Segundo ele, a proposta brasileira era de US$ 400 por pessoa ao ano.

A Gilead não confirmou o valor nem revelou quanto pretende cobrar pelo produto. A empresa afirmou apenas que as negociações continuam e que assinou um memorando de entendimento com a Fiocruz para avaliar uma possível transferência de tecnologia.