Guerra dificulta tratamento de HIV e agrava crise humanitária na Ucrânia
No quinto ano de conflito, interrupções no acesso a medicamentos, deslocamento forçado e colapso de serviços ampliam riscos à saúde pública
Em Kryvyi Rih, no centro da Ucrânia, os efeitos da guerra não se medem apenas pelo som das sirenes ou pelos apagões frequentes, mas também pela luta diária de pessoas que tentam manter tratamentos essenciais para sobreviver. A cidade tornou-se um ponto de apoio para pessoas deslocadas vivendo com HIV, muitas delas vindas de áreas de combate ou sob ocupação, frequentemente sem documentos, moradia estável ou acesso contínuo aos serviços de saúde.
“Os pacientes chegam exaustos, carregando tudo o que possuem em uma única mala”, relata Oleksandr Shveda, assistente social de um abrigo comunitário administrado por uma organização beneficente de saúde pública. Segundo ele, muitos interrompem a terapia antirretroviral por dias ou semanas não por escolha, mas por perda de acesso aos serviços ou falta de informação sobre onde buscar ajuda.
O cenário reflete os desafios enfrentados pela resposta ao HIV no quinto ano da guerra: cuidados prestados sob risco constante, atrasos no atendimento e dificuldades para alcançar populações vulneráveis.
Populações invisíveis e maior vulnerabilidade
Pessoas vivendo com HIV e outros grupos vulneráveis frequentemente ficam fora do alcance dos principais programas humanitários e de proteção social. Muitas dessas populações permanecem marginalizadas, mesmo enfrentando riscos elevados à saúde e à segurança.
Em contextos de guerra, quando sistemas públicos estão sobrecarregados e prioridades se restringem, o acesso dessas comunidades aos serviços torna-se ainda mais limitado.
A assistente social Olena Maligina afirma que o estigma e o medo contribuem para esse isolamento. “Muitos tentam permanecer invisíveis”, explica. “Mas o HIV não espera — e a tuberculose também não. Manter alguém em tratamento envolve não apenas medicamentos, mas segurança e confiança.”
Especialistas destacam que a continuidade do tratamento é uma questão de saúde pública, essencial para reduzir a gravidade da doença, evitar a transmissão e garantir a reintegração social dos pacientes.
Sistema de saúde sob pressão
A crise humanitária na Ucrânia continua a se agravar, com impactos profundos no funcionamento dos serviços essenciais. Em áreas próximas à linha de frente, instalações de saúde foram danificadas ou deixaram de operar, há escassez de profissionais e o acesso a regiões remotas tornou-se inseguro.
A crise energética também compromete o atendimento. Cortes frequentes de energia interrompem o funcionamento de clínicas, laboratórios e sistemas de informação, além de dificultar o transporte e o acesso ao tratamento por pessoas vivendo com HIV.
A combinação de conflito prolongado, deslocamento populacional, pobreza e destruição de infraestrutura tem reduzido a capacidade de resposta do sistema e aumentado o risco de interrupções no tratamento.
Nesse contexto, iniciativas lideradas por organizações comunitárias tornaram-se fundamentais para garantir continuidade do cuidado e manter o vínculo com pacientes em situação de vulnerabilidade. No entanto, essas organizações enfrentam escassez de pessoal, riscos crescentes de esgotamento profissional e dificuldades operacionais.
Resposta nacional e apoio internacional
O governo ucraniano, por meio do Ministério da Saúde da Ucrânia e do Centro de Saúde Pública da Ucrânia, mantém a coordenação da resposta nacional em parceria com organizações comunitárias.
O suporte internacional tem sido decisivo para sustentar serviços de prevenção, testagem e tratamento. Entre os principais apoiadores estão o Governo dos Estados Unidos, o Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária, a Expertise France, o Governo dos Países Baixos e outros parceiros internacionais.
Para Eamonn Murphy, diretor regional do programa da ONU para Europa Oriental e Ásia Central e Ásia e Pacífico, a continuidade desses serviços depende da atuação conjunta entre profissionais de saúde e organizações comunitárias.
“A resiliência da Ucrânia está na coragem de seu povo e na determinação dos profissionais que mantêm os serviços funcionando mesmo em condições extremas”, afirmou. “Esse trabalho se baseia na confiança — e, em tempos de guerra, essa confiança pode salvar vidas.”
Dependência de financiamento e desafios futuros
A resposta ao HIV no país continuará fortemente dependente de financiamento externo em 2026, reforçando a necessidade de apoio previsível e sustentável para garantir serviços essenciais. Ao mesmo tempo, autoridades e parceiros discutem a transição gradual para sistemas nacionais mais autônomos e estruturas comunitárias fortalecidas.
Em meio ao conflito prolongado, a experiência de Kryvyi Rih resume o desafio enfrentado pelo país: em contextos de guerra, a continuidade do tratamento não é garantida — precisa ser construída, protegida e mantida diariamente.
Da Agência de Notícias da Aids