Menos sexo, mais cautela: o que aconteceu com os jovens?
É impressão minha ou os jovens estão se tornando mais cautelosos e inseguros — e, além disso, parecem evitar falar de sexo com a naturalidade de uma ou duas décadas atrás? Em um passado não tão distante, a minha versão adolescente não apenas falava abertamente com os amigos sobre as expectativas da próxima transa, como também se empenhava para que ela acontecesse. A busca por sexo era como uma final de Champions League: faríamos qualquer coisa para levantar o troféu e nos consagrar como o atacante da temporada.
Mas o que mudou desde então? Uma crescente insegurança? Um difuso medo de exposição? Um novo tipo de individualismo? Ou — receio maior — os jovens mundo afora estão se tornando mais conservadores e, por tabela, mais receosos? Este “receosos”, admito, é mais impressão pessoal do que evidência científica. Digo isso porque, se depender da lógica biológica (e de um certo imaginário adolescente), um jovem deveria tratar mamilos como trata a tela do próprio celular: toques suaves, insistentes e quase hipnóticos. Mas talvez o mundo real tenha ficado mais complicado do que essa metáfora permite.
Em minha defesa, recorro a alguns dados. Levantamentos no Brasil indicam que mais da metade dos jovens se identifica com a direita ou o centro-direita. Em estudos globais, jovens da Geração Z têm demonstrado valores mais tradicionais em temas como gênero e relações. Também há evidências de que jovens homens, em particular, estão mais conservadores do que antes, em vários países. Ou seja: há, sim, uma tendência detectável, ainda que localizada.
E não para por aí. Pesquisas sugerem que uma parcela dos jovens está fazendo menos sexo, embora isso varie bastante conforme o contexto cultural e social. Diversos estudos apontam uma queda na frequência de relações sexuais entre jovens adultos. Um dos mais citados, baseado no General Social Survey e analisado por pesquisadores como Jean M. Twenge, mostra que aumentou significativamente, nas últimas décadas, a proporção de jovens (sobretudo homens) que relatam não ter tido relações sexuais nos últimos doze meses. Somado a isso, há ainda o fenômeno crescente do chamado “celibato involuntário” ─ o tão popular “incel”, como ficou mais conhecido entre os jovens. Ou, em alguns casos, simples desinteresse.
Mas isso não significa, necessariamente, que se fale menos sobre sexo. Na verdade, há um paradoxo curioso: nunca se falou tanto sobre sexo nas em termos públicos (redes sociais, debates sobre gênero, consentimento, identidade) e, ainda assim, isso não se traduz automaticamente em prática. Muitos pesquisadores apontam fatores como ansiedade, insegurança, uso intensivo de tecnologia, consumo de pornografia on-line, mudanças nas relações afetivas e maior cautela emocional. Ou seja: pode haver menos prática em certos grupos, mas mais discurso, mais reflexão — e também mais tensão em torno do tema.
O quadro é, no mínimo, contraditório. Afinal, é justamente na juventude que se espera algum grau de rebeldia, de contestação aos valores herdados. Expressões como “careta” surgem exatamente desse impulso de rejeitar o que é visto como antiquado e conservador. Mas algo parece ter saído do script ou, no mínimo, feito uma curva inesperada em direção ao conservadorismo.
Assunte só. Um dos estudos mais citados sobre o tema é o relatório internacional de 2023 da Glocalities, frequentemente divulgado como Trend Report: Polarization, coordenado por Martijn Lampert. A análise, baseada em mais de 300 mil questionários aplicados em 20 países entre 2014 e 2023, cobre cerca de 60% da população mundial. A conclusão geral é quase irônica: o mundo, como um todo, tornou-se mais liberal, mesmo em meio ao aumento do pessimismo social e da sensação de crise.
O dado mais intrigante, porém, está na divergência geracional e de gênero. Jovens homens foram o grupo que mais se afastou desse avanço liberal, em alguns casos tornando-se mais conservadores do que gerações mais velhas. Já as jovens mulheres caminharam na direção oposta, adotando valores mais liberais. Essa inflexão parece associada a fatores como desilusão social, sensação de falta de futuro e rejeição a valores cosmopolitas. Um caldo propício para o crescimento de posições conservadoras entre parte da juventude masculina.
Mas que diacho está por trás disso tudo? Talvez a chave esteja na desconfiança em relação às instituições tradicionais — política, mídia, universidades. Muitos jovens não se sentem representados e passam a buscar alternativas fora do “centro”, o que pode levá-los tanto à direita quanto à esquerda. No caso do conservadorismo, isso costuma aparecer como valorização de discursos antiestablishment, moralmente mais rígidos ou nostálgicos de uma ordem que, na cabeça deles, já existiu e foi perdida.
Há também uma mudança mais profunda: o próprio significado de “ser conservador” já não é o mesmo. Como indicava Ronald Inglehart, valores mudam conforme o contexto histórico. O que vemos hoje é uma geração capaz de combinar posições que antes pareciam incompatíveis: pode ser conservadora em costumes ou identidade e, ao mesmo tempo, defender políticas sociais. Uma mistura curiosa e reveladora de um mundo mais instável, polarizado e, convenhamos, meio confuso.
Mas calma lá. Dizer simplesmente que “os jovens estão mais conservadores” é uma simplificação que não se sustenta bem nos dados. Há, sim, evidências de avanço do conservadorismo em certos grupos, especialmente entre jovens homens. Mas isso ocorre simultaneamente ao movimento contrário em outros segmentos, como o das jovens mulheres. Ou seja: não se trata de uma virada uniforme, e sim de uma divergência interna.
No fim das contas, talvez a melhor forma de descrever o momento não seja falar em uma juventude mais conservadora, mas em uma juventude mais fragmentada. Polarizada, atravessada por diferenças de gênero e tentando — cada um a sua maneira — dar conta de um presente incerto. Se isso resulta em menos sexo, mais discurso ou apenas mais confusão… bem, aí já é pauta para outra crônica.
Sobre a coluna asssuntasó!
A assuntasó! pauta a modernidade com leveza e transforma as neuroses da vida em matéria-prima para crônicas que relatam quem ousa viver o presente.
Will Assunção é cronista da modernidade e coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que a existência gira em torno do absurdo do cotidiano.
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