Entre tempos de memes e “red pill” por Georgeton Correia
*Georgeton Correia
Foto: Arquivo Pessoal
Eu estava, ontem, scrollando – meu revisor disse que “zapeando” já está ultrapassado –, o feed do Instagram, quando me deparei com um compilado de memes de pais – e mães! – em festinhas de “Chá de Revelação”, reagindo mal – na verdade, beeem mal, em alguns dos vídeos – quando o “chá” revelava que o bebê era uma menina. Tinha gente chorando, virando o rosto, fazendo careta, demonstrando frustração – tudo isso empacotado como humor, como mais um conteúdo leve para rir, comentar, mandar pra alguém conhecido…
Eu acho curioso que a gente faça circular com tanta naturalidade materiais como esse e depois se assuste quando o Fantástico alarma sobre o crescimento da chamada cultura “red pill” no Brasil. Ora, esse fenômeno não surge do nada! Ele aparece como uma intensificação – mais explícita, mais organizada, gentrificada, até – de normas de gênero que nós mesmos ajudamos a produzir, reforçar e naturalizar no cotidiano.
Esses memes não são tão inocentes quanto parecem. Quando alguém reage negativamente à possibilidade de ter uma filha, mesmo que em tom de “brincadeira”, está mobilizando a ideia de que ser mulher é, de alguma forma, menos desejável. Isso não precisa ser dito de forma direta para produzir efeito. Pelo contrário, funciona justamente porque aparece como piada, como exagero, como algo que “não deve ser levado tão a sério”.
É nesse nível cotidiano, aparentemente banal, que certas hierarquias vão sendo reafirmadas sem resistência. Aos poucos, elas vão construindo uma lógica em que o masculino tende a ser mais valorizado, enquanto o feminino aparece como algo menor, mais frágil ou menos desejável. E tudo isso vai sendo naturalizado, como se fosse apenas “o jeito que as coisas são”.
É nesse cenário que a cultura red pill ganha força. De aspirantes de “farialimers” bancando escoteiros aos 30 (e tantos!) a homens se matriculando em curso de como ser – ora, quem, diria? – homem, passou de tudo na minha timeline essa semana. Sempre as mesmas ideias: superioridade masculina, papéis rígidos, desvalorização do feminino. O que antes era piadas, costume e expectativa difusa está cada vez mais sendo passado adiante como método, como doutrina, às vezes até como produto.
Talvez o problema não esteja apenas nos grupos ou discursos red pill, mas também naquilo que continuamos tratando como normal no dia a dia. Enquanto memes, comentários e expectativas seguirem reproduzindo a ideia de que o feminino vale menos, esses movimentos encontrarão terreno fértil para crescer.
“Red Pill”
O termo “red pill” é ligado “machosfera”, ambiente que reúne fóruns, canais e perfis voltados a discussões sobre masculinidade e relações entre homens e mulheres.
*Georgeton Correia
Homem cis gay, nascido em Salvador, é coordenador pedagógico na rede municipal de ensino. Membro do GIPRES/UNEB, é pesquisador em educação, gêneros e diversidades.
