Homem em Toronto entra em remissão do HIV após transplante de células-tronco e pode representar o 11º caso de cura no mundo
Um homem canadense pode ter se tornado a mais recente pessoa a alcançar a remissão prolongada do HIV após um transplante de células-tronco com doador resistente ao vírus — um avanço que reforça as evidências de que a cura da infecção é possível, ainda que distante da realidade da maioria dos pacientes. O caso foi apresentado nesta semana durante a Conferência da Associação Canadense de Pesquisa em HIV.
Embora esse tipo de transplante seja considerado arriscado e inviável para pessoas vivendo com HIV que não tenham câncer avançado, especialistas afirmam que cada novo caso contribui para a compreensão dos mecanismos que podem levar a uma cura funcional — ou seja, uma remissão duradoura sem necessidade de terapia antirretroviral.
“O número pequeno, mas crescente, desses casos prova que a cura do HIV é possível”, afirmou a professora Sharon Walmsley, diretora da clínica de HIV da Universidade de Toronto, em comunicado. “Casos como este oferecem informações fundamentais para que pesquisadores encontrem formas de erradicar o vírus do organismo.”
Trajetória clínica complexa
Conhecido como “Paciente de Toronto”, o homem — que permanece anônimo — tem 62 anos e é acompanhado por Walmsley desde 1999. Naquele ano, ele foi diagnosticado com linfoma de Burkitt em estágio 4, um câncer oportunista que levou à realização do teste de HIV. À época, seu nível de células CD4 era de 188, o que configurava diagnóstico de aids.
Após iniciar tratamento antirretroviral em 2000 e passar por quimioterapia intensa, ele conseguiu controlar tanto o câncer quanto o vírus. Em 2015, sua contagem de CD4 havia subido para 500, indicando recuperação significativa do sistema imunológico.
Anos depois, no entanto, o paciente desenvolveu síndrome mielodisplásica — possivelmente associada à quimioterapia anterior — que evoluiu para leucemia mieloide aguda no final de 2020. O tratamento incluiu nova rodada de quimioterapia, mas foi marcado por complicações graves, como sepse bacteriana e pneumonia fúngica invasiva.
O transplante e as complicações
Em novembro de 2021, após um regime de condicionamento de intensidade reduzida — procedimento que elimina células doentes e prepara o organismo para o transplante — o paciente foi submetido a um transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas.
A equipe médica buscou um doador compatível em um registro global e encontrou um com duas cópias da mutação genética conhecida como CCR5-delta-32. Essa mutação impede a formação de um receptor utilizado pelo HIV para invadir as células, tornando-as naturalmente resistentes ao vírus.
Apesar do uso de medicamentos imunossupressores preventivos, o paciente desenvolveu doença do enxerto contra o hospedeiro — condição em que as células do doador atacam o organismo receptor. Sua recuperação ainda foi agravada por neutropenia febril (queda de glóbulos brancos com febre), lesão renal aguda, diversas infecções e uma fratura no quadril.
Ainda assim, o transplante conseguiu colocar a leucemia em remissão.
Remissão sustentada sem tratamento
O paciente interrompeu o tratamento antirretroviral em julho de 2025 e, dez meses depois, permanece em remissão sustentada, com carga viral indetectável mesmo em testes altamente sensíveis.
Ao longo dos cinco anos desde o transplante, pesquisadores liderados pelo professor Mario Ostrowski, do Hospital St. Michael, observaram uma redução contínua do DNA do HIV nas células sanguíneas — indicador do chamado reservatório viral latente. Além disso, não foi possível isolar vírus viável de suas células CD4.
Outro dado relevante é a ausência de resposta de células T específicas contra o HIV, o que sugere que pode não haver mais vírus no organismo capaz de estimular o sistema imunológico.
Apesar do histórico de saúde fragilizado e das múltiplas complicações, o paciente apresenta sinais consistentes de remissão de longo prazo. O acompanhamento clínico continua. Em geral, considera-se que uma pessoa está curada após cerca de dois anos sem tratamento antirretroviral e sem retorno do vírus, embora haja cautela entre cientistas na confirmação definitiva.
Outros casos de cura
O primeiro caso de cura do HIV foi o de Timothy Ray Brown, conhecido como “Paciente de Berlim”, que recebeu dois transplantes de células-tronco para tratar leucemia, ambos de um doador com a mutação CCR5-delta-32. Após interromper o tratamento, ele nunca apresentou rebote viral. Até sua morte, em setembro de 2020, Brown permaneceu mais de 13 anos livre do HIV.
Desde então, pelo menos outros casos semelhantes foram registrados, incluindo pacientes em Londres, Düsseldorf, Nova York, Genebra, Chicago, Oslo e Marselha. A maioria deles também recebeu células-tronco com a mutação CCR5-delta-32, embora existam exceções importantes.
Em 2022, por exemplo, pesquisadores relataram o caso da “Paciente de Nova York”, que recebeu uma combinação de sangue de cordão umbilical com a mutação e células-tronco adultas parcialmente compatíveis sem a mutação. Já o chamado “Paciente de Genebra” alcançou a remissão utilizando células sem qualquer cópia da mutação.
Essas variações indicam que a cura do HIV não depende exclusivamente do CCR5-delta-32. “Não se trata apenas dessa mutação”, afirmou a especialista Sharon Lewin, da Universidade de Melbourne, em briefing anterior. Segundo ela, múltiplos fatores — que variam de paciente para paciente — provavelmente contribuem para a remissão.
Entre esses fatores estão a intensidade da quimioterapia, o uso de radioterapia, o grau da doença do enxerto contra o hospedeiro e até medicamentos imunomoduladores, como o ruxolitinibe, que podem ajudar a reduzir o reservatório viral.
Caminhos para o futuro
Apesar dos resultados promissores, especialistas reforçam que o transplante de células-tronco é um procedimento complexo, caro e potencialmente fatal, sendo indicado apenas para pacientes com cânceres graves.
Ainda assim, cada caso bem-sucedido representa uma peça importante no quebra-cabeça científico.
“O transplante oferece pistas para o desenvolvimento de terapias semelhantes, porém menos tóxicas e mais acessíveis”, afirmou Ostrowski.
O médico Tommy Alfaro Moya, do Princess Margaret Cancer Centre, que participou do cuidado pós-transplante do paciente, destacou o impacto do caso: “Este relato oferece uma visão crítica sobre como o HIV pode ser eliminado do organismo, ajudando a orientar abordagens mais seguras no futuro.”
A experiência do “Paciente de Toronto”, portanto, não apenas amplia a lista — ainda curta — de pessoas potencialmente curadas do HIV, como também reforça a esperança de que estratégias mais simples e seguras possam, um dia, tornar essa realidade acessível a milhões de pessoas ao redor do mundo.
Da Agência AIDS
