“Fui julgado incapaz para todo e qualquer serviço”: a história de Moysés Toniolo, policial afastado após diagnóstico de HIV que transformou exclusão em luta
Aos 29 anos, sargento da PM da Bahia viu a carreira interrompida após diagnóstico de HIV; hoje, atua na formulação de políticas públicas e denuncia a discriminação no mundo do trabalho
Aos 29 anos, no auge de uma carreira em ascensão na Polícia Militar da Bahia, Moysés Longuinho Toniolo de Souza recebeu um diagnóstico que mudaria completamente o rumo da sua vida: HIV, já em estágio de aids.
Era 1999. Um tempo marcado pelo medo, pela desinformação e pelo estigma. “Eu só pensava assim: eu vou morrer e eu tenho que deixar tudo acertado para a minha família”, relembra.
Hoje, mais de duas décadas depois, Moysés integra a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids e coordena a Comissão de Patologias no Conselho Nacional de Saúde. Atua na construção de políticas públicas e na defesa dos direitos de pessoas vivendo com HIV — mas ainda carrega as marcas profundas de uma trajetória atravessada pela exclusão no mundo do trabalho.
Uma carreira interrompida
Antes do diagnóstico, o futuro parecia traçado. Professor formado pelo magistério, Moysés ingressou na Polícia Militar em busca de estabilidade. Passou em primeiro lugar no concurso e rapidamente construiu uma trajetória sólida.
“Eu fiz o concurso por conta da estabilidade.”
Tornou-se sargento especialista em comunicação e, em 1997, deu um novo passo: prestou vestibular para a Academia da Polícia Militar, caminho para se tornar oficial. Mas, entre a aprovação e a convocação, veio a ruptura.
O diagnóstico em um tempo de medo
A descoberta do HIV ocorreu após uma cirurgia e uma recuperação inesperadamente lenta. Exames confirmaram um quadro avançado.
“Eu estava com 1 milhão e 400 mil cópias do vírus e com 237 de CD4. Eu já estava em aids.”
O impacto foi imediato — e devastador. “Eu estava extremamente debilitado. Não sabia nada sobre a doença. Tinha medo de tudo.”
O tratamento, à época, era duro. “Eu passei a tomar 22 comprimidos por dia. Isso fez da minha vida um inferno.”

Foto: Arquivo pessoal — Em 2024, Moysés recebeu homenagem de uma turma de soldados que ajudou a formar em seu batalhão na Polícia Militar da Bahia.
Entre o acolhimento e o afastamento
No batalhão onde atuava, no interior da Bahia, encontrou apoio. “O meu batalhão me deu todo o apoio.”
Mas o cenário mudou ao chegar à Academia de Oficiais, em Salvador.
“Com três dias de curso, fui orientado a abandonar. Disseram que o melhor era voltar para casa e ficar com a família.”
Para Moysés, a mensagem era clara: “A ideia era de isolamento. A ideia de que quem tem HIV vai morrer.”
Sem acesso à informação e sob forte pressão, ele pediu desligamento — decisão que, hoje, sabe que poderia ter sido diferente. “Ninguém me disse que eu poderia pedir para voltar em outra turma.”
O carimbo da incapacidade
O processo que se seguiu durou três anos e terminou com sua aposentadoria compulsória.
Mesmo com laudo médico afirmando plena capacidade de trabalho, a decisão institucional foi outra.
“No boletim dizia: ‘julgado incapaz para todo e qualquer serviço policial militar’.”
A frase nunca deixou de ecoar. “Isso reverbera até hoje na minha cabeça.”
Silêncio, medo e estigma
Dentro e fora do trabalho, o diagnóstico foi vivido em silêncio. “Eu tomava remédio escondido.”
Na família, a descoberta veio de forma abrupta. “Um dia cheguei em casa e todo mundo estava chorando. Minha irmã encontrou os remédios.”
O preconceito também apareceu de forma concreta. “Eu tive que abrir minha sorologia na frente dos comandantes e dizer: se você fizer isso, está cometendo um crime.”

Foto: Arquivo pessoal — Em 12 de junho de 2010, dia de seu aniversário, Moysés registra o momento da aprovação da Recomendação 200 da Organização Internacional do Trabalho, formalizada dias depois na 99ª Assembleia.
O ponto de virada
O isolamento começou a dar lugar a outra realidade em 2000, quando Moysés participou de um encontro com pessoas vivendo com HIV. “Eu vi 200 pessoas vivendo com HIV. Eu disse: ‘tem vida depois disso’.” Ali nasceu o ativismo.
“Eu achei que não poderia ser mais nada. E encontrei um propósito.”
Ele ajudou a estruturar a atuação da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids na Bahia e passou a atuar diretamente com acolhimento, formação e mobilização social.
Do Brasil para o mundo

A trajetória ganhou dimensão internacional ao longo dos anos.
Entre 2009 e 2010, Moysés participou da construção da Recomendação 200 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece diretrizes contra a discriminação de pessoas com HIV no ambiente laboral.
“Eu fui o primeiro trabalhador abertamente vivendo com HIV a participar desse processo pela delegação brasileira.”
O momento mais simbólico veio na aprovação da norma. “A comissão se reuniu no dia do meu aniversário e agradeceu minha participação.”
O trabalho ainda exclui
Apesar dos avanços, o mundo do trabalho ainda reproduz práticas discriminatórias.
“Empresas fazem o que eu chamo de ‘teste fantasma’.”
Segundo ele, trabalhadores seguem sendo demitidos ou não contratados após exames feitos sem consentimento informado. “Tem gente que não conta para ninguém porque sabe que será excluída.”
O preço da exclusão
A aposentadoria precoce teve impacto direto na vida financeira.
Hoje, Moysés recebe cerca dois salários mínimo — muito abaixo do que teria direito. “Meu salário deveria estar entre 13 e 15 mil reais.”
A diferença pesa, especialmente com os custos de saúde. “Eu tenho que rebolar para o salário dar.”
Ele aguarda, há anos, decisão da Justiça sobre ações que podem reparar parte dessa perda. “A polícia não contestou nada. Eu só espero um juiz assinar.”
“Nós seguimos vivos”

Mais de 25 anos após o diagnóstico, Moysés segue atuando diretamente com pessoas recém-diagnosticadas. “A gente recebe pessoas, chora junto e diz: vai dar tudo certo.”
Para ele, o Dia do Trabalho ainda exige reflexão urgente. “Mais do que nunca, a gente precisa afirmar a dignidade de trabalhadores com HIV.”
E reforça: “Não pode haver discriminação. Nós estamos vivos, trabalhamos, pagamos impostos. E temos direito de estar no mundo do trabalho como qualquer outra pessoa.”
Da Ag. AIDS