Entre dois boys: Capitu traiu Bentinho em um triângulo amoroso?

Traições. Sexo. Triângulo amoroso. Ao retomarmos a maior e mais velha polêmica literária do Brasil, brindamos à típica hesitação machadiana: Capitu traiu Bentinho com Escobar em um triângulo amoroso?
Machado de Assis provavelmente não se importaria com qualquer resposta direta. Ele estava mais interessado em nos observar tropeçando nas sombras da ambiguidade, deixando-nos encucados, preenchendo, por conta própria, as lacunas que ele tão habilidosamente deixou espalhadas pelo romance.
Suspeito que Machado insinuou, com ironia, que a nossa percepção da realidade é moldada por nossas próprias experiências e valores. Isso diz muito sobre nossas suspeitas, não é mesmo? Mas talvez a verdadeira pergunta não seja se Capitu traiu, e sim se nós, leitores, conseguimos separar nossas emoções e inseguranças da história que lemos. Se a dúvida não nos incomodasse tanto, sejamos honestos, não estaríamos aqui escrevendo listas mentais de suspeitas.
Mesmo carregando a frustração de nunca ter se tornado o “Shakespeare dos trópicos” (após receber uma carta de um amigo comentando que suas peças não eram tão notórias quanto alguns de seus outros escritos), Machado alcançou celebridade ao se tornar o bardo do romance brasileiro. Dá para imaginar a cena: ele lendo a carta, talvez franzindo a testa, talvez sorrindo com ironia, e pensando que nem todo talento precisa de aplausos ruidosos; alguns se medem pelo abismo silencioso que provocam no leitor.
Machado nos desafia com intertextualidade e faz o leitor se contorcer em dúvidas: Maria Capitolina traiu ou não Bento Santiago? Otelo, de Shakespeare, aparece nos recantos de Dom Casmurro. O ciúme, a suspeita, a sedução — tudo se reflete como um espelho distorcido, e Bentinho nos guia por ele, meio carrancudo, meio mimado, humano, demasiadamente humano.
Entendo que você não tenha obrigação de saber o que é intertextualidade. Então, vamos simplificar sem trauma de aula de literatura: a linguista Julia Kristeva definiu o termo como a influência de um texto sobre outro: quando um autor pega emprestada uma história, uma ideia ou até uma emoção estética e a recria sob nova luz da materialidade textual. É como se cada obra literária fosse uma conversa infinita entre escritores de diferentes tempos, um eco que atravessa páginas e séculos. No caso de Dom Casmurro, esse diálogo acontece com Otelo, de Shakespeare.
Bento Santiago, protagonista e narrador da história, nos conta que “o meu fim evidente era atar as duas pontas da vida”, ou seja, juntar juventude e velhice por meio de sua própria perspectiva. E, assim como o título sugere, Bentinho não é exatamente o mais simpático do pedaço: sorumbático, introvertido e, claro, parcial e nada confiável. Alguns ainda vão mais longe e veem nele traços de um verdadeiro calhorda.
Machado chega a mencionar Shakespeare três vezes no romance. Em um dos capítulos, Bento Santiago adentra o teatro onde Otelo está sendo encenado. Resumo da ópera: Otelo, escrito no início do século XVII, apresenta um protagonista induzido por Iago — figura sorrateira e ardilosa — a matar Desdêmona, sua esposa. Otelo acaba acreditando que ela o traiu e a mata; só depois descobre que era inocente. Em Dom Casmurro, Bentinho cogita tirar a vida de Capitu e a do filho, ainda criança.
O capítulo 62, intitulado “Uma ponta de Iago”, funciona como referência explícita a Otelo. Iago instiga o ciúme e leva Otelo a assassinar Desdêmona. No paralelo, José Dias encarna o papel de Iago; Bentinho, o de Otelo; Capitu, o de Desdêmona, como vítima. E nós, pobres leitores, somos o público privilegiado que sabe demais e, ainda assim, duvida de tudo.
Machado brinca com a nossa percepção e constrói uma imagem subvertida de Capitu. Com “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, ela parece mais mulher do que menina e, ainda assim, mantém um toque de inocência capaz de confundir até o narrador mais atento. Como não se perder nesse jogo? Como não se perguntar se todos os desejos que projetamos nos outros são, na verdade, apenas sombras dos nossos próprios medos?
A intenção é levar o leitor a formar uma imagem falsa de Capitu, derrubando a reputação da personagem — como Iago fez com Desdêmona nas mãos de Otelo. Machado induz, estrategicamente, o leitor a acreditar que a menina cujos “olhos o diabo deu” seduziu Bentinho.
Até o nome do protagonista carrega pistas: Bento Santiago. Bento, sacrossanto; Santiago, Sant’Iago. Machado não deixa nada ao acaso. Cada detalhe é uma pista para decifrar o enigma.
Ler Dom Casmurro é aceitar que a dúvida faz parte da experiência literária, que a “pena da galhofa” de Machado nos conduz com leveza e ironia.
E, no fim das contas, talvez a grande lição seja compreender que, mais importante do que saber se Capitu traiu Bentinho, é perceber que, no amor e na literatura, a pergunta pode revelar mais sobre nós mesmos do que a resposta.
Sobre a coluna asssuntasó!
A assuntasó! pauta a modernidade com leveza e transforma as neuroses da vida em matéria-prima para crônicas que relatam quem ousa viver o presente.
Will Assunção é cronista da modernidade e coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que a existência gira em torno do absurdo do cotidiano.
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