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Dia da Visibilidade Trans: Conheça Gabriel Romão, o novo Co-Diretor Executivo da TODXS

Genilson Coutinho,
23/01/2023 | 17h01
Foto: Divulgação

Nascido no distrito do Grajaú, extremo sul e periferia de São Paulo, Gabriel Romão acumula a superação de obstáculos ao longo da carreira. Homem transgênero e negro, ele constantemente não conseguia encontrar crescimento e estabilidade em sua vida profissional, até que, aos 33 alcançou o posto de co-Diretor Executivo da ONG TODXS, a posição mais alta na instituição. 

Formado em Pedagogia em 2013 pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Romão trabalha desde os 16 anos e ingressou no mundo corporativo antes de transicionar. Refletindo sobre a importância de uma data como o Dia da Visibilidade Trans, comemorado em 29 de janeiro, ele conta sempre ter tido desejo de se envolver com a área da educação, justamente para “melhorar o que nós [pessoas trans e cis] vivemos”. Romão entrou na TODXS em 2021, depois de participar do projeto TODXS Embaixadorxs, programa de formação de lideranças LGBTI+.

“Nem sempre eu soube que era uma pessoa trans, mas sempre tive a clareza de que era diferente do que a sociedade entende como padrão. Não me sentia confortável com meu jeito de vestir ou de me portar, que eram impostos para mulheres. Quando me reconheci trans, pensar em me transicionar parecia abrir mão da minha carreira, dos meus amigos, do amor e da minha família. Sustentei um personagem por 30 e poucos anos da minha vida”, afirma. 

“Trabalhei nas áreas de educação, treinamento, consultoria e recursos humanos. E sempre fui atravessado por questões raciais, questões com meu peso, meu cabelo, as roupas, o modo de falar. Sempre me confundiam como estagiário, mesmo quando já ocupava um cargo sênior”, lembra.

Romão conta que chegou a escutar que não possuía “perfil corporativo” para ascender em algumas empresas por onde passou. “Mesmo tendo estudado em uma das melhores universidades do País, parecia que, 17 anos depois, eu ainda não tinha ficado pronto. E que perfil é esse? Não usar trança? Ou não transicionar? Se existe um perfil corporativo, estou aqui para mudar isso e criar vários outros. Nunca vou ser esse cara [tradicionalmente exigido pelas empresas] e não quero me martirizar mais para parecer com ele”, diz. 

Segundo ele, datas como o Dia da Visibilidade Trans forçam a sociedade a pensar sobre as conquistas da população transgênero e sobre suas necessidades básicas, ainda bastante desrespeitadas. “A expectativa de vida de quem é trans é de 35 anos. Traçar uma linha do tempo de conquistas é importante quando a gente fala em visibilidade e faz as pessoas pensarem, repensarem e agirem intencionalmente para uma real alternância de poder e espaço”.

Para ele, ocupar um cargo de liderança numa ONG como a TODXS que promove ações de inclusão e diversidade para a população LGBTI+, o permite “contribuir para que outros não esperem 30 anos para serem quem são. Eu sei como me machuquei por medo de perder o básico para a minha sobrevivência”. Ainda que tenha passado por situações transfóbicas e racistas, Romão se lembra do apoio de colegas e familiares. “Uma frase muito importante foi quando escutei ‘você tem muito a contribuir. A sua experiência tem valor’. Ter suporte financeiro e familiar foi importante também. A testosterona custa 200 reais fora do SUS. Durante a transição, passei por endocrinologista, nutricionista, psicólogo. Estar no mercado corporativo fez com que eu tivesse dinheiro para bancar tudo isso. Abrir portas é isso: ocupar determinados espaços. Você precisa ser um dos primeiros, para que venha o décimo, o vigésimo depois de você”.

Neste primeiro cargo de liderança de sua vida profissional, Romão é responsável pelos projetos de impacto da ONG, como o TODXS Embaixadorxs e o Fundo TODXS (que fomenta a geração de renda para empreendedores e empreendedoras trans e travestis). 

Dia e Mês da Visibilidade Trans

Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, o Dia da Visibilidade Trans é comemorado desde o dia 29 de janeiro de 2004, quando foi organizado, em Brasília, um ato nacional para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”. O ato é considerado um marco para o movimento contra a transfobia. Ao longo de todo o mês, o Janeiro Lilás, é lembrada a importância da luta pela garantia dos direitos das pessoas trans. 

Sobre a TODXS

A TODXS é uma organização social sem fins lucrativos criada em março de 2016, que tem como objetivo coletar e processar dados sobre a população LGBTI+ e desenvolver iniciativas de alto impacto social. Com foco na promoção e inclusão de pessoas LGBTI+ na sociedade, a TODXS possui iniciativas de formação de lideranças, pesquisa, conscientização e segurança.