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Tuberculose permanece entre as principais causas de morte em pessoas com HIV, alerta infectologista Hilton Luís

Genilson Coutinho,
01/05/2026 | 12h05

Mesmo com avanços no tratamento do HIV, a tuberculose (TB) segue como uma das principais causas de morte entre pessoas vivendo com o vírus, segundo avaliação de especialistas.

Classificada como uma emergência de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde, a coinfecção HIV/TB ainda representa um desafio relevante para os sistemas de saúde. De acordo com o infectologista Dr. Hilton Luís, o cenário envolve não apenas aspectos clínicos, mas também dificuldades relacionadas ao acesso ao diagnóstico e à continuidade do cuidado.

No Brasil, cerca de 10% a 11% dos casos de tuberculose estão associados ao HIV, segundo explicação do infectologista Dr. Hilton Luís.

“A coinfecção aumenta a mortalidade por aids em até cinco vezes e eleva o risco de abandono do tratamento em três vezes”, afirma o especialista.

Segundo ele, apesar de uma tendência de queda impulsionada por novas tecnologias diagnósticas e pela ampliação da terapia antirretroviral, a tuberculose ainda se mantém como a principal causa de morte entre pessoas vivendo com HIV no mundo.

Por que quem vive com HIV tem mais risco?

De acordo com o Dr. Hilton, o aumento do risco está diretamente relacionado ao comprometimento do sistema imunológico causado pelo HIV.

O risco anual de desenvolver tuberculose ativa em pessoas com HIV pode chegar a 16%, enquanto em pessoas sem o vírus o risco ao longo da vida é de cerca de 5%. Mesmo com tratamento antirretroviral, esse risco permanece até 12 vezes maior.

“A queda das células de defesa impede que o corpo contenha a bactéria da tuberculose”, explica.

O especialista destaca que essa condição favorece a progressão da doença e dificulta o controle da infecção pelo organismo.

Sintomas podem ser diferentes e mais graves

Segundo o infectologista, a tuberculose em pessoas vivendo com HIV pode se manifestar de forma diferente da apresentação clássica, o que dificulta o diagnóstico.

Os sintomas mais comuns — como tosse persistente, febre e perda de peso — podem ser menos evidentes. Em casos de imunossupressão avançada, são mais frequentes formas extrapulmonares, com comprometimento de órgãos como cérebro, gânglios e outros sistemas.

“Alguns quadros evoluem rapidamente e podem levar à morte se não tratados com urgência”, alerta o médico.

Ele também aponta que exames tradicionais, como a baciloscopia, têm baixa sensibilidade nesses pacientes, motivo pelo qual diretrizes recomendam o uso de testes moleculares rápidos e exames complementares, como o LF-LAM na urina, especialmente em pessoas com imunidade muito baixa.

Tratamento exige integração e atenção

O tratamento da coinfecção envolve o manejo simultâneo do HIV e da tuberculose, o que, segundo o Dr. Hilton, exige acompanhamento cuidadoso.

O esquema padrão inclui antibióticos por pelo menos seis meses, associados à terapia antirretroviral. Entre os principais desafios, ele cita as interações medicamentosas — especialmente com a rifampicina —, a necessidade de ajuste de doses e o risco de síndrome inflamatória de reconstituição imunológica (IRIS).

“A coordenação entre os tratamentos é essencial para evitar falhas e garantir melhores resultados”, destaca o Dr. Hilton.

Prevenção ainda é subutilizada

O especialista chama atenção para a baixa cobertura do tratamento da infecção latente da tuberculose, considerada uma estratégia importante para evitar a progressão para a forma ativa da doença.

Regimes mais curtos, como o 3HP (isoniazida + rifapentina por 12 semanas), podem reduzir em até 76% o risco de adoecimento quando associados à terapia antirretroviral.

Segundo ele, ainda existem barreiras relacionadas ao acesso a exames, à logística no sistema de saúde e à adesão ao tratamento.

Desigualdade social agrava o cenário

De acordo com o infectologista, a coinfecção HIV/TB também está associada a fatores sociais.

Pobreza, desemprego, baixa escolaridade e condições precárias de moradia estão entre os elementos que aumentam o risco de adoecimento e dificultam o tratamento.

“Favelas, regiões de fronteira e grandes centros urbanos concentram casos. O estigma e a vulnerabilidade social atrasam o diagnóstico e interrompem o cuidado”, afirma o Dr. Hilton.

Um desafio que vai além da saúde

Para o especialista, o enfrentamento da coinfecção exige a ampliação de políticas públicas que integrem diferentes áreas. Ele destaca a importância de ações que envolvam acesso à saúde, moradia, alimentação e enfrentamento do estigma.

Sem essas medidas, a tendência, segundo ele, é de manutenção da coinfecção como um problema relevante de saúde pública no país.

*Da Agência AIDS