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Sala Vip: ‘Me sinto resistência desde sempre’, diz Lena Oxa

Carlos Leal,
15/04/2026 | 13h04
(Foto: Acervo pessoal)

Cearense de nascimento, mas cidadã do mundo, Lena Oxa é muito mais do que um nome nos palcos; ela é um pilar da memória e da sobrevivência da comunidade LGBTQIA+ no Brasil. Natural de Fortaleza, Lena construiu uma trajetória onde a arte e o ativismo caminham de mãos dadas, transformando o palco em um território de dignidade e voz. Sua história guarda um capítulo fundamental em Salvador, onde fincou raízes na década de 80. Naquela efervescente capital baiana, Lena não apenas viveu, mas foi protagonista de uma cena que resistia e se reinventava. Pelos palcos da noite soteropolitana e nas imediações da histórica Rua Carlos Gomes, ela moldou sua identidade artística — uma “Lena irreverente”, que nunca precisou de divas para se espelhar, pois trazia em si a coragem de ser o seu próprio diferencial.

Para além do brilho das luzes, Lena Oxa sempre carregou a responsabilidade social como missão de vida, marcada por um compromisso inabalável com a comunidade trans e travesti. Desde cedo, ela entendeu que a arte era uma ferramenta de transformação, envolvendo-se em frentes de apoio e associações para garantir que a cidadania não fosse um privilégio de poucos. Através de suas experiências, inclusive em passagens pela Europa, trouxe um olhar renovado para o Brasil, lutando para que a história das travestis não fosse apagada, mas sim celebrada como uma expressão milenar de cultura e teatro. Hoje, Lena é o que se pode chamar de “alicerce”: se no passado lutou para provar que era igual a todos, hoje colhe o respeito de gerações de jovens artistas que veem nela o exemplo de que a arte é, acima de tudo, um ato de sobrevivência.

Dois Terços: Lena, fazendo uma viagem pela sua trajetória, como você descreve o impacto que a arte do transformismo teve na construção da sua identidade pessoal e artística?

Lena Oxa: Sempre me identifiquei como travesti. O cenário artístico mudou muito, surgiram novas nomenclaturas e tudo é muito novo. Para quem quer continuar na arte, a adaptação é fundamental; precisamos entender esse novo contexto, caso contrário, o mercado se fecha. Ainda é complexo para as pessoas nos aceitarem como artistas nesse momento de transição, que envolve desde a herança do transformismo até a atual construção de identidade. Hoje, é preciso criar uma marca, montar a drag, ter um conceito. Não basta mais focar apenas no ‘sambão da travesti’, no glamour e na estética de cabaré de antigamente; hoje é preciso entregar o ‘bate de cabelo’, senão você não se afirma na cena. Tudo isso é, de fato, uma trajetória de resistência. Me sinto resistência desde sempre, mantendo a fidelidade ao trabalho em que acredito.

DT: Você é uma referência de resistência para a comunidade LGBTQIA+ cearense. Em que momento você percebeu que sua performance deixou de ser apenas entretenimento para se tornar um ato político de ocupação de espaços?

LO: Eu resisti a muita coisa, fui e voltei. Existem pesquisas que dizem que as travestis não passam dos 35 anos, aí eu estou aqui com 59 anos. Na década de 1980 eu, ainda menor de idade, fui para a rua, mas escolhi ser artista. Eu escolhi, eu posso dizer que escolhi, eu optei por ser artista. Eu gostava dos aplausos, eu vi aquilo tudo acontecer para mim, era tudo novo e maravilhoso. E eu fui para a rua, eu fui para a boate e olha que eu apanhava. Mesmo apanhando, correndo da polícia, eu estava lá, correndo com meu disco embaixo do braço. Conheci muita coisa que tinha que acontecer, passei por muitas mudanças, passei por muitas transformações na vida da arte. Tanto que em Fortaleza, no final da ditadura militar, fui para Salvador, fui para Europa. Em Salvador e peguei também outra ditadura, que foi na época que estavam matando muitas travestis, matavam por brincadeira, como se matava passarinho na época. Ai eu conheci o Grupo Gay da Bahia, o GGB, onde cheguei a ser presidente. Fui também presidente da associação das travestis. E para mim foi um marco muito grande, foi onde fui me descobrir que a minha resistência, meu ato de coragem, meu ato de cultura, de artista, ele estava se desenvolvendo com alguma coisa.

DT: Foi uma experiência diferente em Salvador?

LO: Ah, o pessoal me via como Lena, a Lena artista, que fazia show, que estava nas boates. E vivia brigando por esses momentos. A gente ia para a porta de polícia, para a porta de secretaria, ia para a porta dos bombeiros. Tudo era muito político, aquele momento, mas foi uma segunda ditadura também apanhei também em Salvador. Apanhei e fui presa junto com outras travestis. Mas as travestis provaram que tinham dignidade e lealdade a mim. Teve um fato muito interessante nessa época: eles estavam procurando a Lena. Eu estava com 12 meninas travestis dentro de uma cela. E eles procuravam e perguntavam quem era. E nem uma disse meu nome. Porque eu era procurada. Então eu vi que as baianas acreditavam em mim. Elas queriam que eu tivesse perto delas. Eu estava ali presa junto delas e nenhuma disse meu nome, nenhuma me entregou. Nenhuma foi contra mim. Então eu devo muitas às baianas. E esse foi o primeiro ato político que eu tive em Salvador. Muito honroso para mim, entendeu? E a minha resistência toda de andar tudo isso. Eu saí de Fortaleza para Salvador depois para a Europa, passei por diversos países e voltei para Fortaleza.

DT: Salvador ocupa um lugar especial no seu coração?

LO: Morei em Salvador por um longo período. Salvador é minha pátria do coração. Ela representa a esfera principal da minha vida, foi minha universidade, meu ponto de apoio. Ai conheci muitas pessoas e iniciei minha jornada artística. Quando cheguei a Salvador, estava começando, mas, com a convivência com grandes artistas, pude lapidar minha arte. Destaco Dion, Marquesa, Bargageryer Spielberg… todos com quem tive a honra de trabalhar. No Pau da Bandeira, na década de 80, na Boate Tropical, onde realizávamos maratonas de shows. Passei pelas principais boates de Salvador na década de 1980, a exemplo da Caverna, Ice Kiss, Tropical, Holmes…Foi uma época memorável, de muita luta… eu, Fabiane Calvão, Marina Garden…

DT: E sua vivencia em Fortaleza desde seu retorno da Europa?

LO: Tem muitas histórias, incluindo um programa na TV Diário, aqui em Fortaleza por 20 anos. Foram 20 anos de luta. Aguentando quando passava na Catraca e ouvia as brincadeirinhas. Naquela época a gente não tinha lei para poder nos ajudar. A gente tinha que aguentar mesmo. Eu tinha que aguentar porque eu queria estar ali. Então eu tinha que aguentar para ser 20 anos na TV Diário. Tive um programa de TV incrível. Me formei como jornalista. Sou editora de televisão. Enfim, eu já fiz tanta coisa na minha vida indo e voltando. Principalmente nessa parte artística da minha vida. Então eu tornei-me aqui um elemento, uma pessoa de estrutura, de pé firme que as pessoas acreditam e me tornei um símbolo político aqui. De resistência principalmente. Lena Oxa é um símbolo de resistência. E fazendo o programa Glitter dentro da televisão. O Glitter foi um reality show que eu posso dizer que movia todo mundo entre travestis, gays… Foram 12 travestis que eu coloquei numa televisão no horário das 16h, final de tarde. Então para mim foi uma glória muito grande.

DT: Fala um pouco sobre seus trabalhos sociais dentro da comunidade LGBTQIA+.

LO: Pois é, eu sempre conduzi as meninas trans, as travestis, as pessoas gays que queiram serem vistas como pessoas importantes na sociedade. Mais uma vez eu falo do Glitter. Para o programa eu peguei as meninas no meio da rua, as que eu conhecia, peguei 12 pessoas no meio da rua e transformei todas elas em artistas. Se você foi olhar todas elas hoje trabalham, umas têm salões de beleza, uma já tem confecção, outras são maquiadoras, enfim, eu gosto de ressocializar as pessoas para que elas se sentam gente. Não tenho vergonha de chegar onde elas vão, para onde elas vão, com quem elas vão. Para mim é muito bacana, tudo isso porque eu faço uma transformação que ninguém faz. Tem muita gente que diz “vamos fazer” mas não bota a mão na massa, não dão oportunidade àquela menina de ser maquiadora, de cantar, de participar de um show. No show ela vai se inspirando na maquiagem, vai fazer uma roupa e vai mudando as pessoas, elas vão acreditando que podem. E isso é o meu trabalho dentro da sociedade trans, a sociedade LGBTQIA+. Enfim, gosto de dizer que elas são capazes de fazer tudo isso. Esse é o meu trabalho.

“Acredito que nós, artistas veteranos, merecíamos maior reconhecimento e apoio para manter a arte viva”.

DT: Se falarmos nos artistas LGBTS veteranos, você acha que há uma valorização deles hoje?

LO: Acredito que nós, artistas daquela época, merecíamos maior reconhecimento e apoio para manter a arte viva. Tenho 43 anos de atuação e necessito de um benefício que me valorize, especialmente diante dos ministérios da educação e, principalmente, da cultura. Lutamos tanto para sermos artistas, e hoje, a valorização parece diminuir com o tempo. As oportunidades de apresentação se esgotam. É difícil viver em um país onde a cultura não nos beneficia. Nós, que vivemos a ditadura, éramos retirados dos palcos, e as portas se fechavam. Tínhamos que nos esconder para nos afirmar como artistas. Por isso, a valorização é fundamental.

DT: Como você avalia a evolução do cenário drag transformista, não somente em fortaleza, mas no Brasil?

LO: Hoje em dia, cada um tem que se destacar, dar seu nome. Elas não podem estar paradas. Elas não podem dormir porque a vida da gente é uma coisa que segue. A gente não pode parar e dizer “ eu estou cansado hoje e não vou”. Você tem que postar todos os dias. Você tem que postar alguma coisa na internet, porque hoje está todo mundo no barco só. Está todo mundo fazendo acontecer e dizendo a que veio. Ninguém pode estar apagado hoje em dia. Então você tem que ser drag, você tem que ser travesti. Você tem que bater o peito, você tem que bater o cabelo. É uma história de renascimento todos os dias. Vamos dizer que as pessoas têm que se reinventar todos os dias para estar dentro do cenário LGBT drag transformista, porque senão não trabalha e não ganha dinheiro.

DT: Lena, quem foram suas Divas ou musas inspiradoras?

LO: Sabe de uma coisa? A verdade é que eu não tive divas. Eu nunca tive essa pretensão de me espelhar em alguém ou tentar ser como outra artista. Eu queria ser somente a Lena. Quando eu comecei, nem imaginava que um dia iria virar uma referência, eu só queria viver e construir as minhas próprias histórias.
Claro que eu via grandes pioneiras. Eu via a Nanny People, a Rogéria, ou a Dion — que inclusive me deu uma força enorme quando cheguei em Salvador. Mas eu não olhava para elas pensando em copiá-las. Eu via o trabalho delas como uma porta de entrada, uma prova de que era possível a gente ocupar aquele cenário. Mas eu não podia me moldar ao formato de ninguém. Eu tinha a minha própria característica: eu era a Lena irreverente, que gosta de pegar o microfone, de falar, e de fazer o meu próprio diferencial.
Se me perguntarem o que realmente me moveu, eu digo que não foi a inspiração em nenhuma diva, mas sim um ato de sobrevivência. A minha força vinha da vontade de mostrar para as pessoas que eu era travesti, que eu tinha capacidade de fazer a minha arte e que eu era igual a todo mundo. A minha maior inspiração sempre foi ser eu mesma.

DT: Lena, você está completando 43 de carreira e sabemos que terá comemoração em Fortaleza. E em Salvador, algo programado?

LO: Eu gostaria muito de fazer algo em Salvador, mas não tenho nada programado ainda. Aqui em Fortaleza farei essa comemoração no Teatro José de Alencar, que é lindo. Mas eu queria muito também fazer algo em Salvador para reunir os amigos que estiveram comigo nessa caminhada, as pessoas que fizeram o meu nome.