João Victor Toledo retorna aos palcos com “O Sacrifício de Cassamba Becker”
Foto:Caio Oviedo
Em sua dramaturgia de estreia, o ator João Victor Toledo convida o público a refletir sobre a crise político-cultural do país e o futuro do planeta através de uma perspectiva queer. A peça O Sacrifício de Cassamba Becker, escrita no início da pandemia, em 2020, tem direção e atuação do próprio João Victor em seu primeiro solo e conta com a colaboração de diretores como Murillo Basso, Marina Nogaeva Tenório e Cristiane Paoli Quito. A curta temporada acontece de 05 a 21 de junho, sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h, no Galpão do Folias.
Após uma residência, em outubro de 2022, no Centro Cultural da Diversidade, O Sacrifício de Cassamba Becker fez sua primeira abertura no Festival MixBrasil do mesmo ano e recebeu o Coelho de Prata (Prêmio do Público) de Melhor Espetáculo do festival. A peça também foi uma das três selecionadas para uma residência no Rattlestick Theater de Nova York e fez três apresentações no Global Forms Theater Festival, em junho de 2023. De volta ao Brasil, contou também com uma curta temporada no teatro Pequeno Ato, em agosto de 2024.
A peça se passa numa praia imunda onde vive Cassamba Becker, interpretada pelo próprio João Victor. Já de início ela informa à plateia ter sido um dia considerada a maior atriz do mundo. “A Cassamba surgiu da minha admiração por atrizes antigas, pela pessoa extraordinária que foi Cacilda Becker, e pela Cassandra, a princesa-vidente de Tróia retratada na Ilíada”, conta o ator. Ao longo do espetáculo, ele brinca com diversos graus de representação e com as linguagens da drag queen e do clown. No entanto, o trabalho não é um stand-up de drag nem um solo de palhaço. É um espetáculo tragicômico que faz uso dessas máscaras para tratar de temas urgentes como a crise ambiental e o apagamento da memória histórico-cultural brasileira.
A sustentabilidade e a precariedade são elementos centrais da encenação e atravessam todas as áreas da criação cênica. Nas versões apresentadas anteriormente em São Paulo e em Nova York, João Victor buscou trabalhar com o excesso de lixo para provocar a plateia a refletir sobre o quadro devastador que estamos projetando para o futuro do planeta. Cenário e figurino foram praticamente todos feitos com materiais coletados em lixos e caçambas de ambas as cidades. Para a última versão, no entanto, o autor escolheu assumir o palco vazio e selecionou apenas alguns elementos essenciais de todo esse lixo coletado para auxiliá-lo em cena. O boneco de Jair Bolsonaro, que recebia um fisting ritualizado de Cassamba ao som de “Choros n.º 10 (Rasga o Coração)”, de Villa-Lobos, também ficou de fora na nova versão. “Já me livrei daquele lixo”, diverte-se o ator.
A precariedade da peça não se limita à questão ambiental. O desmantelamento generalizado das políticas culturais na última década também é tema central do espetáculo e se reflete, por exemplo, na figura da própria Cassamba Becker, uma grande atriz que vive numa situação de isolamento e escassez, e na referência ao incêndio do Museu Nacional no decorrer do espetáculo. Apesar do cenário catastrófico, João Victor vê na precariedade uma possibilidade de retrabalhar positivamente a realidade e de reafirmar a capacidade de reinvenção da arte e dos artistas do Brasil, que, mesmo em condições adversas, seguem criando.
Além disso, assumir a precariedade dá lugar a uma teatralidade que se apoia no pacto de imaginação entre artista e público, o que, para ele, pode ser um modo de se exercitar o conceito de “utopia queer”, desenvolvido pelo teórico americano José Esteban Muñoz e que o influenciou bastante na pesquisa do espetáculo. “Para mim, a Cassamba Becker é a materialização cênica do que poderia ser uma utopia queer: uma confusão, uma reconfiguração do tempo-espaço heteronormativo capitalista, uma ampliação do horizonte por meio da imaginação e do riso”, diz João Victor. “Um horizonte queer reconfigura a ideia de liberdade, desafia políticas moralizantes e propõe práticas solidárias e sexuais muito mais interessantes.”
SOBRE JOÃO VICTOR TOLEDO
João Victor Toledo é ator e palhaço. Formou-se em Teatro e História pela Universidade Livre de Berlim, é mestre em Estudos da Perfomance pela Universidade de Nova York e doutorando em Teatro e Performance pela Universidade da Cidade de Nova York. Estudou por anos a linguagem do palhaço com Cristiane Paoli Quito e canto lírico na Escola Municipal de Música de São Paulo, com Andrea Kaiser. Ao longo dos anos, colaborou com diferentes companhias de teatro e dança, como Constanza Macras|DorkyPark, ZU-UK, Bryckenbrant e Teatro do Osso, e com os diretores Marina Nogaeva Tenório, Rogério Tarifa, Tadashi Endo e Anna Deavere Smith. Em 2022, estreou o solo “O Sacrifício de Cassamba Becker” no Festival Mix Brasil, onde venceu o Júri Popular de Melhor Espetáculo, e, em 2023, participou do Global Forms Theater Festival do Rattlestick Theater de Nova York. O espetáculo fez ainda uma curta temporada no Pequeno Ato, em São Paulo, em 2024.
SINOPSE
Cassamba Becker, a grande atriz, finalmente se aposentou e fez de lar o lixão de alguma praia perdida Brasil afora. De lá, ela observa as barbatanas fluorescentes das baleias e vislumbra um mundo mais vasto, sensual e iluminado. “Da insatisfação chegaremos à potencialidade coletiva”, disse certamente Dercy Gonçalves. Ou Gramsci. Pouco importa. O presente não basta. Só o entulho salva.
FICHA TÉCNICA
Direção, dramaturgia e atuação: João Victor Toledo
Direção de atuação: Marina Nogaeva Tenório
Provocação: Cristiane Paoli Quito e Murillo Basso
Direção de arte, cenário e figurino: Uibirá Barelli
Desenho de luz: Nara Zocher
Operação de luz e som: Nara Zocher e Vini Florido
Desenho de som: Zhaxi Danzeng e João Victor Toledo
Produção: Murillo Basso e João Victor Toledo
Fotos de divulgação: Caio Oviedo
Também colaboraram em diferentes etapas da criação artística: Afonso Costa, Alexandre Martins, Anula Navlekar, Cris Rocha, Eugenia Cecchini, Jody Doo, Keren Chernizon, Mars Juno Bartolome Neri, Natasha Marie Rotondaro, Renan Ferreira, Renata Gaspar, Stefania Bulbarella, Timmy Ong, Vini Florido e Yang Yu.
SERVIÇO
O Sacrifício de Cassamba Becker, de João Victor Toledo
Temporada: 05.06.26 – 21.06.26
Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h. (9 apresentações)
Local: Galpão do Folias. R. Ana Cintra, 213 – Campos Elíseos, São Paulo – SP
Ingresso: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia)
Vendas online pelo Sympla e bilheteria local (1 hora antes do espetáculo – dinheiro ou pix).
Capacidade: 74 lugares
Classificação: 14 anos
Duração: 60 minutos
Link p/ vendas:
