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Fundo Brasil divulga pré-selecionados do edital LGBTQIA+ Defendendo Direitos 2026

Genilson Coutinho,
26/05/2026 | 22h05

Na segunda-feira, 25, o Fundo Brasil de Direitos Humanos anuncia as 20 organizações pré-selecionadas no edital LGBTQIA+ Defendendo Direitos 2026. As iniciativas escolhidas atuam em diferentes regiões do país com projetos voltados à defesa de direitos, fortalecimento institucional e incidência política em territórios marcados por violência, ausência de políticas públicas e precarização das condições de vida da população LGBTQIAPN+. O valor previsto para cada apoio é de até R$ 50 mil.

Os projetos pré-selecionados abordam temas diversos: enfrentamento à LGBTfobia em assentamentos rurais, redução de danos, justiça climática, monitoramento da violência política contra pessoas trans, fortalecimento jurídico, produção de dados, comunicação comunitária e formação de lideranças periféricas. Em comum, os grupos apresentam forte atuação territorial e conexão direta com demandas locais que frequentemente ficam fora das prioridades institucionais de financiamento.

Para a diretora executiva do Fundo Brasil, Ana Valéria Araújo, o resultado ajuda a dimensionar a urgência do fortalecimento das organizações LGBTQIAPN+ no país. “Esses grupos atuam onde a violência chega primeiro e a política pública costuma chegar por último. Apoiar essas iniciativas também significa reconhecer a capacidade política e comunitária que existe nesses territórios, especialmente fora dos grandes centros”, afirmou.

Chamamos de pré-selecionados os grupos indicados pelo Comitê de Seleção e direção do Fundo Brasil para receber o apoio. Após a divulgação deste resultado, a equipe responsável pelo edital realiza o contato direto para aprofundar a análise das propostas, incluindo aspectos como viabilidade, alinhamento técnico e procedimentos contratuais. É somente após esse processo que o apoio é confirmado e as atividades começam.  

O edital recebeu 481 inscrições de grupos de todo o Brasil.

Veja os pré-selecionados:

OrganizaçãoEstadoRegião
Associação de Redução de Danos do Amazonas – ARDAMAmazonasNorte
Coletivo Diversidade Vilhena – DIVHA (RO)Rondônia  Norte
Coletivo LGBTIA+ Somar de Porto Velho/RO (RO)Rondônia  Norte
GRUPO DAS HOMOSSEXUAIS THILDES DO AMAPÁ – GHATA (AP)AmapáNorte
INSTITUTO BRENDA LEE (RR)RoraimaNorte
Associação Baiana de Travestis, Transexuais e Transgêneros em Ação – Atração (BA)BahiaNordeste
COLETIVO LGTB SEM TERRA DO CEARÁ (CE)CearáNordeste
Coletivo Clima Queer (PE)PernambucoNordeste
Coletivo Frida (PI)PiauíNordeste
Grupo Afirmativo de Mulheres Independentes do RN (RN)Rio Grande do NorteNordeste
Grupo Karatis (CE)CearáNordeste
Intersexo Brasil (PE)PernambucoNordeste
Movimento Espírito Lilás – MEL (PB)ParaíbaNordeste
Instituto Brasileiro de Inovações Pró Sociedade Saudável Centro Oeste – IBISSCO (MS)Mato Grosso do SulCentro-Oeste
Coletivo LGBTI do MST (SP)São PauloSudeste
Grupo De Emancipação E Luta Livre a Orientação Sexual – Ellos (RJ)Rio de JaneiroSudeste
Minha Criança Trans (SP)São PauloSudeste
VRAA Paraty (RJ)Rio de JaneiroSudeste
ASSOCIACAO COLETIVO LGBTQIAPN (R)EXISTIR (PR)ParanáSul
Associação Viver sem Cárcere (RS)Rio Grande do SulSul

Um retrato do país fora das capitais

O resultado consolidou projetos com forte presença no Nordeste, além de iniciativas em territórios rurais, periferias urbanas e cidades do interior, espaços onde organizações LGBTQIAPN+ frequentemente acumulam funções de acolhimento, proteção e articulação política diante da ausência do poder público.

A diretora executiva adjunta do Fundo Brasil, Allyne Andrade, destacou que o apoio ao campo LGBTQIAPN+ segue como prioridade política da instituição. “O tamanho da demanda mostra como ainda existe pouca estrutura de financiamento para organizações que sustentam respostas fundamentais nos territórios. Isso aumenta bastante a responsabilidade do processo de seleção”.

Entre os critérios considerados pelo comitê estiveram o protagonismo trans e travesti, a atuação em territórios pouco assistidos, o fortalecimento de organizações de base e a capacidade de articulação política das propostas apresentadas. Houve também uma preocupação em garantir diversidade regional e apoiar grupos de menor porte, que recebem pouco ou nenhum recurso, especialmente fora dos grandes centros urbanos.

O processo foi conduzido por um comitê formado por ativistas e especialistas com trajetória na defesa de direitos LGBTQIAPN+. Participaram da análise Daniele Duarte, assistente social, especialista em Direitos Humanos e doutoranda pela PUC-Rio, atua na proteção de defensoras e defensores de direitos humanos e integra a direção adjunta da Justiça Global;  Jean Vinicius Costa,cientista social e mestrando pela UFBA, com atuação em saúde pública, raça e direitos LGBTQIAPN+, é consultor técnico no Ministério da Saúde; Mel Fernandes, psicóloga, mestre em Psicologia Social e ativista trans no Rio Grande do Norte, atua com filantropia estratégica e fortalecimento de organizações LGBTQIAPN+; e Wilson Guilherme, pesquisadora em Direitos Humanos, diretora do C-PARTES e desenvolve estudos sobre tecnologia, transfobia e políticas públicas na Amazônia.

Daniele ressaltou o alto nível das propostas e chamou atenção para as desigualdades no acesso aos recursos. “Recebemos projetos muito qualificados, especialmente do Nordeste. Mas também ficou evidente como organizações lideradas por mulheres lésbicas e bissexuais ainda encontram mais barreiras para acessar financiamento”, observou.

Jean Vinicius Costa de Oliveira destacou o peso político da seleção diante do avanço da violência contra a população LGBTQIAPN+ em diferentes territórios. “Fortalecer essas organizações é fortalecer redes que enfrentam a LGBTfobia em regiões muitas vezes completamente desassistidas”, afirmou.

Já Mel ressaltou a preocupação do comitê em “garantir protagonismo efetivo de pessoas trans, travestis e intersexo nas organizações apoiadas, com atenção especial para grupos do interior e iniciativas com pouca estrutura financeira, mas forte atuação comunitária”.

Will destacou iniciativas voltadas ao monitoramento da violência política contra crianças trans, fortalecimento de redes comunitárias, acesso à documentação civil e ampliação de estruturas locais de proteção para pessoas LGBTQIAPN+.

Necessidade de acolhimento para incidência política

Ao longo das discussões, o comitê também debateu um ponto recorrente no campo dos direitos humanos: como reconhecer o acolhimento como parte da incidência política. Em muitos territórios, especialmente fora das capitais, oferecer proteção emergencial, orientação jurídica ou apoio psicossocial é justamente o que permite sustentar organização comunitária e permanência política.

Gislene Aniceto, gerente geral do Fundo Brasil, destacou que as propostas recebidas revelam um campo LGBTQIAPN+ cada vez mais articulado politicamente. “As propostas mostram organizações combinando acolhimento, incidência política, produção de dados, comunicação e proteção comunitária de maneira muito consistente. São grupos que conhecem profundamente seus territórios e constroem respostas concretas para problemas urgentes”, afirmou.

As discussões do comitê também evidenciaram mudanças importantes no perfil das organizações inscritas. Cresceu o número de propostas voltadas à produção de dados, proteção integral, comunicação política e incidência em políticas públicas.

Nos próximos dias, o Fundo Brasil entrará em contato com as organizações pré-selecionadas para dar início ao processo de análise técnica e documental das propostas. A formalização do apoio acontecerá após validação das informações e aprovação final da equipe responsável.