“Fui a primeira Drag Queem a receber o título de cidadã paulistana e isso significa muito para mim e pra a causa LGBTQIA+”, diz Salete Campari
Nossa convidada do Sala Vip de hoje é Salete Campari, uma das figuras mais emblemáticas da cultura drag queen no Brasil. Com uma trajetória que une a precisão acadêmica da sua formação em Matemática ao brilho da noite paulistana, ela consolidou sua carreira através de performances memoráveis de ícones como Marilyn Monroe e Elis Regina. Sua versatilidade artística a levou para além dos palcos das boates, com participações no cinema (como no filme Carandiru), no teatro e em programas de grande audiência na televisão brasileira, tornando-se uma voz fundamental para a visibilidade da arte transformista.
Para além do entretenimento, Salete é uma ferrenha militante da causa LGBTQIA+, utilizando seu capital político e midiático para lutar por cidadania e direitos fundamentais há mais de duas décadas. Pioneira da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, ela também fundou a ONG Grupo D’VERDADE e atuou como delegada em conferências nacionais, defendendo pautas cruciais como a criminalização da homofobia. Sua jornada reflete um compromisso constante entre a expressão artística e a política, transformando o glamour dos palcos em uma ferramenta de resistência e transformação social. Salete bateu um papo com o DOIS TERÇOS e contou um pouco da sua trajetória. Confiram.
“Quando uma professora ensina seu aluno a respeitar as diferenças, ela está contribuindo para sermos um país inclusivo”
DOIS TERÇOS: Para começar, gostaria de saber em que momento surgiu Salete Campari na sua vida.
SALETE CAMPARI: Salete Campari entrou na minha vida no ano de 1986. Ali, nascia uma nova pessoa.
DT: Você é da cidade de Araruna, no interior da Paraíba, e sabemos que o preconceito e a homofobia que hoje ainda é grade, era ainda maior se pensarmos em algumas décadas atrás. Como sua família encarava ter uma pessoa LGBTQIA+ na família?
SC: Eu saí de casa muito cedo e meus familiares ficaram na Paraíba. Nesse sentido, posso dizer que eles aceitaram numa boa, pois eu estava aqui em São Paulo, sozinha e quando eles vieram tomar conhecimento da Salete Campari, eu já era uma artista conhecida e isso não impactou em nada. Nunca tive problema de preconceito na família.
DT: Mas e a fase de infância, como foi para você?
SC: Minha infância sendo uma pessoa LGBTQIA+ foi maravilhosa. Naquela época só existia gay, lésbica e travesti e eu era o gay da família, uma criança alegre e a cidade inteira sabia o que eu era e gostava de mim do meu jeito. Meus pais faleceram eu tinha apenas sete anos de idade, fui criado pelas minhas irmãs e elas nunca me trataram diferente por eu ser “gay”.
DT: E o nome Salete Campari, como surgiu?
SC: Esse nome é em homenagem e uma cunhada, já falecida. Quando eu vim morar em São Paulo ela trabalhava em uma empresa como promoter da bebida Campari e de tanto eu vê-la, não somente fazendo propaganda da bebida, mas também tomando campari na hora do almoço, eu resolvi colocar meu sobrenome artístico de Campari, e deu certo
DT: Em 2018 você recebeu o título de cidadão paulistana. O que isso representou na sua vida?
SC: Foi um marco na minha vida. Fui a primeira Drag Queem a receber esse título. Olha, uma pessoa LGBT, nordestina, chegar em São Paulo e ser agraciada com esse título de acolhimento é de extrema importância. Esse título é muito significativo, quando concedem esse título a alguém, significa que os políticos e a sociedade te respeita, que te inclui na história da cidade, então, para mim foi a maior honra do mundo receber esse título com a câmara de vereadores lotada no dia da entrega. Significava para mim, ali, que estavam me dizendo “você é de São Paulo”. Nasci na Paraíba e me tornei cidadã paulistana. Agradeço muito ao, então vereador, Eduardo Suplicy. Foi ele o grande responsável.
DT: O mundo mudou e muita coisa melhorou com relação aos direitos da população LGBT, mas ainda há muito a ser conquistado. A violência ainda é grande e somos um dos países que mais mata a população LGBTQIA+. Na sua opinião, o que falta para melhorar as estatísticas?
SC: Na minha opinião, falta mais união da comunidade LGBT, principalmente na hora de votar. É importante votar em candidatos que representem a comunidade LGBT. Só teremos um país justo quando tivermos políticos que respeitem e lutem pelos direitos dos LGBTs. Quando se tem políticos que não respeitam essa diversidade, a sociedade também adere a esse posicionamento. Uma prova disso é o nosso presidente anterior, que não respeitava a diversidade, principalmente a comunidade LGBT e sabemos que isso foi muito ruim para a comunidade LGBT. Hoje, no governo do presidente Lula, que vemos politicas públicas voltadas para a diversidade já percebemos mudanças, mas, mesmo assim, ainda há muito a ser conquistado pois o Brasil é um dos países que mais mata a população LGBT no mundo. Acredito que para que o respeito à população LGBT aconteça, isso tem que começar na escola pois a educação é a base de tudo. Quando uma professora ensina seu aluno a respeitar as diferenças, ela está contribuindo para sermos um país inclusivo.
DT: Fala um pouco da Salete Campari escritora
SC: Além da minha autobiografia intitulada Salete Campari: a drag queem foi lançado também o gibi Corujão da Salete Campari, com textos e ilustrações de Ruiz Paradiso…. mas eu tenho projetos: pretendo, não sei quando, escrever sobre as primeiras paradas LGBTS do Brasil, nas quais eu estive presente. Nesse trabalho, além de textos contando essas histórias, também incluirei fotos mostrando para as novas gerações a importância das paradas LGBTS, fundamentais para nossa comunidade.
DT: Já estamos quase na metade de 2026… quais são seus projetos já concretos até o final do ano?
SC: Já estou e quero trabalhar ainda mais, meu carnaval, por exemplo, foi maravilhoso… vem aí meu aniversário, dia 23 de maio, depois tem os 50 anos do Miss Brasil Gay Juiz de Fora, semana da parada LGBT de São Paulo. Bom, nós não paramos, na verdade, não podemos parar pois temos que pagar nossas contas.
DT: O Dois Terços é um site muito acessado pela comunidade LGBT, principalmente de Salvador. Que recado você deixa para nossos leitores?
SC: Quero deixar um beijo para todos da Bahia. Amo Salvador, essa cidade cheia de beleza e encantos além da magia dos orixás. Que o ano de 2026 e todos os que virão depois sejam cheios de axé.


