Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+: avanço dos discursos de ódio nas redes amplia riscos à população e reforça debate sobre regulação das plataformas
No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, celebrado no próximo 28 de junho, a Coalizão Direitos na Rede (CDR) chama atenção para o crescimento dos discursos de ódio nas plataformas digitais e seus impactos concretos na vida da população LGBTQIA+. Em um cenário marcado pela flexibilização de regras de moderação de conteúdo por grandes empresas de tecnologia, especialistas e organizações da sociedade civil alertam para o aumento da circulação de mensagens discriminatórias, da desinformação e de ataques direcionados a grupos historicamente vulnerabilizados.
A preocupação se torna ainda mais urgente diante dos dados de violência registrados no país. Segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia, o Brasil contabilizou 257 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+ em 2025, o equivalente a uma morte a cada 34 horas. Os números reforçam a persistência de um contexto de violência estrutural que ultrapassa o ambiente digital, mas que encontra nas redes sociais um espaço fértil para a disseminação de discursos discriminatórios, estigmatização e incitação ao ódio.
Nos últimos anos, mudanças promovidas por grandes plataformas digitais têm gerado preocupação entre pesquisadores e organizações de direitos humanos. Após a aquisição da rede social X por Elon Musk, estudos apontaram crescimento expressivo de conteúdos racistas, homofóbicos e transfóbicos na plataforma. Em 2025, a Meta também passou a permitir, em suas políticas de moderação, conteúdos que associam orientação sexual e identidade de gênero a doenças mentais em determinados contextos, além de encerrar seu programa de verificação de fatos nos Estados Unidos, aproximando-se de um modelo de moderação mais permissivo.
Para a Coalizão Direitos na Rede, essas decisões não podem ser analisadas isoladamente. O modelo de negócios das plataformas digitais privilegia conteúdos que geram engajamento, independentemente de seus impactos sociais. Em muitos casos, publicações marcadas por conflito, choque e polarização alcançam maior alcance e visibilidade, criando incentivos para a circulação de conteúdos discriminatórios e de desinformação. Pesquisas recentes também indicam que Instagram, Facebook e X concentram parte significativa dos conteúdos de ódio e desinformação direcionados à população LGBTQIA+, frequentemente impulsionados por atores políticos e grupos organizados.
Nesse contexto, a CDR defende a construção de um marco regulatório democrático para as plataformas digitais, capaz de garantir maior transparência sobre sistemas de recomendação, responsabilização das empresas por riscos sistêmicos e proteção efetiva dos direitos fundamentais. Para a Coalizão, fortalecer a governança das plataformas não significa restringir a liberdade de expressão, mas assegurar que direitos como igualdade, dignidade, segurança e participação democrática sejam respeitados também no ambiente digital.
“Regular é estabelecer instrumentos públicos e sociais para que a sociedade e as autoridades tenham meios de verificar que, de fato, as plataformas digitais estão atuando conforme suas obrigações em garantir um ambiente plural, diverso e seguro, e que quais tipos de medidas estão sendo tomadas para enfrentar a incitação à violência. Hoje esses tipos de instrumentos de transparência não existem “, afirma Alexandre Arns Gonzales, pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entidade integrante da Coalizão Direitos na Rede (CDR).
A Coalizão destaca que o combate à violência contra pessoas LGBTQIA+ exige ações articuladas entre Estado, sociedade civil e empresas de tecnologia. Em um contexto de crescimento da desinformação e dos discursos de ódio, garantir ambientes digitais mais seguros e transparentes é parte fundamental da proteção dos direitos humanos e do fortalecimento da democracia.
Sobre a Coalizão Direitos na Rede
A Coalizão Direitos na Rede (CDR) é uma articulação de mais de 40 organizações da sociedade civil brasileira que, desde 2018, atua na defesa dos direitos digitais como parte essencial dos direitos humanos. Com forte incidência em políticas públicas, a CDR promove ações de advocacy, mobilização e produção de conhecimento sobre temas como liberdade de expressão, privacidade, proteção de dados, inclusão digital e regulação democrática das plataformas digitais. Seu trabalho visa fortalecer a democracia e combater desigualdades no ambiente digital, especialmente entre grupos mais vulnerabilizados. Saiba mais em: Link