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Beijo grego é estratégia valiosa?

Will Assunção,
26/06/2026 | 19h06

Há quem diga que, no sexo e na literatura, toda forma de prazer é válida. E talvez seja por isso que dois temas tão antigos quanto polêmicos consigam apontar para grandes tabus da modernidade: o beijo grego e o dark romance. Ambos despertam curiosidade, fascínio, julgamento e aquela irresistível vontade de descobrir o que há por trás daquilo que tanta gente condena, e tanta gente consome em segredo.

Afinal, devemos experimentar ser livres na busca pelo prazer? Se sim, podemos descobrir que uma língua quente, entre lábios macios, pode transformar nosso corpo em território a ser explorado pelo outro. Ou, em uma hipótese alternativa, que existem caminhos, guiados por impulsos instintivos, capazes de provocar arrepios onde nunca imaginamos procurar. E que o desejo, assim como a imaginação, raramente respeita fronteiras bem delimitadas.

Mas se o beijo grego é tão prazeroso quanto dizem por aí, por que se tornou um dos maiores tabus da sexualidade — especialmente entre os homens? Talvez porque o problema nunca tenha sido o prazer, mas tudo aquilo que ele simboliza.

Durante décadas, homens foram ensinados a seguir uma espécie de GPS emocional e sexual: avance em linha reta, não faça desvios e jamais questione o trajeto. Qualquer prazer que surgisse fora dessa rota vinha acompanhado de dúvidas, olhares atravessados, perguntas desconfortáveis e julgamentos apressados. Afinal, por que algo capaz de provocar tanto prazer desperta, ao mesmo tempo, tanta resistência?

E não é curioso? Algumas partes do corpo parecem carregar menos terminações nervosas do que convenções sociais. Quando o assunto é sexualidade, muitas pessoas gastam mais energia protegendo uma identidade do que explorando uma sensação.

O que nos leva a uma pergunta inevitável: quantas experiências deixamos de viver não apenas porque temos medo do que vamos sentir, mas também porque temos medo do que os outros vão pensar sobre aquilo que sentimos?

O que os gregos descreviam há milhares de anos, desde que a Antiguidade Clássica descobriu que o sexo está muito além de cumprir uma função reprodutiva? Que o prazer é, antes de tudo, uma experiência humana: complexa, curiosa e frequentemente contraditória. Talvez por isso tenham compreendido algo que ainda hoje insistimos em esquecer: o erotismo raramente respeita as fronteiras que a moral desenha.

Séculos se passaram. Impérios ruíram. Costumes mudaram. Mas continuamos negociando com os mesmos receios. Ainda existem zonas inteiras do prazer cercadas por preconceitos, como se determinadas sensações precisassem se justificar para existir.

E então me pergunto: se a curiosidade é considerada uma virtude em quase todos os aspectos da vida, por que ela ainda desperta tanta desconfiança quando o assunto é sexo?

Apesar de toda a ferrugem acumulada pelo moralismo, muitos homens admitem, entre quatro paredes, o prazer proporcionado pelo beijo grego. Outros rejeitam a ideia imediatamente. Nem sempre por falta de interesse. Às vezes, apenas por receio. Porque descobrir uma nova fonte de prazer pode ser mais desestabilizador do que continuar acreditando que ela não existe.

Muitos homens sentem prazer com o beijo grego e a ciência oferece algumas explicações. A região estimulada possui uma concentração significativa de terminações nervosas sensíveis ao toque, à temperatura e à pressão. A estimulação indireta da próstata, uma glândula frequentemente chamada de “ponto G masculino”, pode intensificar as sensações de prazer sexual, ainda que sem penetração. Mas seria simplista acreditar que a história termina na anatomia.

O prazer sexual raramente é apenas físico. Existe a intimidade. Existe a entrega. Existe a excitação provocada pelo proibido. Existe o fascínio de ser tocado exatamente onde a sociedade ensinou que não se deveria procurar prazer. E talvez seja por isso que a pergunta mais interessante não seja por que alguns homens gostam, mas por que ainda nos surpreendemos quando eles gostam.

Afinal, passamos anos aceitando que o prazer feminino pode habitar múltiplos pontos do corpo. Por que ainda insistimos em acreditar que o masculino deveria obedecer a um mapa tão limitado? É provável que a verdadeira curiosidade não esteja na anatomia, mas no desconforto que sentimos quando o prazer decide ignorar as fronteiras que nós mesmos criamos. 

E se o beijo grego não fosse apenas uma extravagância do cardápio sexual moderno, mas uma estratégia surpreendentemente eficaz para expandir o mapa do prazer? Afinal, quantas experiências classificamos como estranhas antes mesmo de descobrir o que elas têm a oferecer?

Sobre a coluna asssuntasó!

A assuntasó! pauta a modernidade com leveza e transforma as neuroses da vida em matéria-prima para crônicas que relatam quem ousa viver o presente.

Will Assunção é cronista da modernidade e coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que a existência gira em torno do absurdo do cotidiano.

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