HIV em pauta

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Argentina reduz em 76% o orçamento do programa de HIV; Cabo Verde busca eliminar a transmissão vertical do vírus

Genilson Coutinho,
03/07/2026 | 14h07

Argentina e Cabo Verde entram em campo nesta sexta-feira (3), em Miami, valendo uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Favorita ao bicampeonato consecutivo, a seleção argentina chega embalada após vencer os três jogos da fase de grupos. Do outro lado, Cabo Verde continua escrevendo um dos capítulos mais surpreendentes desta edição ao alcançar, logo em sua estreia em Mundiais, uma inédita classificação para o mata-mata.

Mas, além da disputa pela sobrevivência na Copa, as duas seleções representam realidades bastante diferentes em outra competição de longa duração: o enfrentamento ao HIV.

Enquanto a Argentina busca preservar décadas de políticas públicas reconhecidas internacionalmente diante de cortes orçamentários e mudanças administrativas, Cabo Verde se aproxima de um marco histórico na saúde pública ao pleitear a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV.

São dois caminhos distintos que mostram como os avanços contra a epidemia exigem investimento contínuo, compromisso político e acesso permanente à prevenção e ao tratamento.

Argentina construiu uma das respostas mais sólidas da América Latina

Poucos países latino-americanos acumulam uma trajetória tão consistente no enfrentamento ao HIV quanto a Argentina.

Ainda em 1990, o país aprovou uma legislação considerada pioneira na região, garantindo confidencialidade, combate à discriminação e acesso universal à assistência para pessoas vivendo com HIV.

Em 1996, incorporou a terapia antirretroviral ao sistema público de saúde e, nas décadas seguintes, ampliou políticas de prevenção com distribuição gratuita de preservativos, programas de redução de danos e fortalecimento da participação das organizações da sociedade civil.

Mais recentemente, em 2022, passou a oferecer a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) pelo sistema público e aprovou uma nova legislação que ampliou direitos das pessoas vivendo com HIV.

Hoje, cerca de 140 mil argentinos vivem com o vírus, mantendo o país entre as principais referências latino-americanas na resposta à epidemia.

Cortes acendem alerta

Nos últimos dois anos, porém, organizações da sociedade civil e pesquisadores passaram a demonstrar preocupação com mudanças promovidas pelo governo do presidente Javier Milei.

O orçamento destinado ao Programa Nacional de Resposta Integral ao HIV, Hepatites Virais, ISTs e Tuberculose sofreu redução de 76% em 2024, primeiro ano da atual gestão.

Os impactos começaram a aparecer rapidamente. Entre 2023 e 2024, a distribuição de preservativos caiu 58,4%.

Já em janeiro de 2025, aproximadamente 40% dos profissionais vinculados ao programa nacional foram desligados.

Ao mesmo tempo, estruturas responsáveis por áreas estratégicas da saúde pública foram extintas durante a reorganização administrativa promovida pelo governo.

A principal preocupação é que a diminuição dos investimentos comprometa justamente as ações preventivas que permitiram ao país controlar a epidemia nas últimas décadas.

A epidemia permanece concentrada em populações vulneráveis

Apesar dos avanços históricos, a epidemia argentina continua afetando de forma desproporcional determinados grupos. Homens que fazem sexo com homens representam aproximadamente 45% dos casos, com prevalência estimada em torno de 12%.

Entre pessoas trans, a situação permanece ainda mais preocupante: a prevalência supera 30%, uma das mais elevadas da América Latina.

As relações heterossexuais respondem por cerca de 40% das novas infecções.

Cabo Verde transforma um pequeno arquipélago em referência internacional

Se a Argentina busca preservar conquistas históricas, Cabo Verde vive um momento de expectativa.

Com pouco menos de quatro mil pessoas vivendo com HIV, o arquipélago africano está prestes a alcançar um feito que poucos países conseguiram.

Segundo dados do Unaids e do Ministério da Saúde, aproximadamente 3.900 pessoas vivem com HIV no país. Atualmente 80% conhecem o diagnóstico; 82% recebem tratamento antirretroviral; e 69% alcançaram supressão viral.

A prevalência entre adultos de 15 a 49 anos é de 0,9%, uma das maiores entre os países de língua portuguesa, mas os avanços obtidos na prevenção materno-infantil colocaram Cabo Verde em posição de destaque internacional.

Um passo da certificação da OMS

No início de 2026, Cabo Verde formalizou junto à Organização Mundial da Saúde o pedido de certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV.

O pedido foi sustentado por um resultado altamente expressivo: o país não registrou nenhum caso de transmissão de mãe para filho nos dois anos anteriores.

Se receber a certificação, passará a integrar um grupo extremamente restrito de países reconhecidos pela OMS por interromper essa forma de transmissão.

Para um pequeno arquipélago com recursos limitados, o reconhecimento representaria uma conquista histórica da saúde pública.

O desafio de cuidar de uma população espalhada por dez ilhas

Os avanços convivem com obstáculos permanentes. Formado por dez ilhas vulcânicas distribuídas pelo Atlântico, Cabo Verde enfrenta dificuldades logísticas para garantir atendimento especializado em todo o território.

Levar testagem, medicamentos e acompanhamento contínuo às comunidades mais distantes continua sendo um desafio para as equipes de saúde.

Além disso, organizações comunitárias alertam que o estigma ainda dificulta o diagnóstico precoce, especialmente nas ilhas menores.

A PrEP cresce, mas ainda não chegou a todo o país

A Profilaxia Pré-Exposição começou a ser implementada em Cabo Verde em 2020, inicialmente direcionada às populações mais vulneráveis. Entretanto, a estratégia ainda não alcança todo o território nacional.

Atualmente, apenas as ilhas de Santiago, São Vicente, Sal e Boa Vista oferecem a PrEP de forma estruturada nos serviços públicos.

A expansão da cobertura é considerada fundamental para consolidar os avanços obtidos e manter o país na trajetória de controle da epidemia.

No futebol, o favoritismo costuma pesar. Na saúde pública, a experiência desses dois países mostra que tamanho, população ou riqueza não são os únicos fatores que definem o sucesso no enfrentamento ao HIV. O que faz diferença é a capacidade de transformar políticas consistentes em proteção para toda a população.

DA AG. AIDS