Ação inédita em SP leva saúde, vacinação e cidadania para mulheres trans profissionais do sexo
Mulheres trans têm risco 17 vezes maior de adquirir HIV em comparação com a população adulta em geral, aponta um levantamento de 2025 do UNAIDS. A mesma pesquisa indica que profissionais do sexo também apresentam risco 17 vezes maior de infecção pelo vírus. Nesse contexto, o Casarão Brasil – Associação LGBTI iniciou em São Paulo uma ação voltada a profissionais do sexo, com foco em mulheres trans e travestis, para ampliar o acesso à prevenção, vacinação, informação e serviços públicos.
O presidente do Casarão Brasil, Rogério de Oliveira, explica que a iniciativa prevê atuação direta nos territórios, com equipes realizando abordagens em pontos de prostituição, pensionatos e espaços de acolhimento na capital paulista e, posteriormente, em municípios da região metropolitana. “A proposta nasceu da percepção de que muitas mulheres trans e travestis enfrentam dificuldades para acessar unidades de saúde, seja pela rotina de trabalho, pelo preconceito ou pela ausência de informações sobre os serviços disponíveis”, explica.
Para Mikaella Reis, assistente de projeto e articuladora territorial do Casarão Brasil, o trabalho de campo é fundamental para compreender a realidade dessa população e contribuir para a construção de políticas mais adequadas. “Eu, como profissional da área da saúde, sou da área da enfermagem e formando em gestão de saúde pública, acho importante que tenhamos esses tipos de pesquisa e projetos, justamente para podermos levantar dados para que tenham políticas públicas voltadas para essa população”, afirma.
Na primeira etapa, a equipe realiza um mapeamento dos locais onde estão mulheres trans e travestis que trabalham com prostituição, incluindo regiões da capital e municípios como Guarulhos e Osasco. Durante as visitas, são oferecidos preservativos internos e externos, gel lubrificante, informações sobre PrEP, um método de prevenção ao HIV que consiste na utilização diária ou sob demanda de medicamentos antirretrovirais antes da exposição ao vírus, e PEP, um tratamento médico de urgência com antirretrovirais utilizado para evitar a infecção pelo HIV após uma situação de risco, além de orientações sobre prevenção das infecções sexualmente transmissíveis.
“Na prática, funciona como a gente vai chegar na abordagem com elas oferecendo insumos de prevenção, falando sobre a importância de estar usando camisinha, gel lubrificante e a importância de tomar PrEP”, explica Mikaella.
Além das ações de saúde, o projeto também realiza um levantamento social para compreender o perfil das pessoas atendidas. A equipe aplica questionários para identificar informações como escolaridade, acesso a programas de transferência de renda, participação em iniciativas como o Transcidadania, contribuição previdenciária e acompanhamento de tratamentos de saúde.
Segundo Mikaella, a coleta desses dados surgiu da necessidade de ampliar o conhecimento sobre essa população. “O Casarão entra com essa proposta de que, para além de só saúde, também conscientizar, de saber dizer para essas pessoas que elas têm deveres, mas têm direitos também”, afirma.
A proposta também foi apresentada ao mandato da deputada federal Erika Hilton, que demonstrou interesse em receber informações para subsidiar ações voltadas à população trans. Segundo a articuladora, Maria Izabel Panther, integrante da equipe da parlamentar, também apoiou a construção da iniciativa e destacou a importância da coleta desses dados.
A vacinação é outro eixo central da iniciativa. A equipe identificou que parte das profissionais atendidas enfrenta dificuldades para manter o calendário vacinal atualizado, seja pela rotina de trabalho noturna ou pelas barreiras encontradas ao procurar os equipamentos públicos. “Eu conheço várias meninas que não tomaram nenhuma dose, inclusive da vacina do Covid. E isso é preocupante”, relata Mikaella, que defende a criação de pontes entre essa população e as unidades de saúde.
Superar obstáculos
Para Vanessa Gonçalves de Franca, agente comunitária LGBTQIA+ do projeto, a estratégia de ir até os territórios é uma forma de superar barreiras que afastam essas mulheres dos serviços tradicionais. Ela destaca que a rotina de trabalho, especialmente durante a noite, dificulta a busca por atendimento em horários convencionais. “O projeto voltou porque vimos a dificuldade que as meninas têm de procurar os serviços de saúde. Uma por elas trabalharem na noite, serem profissionais do sexo, e também por não se cuidarem”, explica.
A abordagem por pares é um dos diferenciais da iniciativa. As agentes que participam do projeto também são mulheres trans e possuem experiências próximas às das pessoas atendidas, o que contribui para estabelecer uma relação de confiança durante as conversas. “Quando a gente chega nas meninas, elas sempre recebem a gente bem, porque a gente está lá e fala como pares. A gente sabe as dificuldades que elas têm de procurar uma UBS, de fazer o tratamento”, afirma Vanessa.
Durante as atividades, as equipes também orientam sobre vacinas disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS), como Influenza, Hepatite B, HPV e Covid-19, além de encaminhar as participantes para serviços de referência. Para Alessandra de Araújo, agente comunitária LGBTQIA+, o objetivo é garantir que a informação alcance uma população frequentemente invisibilizada. “A disseminação de conhecimento a uma população vulnerável, discriminada desde suas raízes, onde só acha na maioria das vezes portas fechadas, se faz necessário ir muito além de uma meta”, afirma.
A agente comunitária LGBTQIA+, Millena das Mercês de Oliveira Wanzeller, destaca que o Casarão Brasil coordena a iniciativa desde o planejamento até a articulação com serviços públicos e organizações parceiras. A atuação envolve mobilização das equipes, distribuição de insumos, capacitação e acompanhamento das ações realizadas nos territórios. “A Associação coordena toda a iniciativa, articulando parcerias com os serviços públicos de saúde e organizações parceiras. É responsável também pelo planejamento das ações, mobilização e capacitação da equipe, distribuição de insumos de prevenção e acompanhamento das atividades realizadas nos territórios”, explica Millena.
Com meta inicial de alcançar 150 pessoas trans profissionais do sexo, o projeto pretende ampliar sua atuação após a primeira fase de mapeamento. A expectativa é de chegar a outras cidades da região metropolitana, como Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Suzano, Franco da Rocha e Ferraz de Vasconcelos.
