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Melhor ter filho viado que ladrão?

Genilson Coutinho,
10/10/2014 | 12h10

criança

Por Eder Luis Santana

Estávamos na sala de aula envoltos em aguerrido debate sobre a ética no período da Idade Cristã. O assunto girava em torno de como o ranço medieval é sentido nos dogmas religiosos da contemporaneidade e nos preconceitos fincados na sociedade. Falamos de racismo, misoginia e, ao colocar a homofobia na pauta, fomos arrebatados pelo relato de uma aluna: “Meu filho tem um jeitinho. O pessoal fica falando dele, mas eu digo logo: ‘se ele for o problema é meu. Melhor filho viado do que ladrão’”.

Escrevo esse texto pensando nessa mãe. Digito com a angústia de quem talvez, como docente, não tenha conseguido fazê-la entender durante a aula todas as ideias reunidas aqui neste texto. Em sala, respiro fundo, contenho os ânimos do debate e parto para um processo de esclarecimento que todos deveriam ter antes mesmo de assumir funções básicas ao desenvolvimento de uma criança. Primeiro passo: explicar que o “jeitinho” do filho não tem nada de anormal.

O problema está no olhar preconceituoso de quem emite a crítica. Estamos em uma sociedade erguida pelo binarismo de gênero centrado na ideia do macho X fêmea. Essa dicotomia é inserida nas nossas mentes a partir de padrões de comportamento e, por tabela, pela vigilância às atitudes sexuais.

E aí chegamos a um dos nascedouros da homofobia: a necessidade de agredir quem foge do que está imposto nesse padrão dicotômico de gênero. E a violência chega especialmente na infância. Como afirma Borrillo (2010): “Segundo parece, qualquer suspeita de homossexualidade é sentida como uma traição suscetível de questionar a identidade mais profunda do ser. Desde o berço, as cores azul e rosa marcam os territórios dessa summa divisio que, de maneira implacável, fixa o indivíduo seja à masculinidade, seja à feminilidade”.

Brutal é a violência que se aplica às crianças que têm atitudes consideradas fora dos padrões heteronormativos. O menino que rebola, dança e desmunheca se torna piada e ganha status de viadinho dentro da própria família. A menina que joga bola, não brinca de bonecas e incorpora o modo masculinizado, é apontada de modo jocoso como a sapatona de amanhã. Reprime-se uma infância. E já se atribui a ela o peso de séculos de padrões focados na normatização que alimenta o machismo, a misoginia e a homofobia.

Voltando a Borrilo (2010), pode-se afirmar que “quando se trata alguém como homossexual (homem ou mulher), denuncia-se sua condição de traidor (a) e desertor (a) do gênero ao qual ele ou ela pertence ‘naturalmente’”. No caso da minha aluna, sua própria tentativa de defesa em relação ao filho confirma esse cenário.

Ao dizer que prefere um filho viado ao invés de ladrão, ela reforça a marginalização do que está fora do padrão binário macho x fêmea. Bandidos, negros, pobres, travestis, o menino afeminado, enfim, todos ocupam um lugar de abjeto na coletividade. Na abjeção estão aqueles vistos como inferiores na sociedade, os que estão à margem do que deve ser aceito.

Esses abjetos, por sua vez, tornam-se alvo da fúria daqueles que rejeitam sua presença. Seja pelo fundamentalismo religioso ou pelo modelo machista-misógino de convivência, se estabelece a ideia de que o melhor é marginalizar e exterminar os abjetos. Na prática, essa realidade é vista cada vez que assistimos nos jornais o assassinato de mais um homossexual.

Judith Butler sintetiza bem esse sentimento no conhecido vídeo no qual fala sobre a violência contra um jovem afeminado: “Parece, para mim, que nós estamos falando de um extremo e profundo pânico ou medo, uma ansiedade que está presa às normas de gênero. É como se alguém dissesse: você deve respeitar as normas da masculinidade, ou do contrário você morrerá”.

>> Clique aqui e veja o vídeo de Judith Butler

Ser homossexual não é doença nem crime. E luta-se hoje justamente pela criminalização da homofobia, assim como foi conseguido com a criminalização do racismo e com as diretrizes protetivas à mulher (Lei Maria da Penha). É preciso educar as novas gerações na perspectiva de que é possível quebrar modelos heteronormativos e respeitar o que se convencionou chamar de diversidade sexual.

Os Estudos Queer têm grandes contribuições a oferecer nesse processo educacional. É por meio da educação que pode-se causar fissuras no alicerce do preconceito enraizado, inclusive, em casa e na escola. Como explica Carvalho (2012): “Perspectivas pedagógicas de inspiração queer desafiam os diversos discursos sobre as sexualidades, de natureza cientificista ou marcados por crenças religiosas. Ao buscarem instaurar novos princípios de respeito às diversidades, no campo das sexualidades ou quaisquer outros, formas inovadoras de educação preparam melhor para que as lutas por reconhecimento politizem o problema da homofobia como concernente ao conjunto da sociedade”.

Com relação às crianças, deixem que os meninos rebolem, usem rosa, falem fino e deem pinta de diva. Deixem que as meninas joguem bola, andem com boné para trás, cortem o cabelo no estilo Joãozinho e joguem bola, se assim desejarem. Quem lê essas atividades como coisas de meninos ou meninas não são elas, são os adultos. Não há crime nestas ações e, aliás, esses comportamentos sequer são garantias de que, no futuro, a homossexualidade será a orientação sexual destas crianças. Vide, por exemplo, a quantidade de homossexuais que nunca tiveram esses comportamentos em sua infância e hoje de auto-identificam como gays ou lésbicas. E caso a homossexualidade se concretize, converse com seu filho ou filha para inclusive alertá-lo/a sobre como a sociedade é homofóbica e lesbofóbica. Dê um sacudimento nesse binarismo de gênero. Permita que a sexualidade seja diversa, ao invés de vigiada com moldes repressores típicos de quem tem uma orientação sexual sexista.

*A imagem neste texto é do filme Vestido Novo e assista.

Eder Luis Santana – jornalista, mestrando em Cultura e Sociedade e integrante do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade CUS.

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