Rita von Hunty analisa relação entre violência contra mulheres, masculinidade e poder
A violência contra mulheres não pode ser compreendida apenas como resultado de conflitos individuais ou relações afetivas. Ela também funciona como instrumento de poder e reconhecimento entre homens, sustentado por estruturas sociais que associam masculinidade à dominação. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pela educadora e drag queen Rita von Hunty na aula inaugural do curso “O colapso do sistema sexo-gênero”, lançado na plataforma de formação política do BONDE. A primeira aula foi aberta gratuitamente ao público, durante o evento online “Quem mandou ser homem?”.
Durante o encontro, Rita argumentou que as transformações nas relações de gênero não representam apenas uma crise passageira da masculinidade, mas um colapso mais profundo das estruturas que historicamente organizaram os papéis de homens e mulheres. Nesse cenário, forças conservadoras e reacionárias procuram recuperar modelos tradicionais de organização social, em uma tentativa de restabelecer hierarquias que já não encontram o mesmo respaldo na sociedade.
Para a educadora, a violência também precisa ser compreendida a partir dessas disputas de poder. Um dos principais referenciais apresentados na aula foi o pensamento da antropóloga argentina Rita Segato, que investiga as relações entre masculinidade, violência e dominação. A partir dessa abordagem, Rita von Hunty explicou que agressões contra mulheres não dizem respeito apenas à relação entre agressor e vítima, mas também às hierarquias que organizam as relações entre os próprios homens.
“Existe um eixo horizontal e é isso que o pensamento da Rita Segato ajuda a jogar luz sobre. Esse eixo horizontal fala sobre como homens cometem crimes contra mulheres para outros homens, para se validarem como homens em uma sociedade masculina. A gente está defrontado com essa forma espetacularizada de violência que é realizada para melhor posicionar homens em uma sociedade dominada por homens”, explicou.
Para ilustrar essa dinâmica, a educadora discutiu três casos que ganharam repercussão internacional: os crimes relacionados a Jeffrey Epstein, a violência sexual sofrida pela francesa Gisèle Pelicot e a série Adolescência, que retrata o assassinato de uma adolescente por um colega de escola. Embora distintos, os exemplos ajudam a compreender como a violência pode estar associada à busca por reconhecimento, prestígio e validação masculina.
Radicalização digital
A discussão também abre caminho para compreender a expansão dos movimentos masculinistas e da chamada machosfera, ambiente formado por comunidades e influenciadores digitais que disseminam discursos sobre masculinidade, incluindo grupos red pill e incel. Esses fenômenos serão aprofundados nas próximas aulas do curso, que também aborda como as frustrações masculinas se transformaram em um mercado de conteúdos e produtos.
“Existe hoje uma discussão muito presente sobre os efeitos das expectativas colocadas sobre mulheres, mas ainda falamos pouco sobre o que é ensinado aos homens desde muito cedo e sobre as consequências disso para toda a sociedade. O curso da Rita ajuda a olhar para essa questão sem simplificações e, principalmente, a pensar em caminhos possíveis”, afirma Talita Novacoski, codiretora-executiva do BONDE.
Dividido em cinco aulas, “O colapso do sistema sexo-gênero” investiga a construção histórica dos papéis de gênero, as disputas em torno da masculinidade e as possibilidades de desenvolver outras formas de educar e estabelecer relações sociais.
A formação é integra um portfólio de cursos com grandes nomes lançados pelo BONDE em 2026. A plataforma já recebeu Ailton Krenak, Alessandra Orofino e Marcos Nobre, com aulas dedicadas aos desafios contemporâneos do meio ambiente, à política nas redes e às novas formas de organização da extrema direita.
Sobre o BONDE – O BONDE (antigo NOSSAS) é uma plataforma brasileira que conecta pessoas para aprender, agir coletivamente, construir mudanças em políticas públicas e produzir alívio concreto nas vidas de milhões de pessoas. Nascido no Rio de Janeiro e hoje presente em todo o território nacional, há 15 anos o BONDE desenvolve estratégias e projetos de mobilização social para pautar a opinião pública e incidir sobre governos e tomadores de decisão, formando redes de ativismo por diversas causas. Entre as iniciativas de maior repercussão estão Amazônia de Pé, Fim da Escala 6×1, Sem Anistia para Golpista, Ministra Negra no STF, Busão 0800, PL da Devastação, Taxa os Bilionários, Criança Não é Mãe, RJ Não é Disney e Cadê Meu Absorvente? e Tira o Pé da Minha Serra. Já reuniu mais de 5 milhões de pessoas em campanhas que contribuíram para mais de 190 mudanças em políticas públicas, e em 2026 lança um serviço por assinatura que reúne cursos exclusivos sobre ativismo e desenvolvimento do pensamento crítico. Saiba mais em bonde.org.
