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Aos 30 e poucos, eu já deveria ter a vida, o sexo e o corpo resolvidos?

Will Assunção,
26/09/2026 | 17h09

Aos trinta e poucos, é obrigatório ter casamento, carreira estável e pelo menos um imóvel no nosso nome? Essa pergunta me ocorreu outro dia, provavelmente enquanto eu fazia alguma coisa extremamente adulta, como pagar uma conta de luz ou verificar o saldo da minha conta bancária.

Acho que existe uma idade em que as pessoas começam a olhar para você de um jeito diferente. Não é exatamente um olhar de preocupação. É mais parecido com uma auditoria.

— E aí, já casou?

Depois vem:

— E a carreira?

— Comprou seu apartamento?

— Você pretende ter quantos filhos?

Curiosamente, ninguém pergunta se você está feliz.

E é isso: aos trinta e poucos, parece que a vida vem acompanhada de uma planilha. Há colunas para casamento, carreira, dinheiro, imóvel, viagens, pós-graduação, filhos e, se possível, uma fotografia no Instagram comprovando que você está administrando tudo muito bem.

Mas o que acontece quando a gente não está?

Quando completei 30 anos, percebi que havia alguma coisa estranha em envelhecer. Não era exatamente medo. Era uma espécie de nostalgia antecipada. Como se uma parte de mim estivesse olhando para trás e dizendo: “Então era isso? A juventude acabou?”

Talvez por isso eu tenha entendido tão bem “Hier Encore”, de Charles Aznavour. A música parece saber uma coisa que levamos anos para admitir: o tempo não pede licença. Ele simplesmente passa. E talvez amadurecer seja aprender a não brigar com ele.

Aos poucos, fiz as pazes com o meu corpo. Parei de esperar que ele se parecesse com alguma versão idealizada de homem que eu inventei aos vinte anos. Aceitei minha magreza, meus pelos, minha barba cada vez mais espessa e até os primeiros fios brancos que resolveram aparecer sem serem convidados.

E então o corpo começa a mudar. Mas não de uma maneira cinematográfica. É quase imperceptível, como quem troca de apartamento sem avisar. O metabolismo já não parece tão disposto a colaborar, a recuperação depois de uma noite maldormida demora um pouco mais e aquilo que aos vinte anos se resolvia com duas semanas de academia passa a exigir disciplina, alimentação razoável e uma relação minimamente civilizada com o próprio sono. 

Aos poucos, percebi que não havia muito o que negociar com o tempo. Podia reclamar, esconder, fingir que não estava acontecendo ou simplesmente cuidar de mim. Escolhi a última opção. Academia, comida mais saudável, menos excessos e um pouco mais de respeito pelos limites do corpo. Não para voltar aos vinte, mas para continuar gostando do homem que o espelho insiste em revelar.

E talvez exista uma boa notícia nessa história toda: se o corpo muda, o sexo também. Aos trinta e poucos, ele parece menos uma corrida para provar alguma coisa e mais uma conversa na qual finalmente aprendemos a ouvir. Já não existe tanta pressa para impressionar, agradar ou cumprir alguma expectativa sobre o que deveria acontecer entre quatro paredes. O desejo fica mais consciente, a intimidade ganha outra camada e a experiência deixa de depender apenas da novidade.

Isso porque talvez porque conheçamos melhor o próprio corpo, saibamos dizer o que queremos e, principalmente, o que não queremos. E existe algo deliciosamente libertador em descobrir que o sexo pode ficar até melhor quando deixamos de tratá-lo como uma prova de desempenho. Aos vinte, talvez eu quisesse descobrir quantas possibilidades existiam. Aos trinta e poucos, comecei a me interessar mais por descobrir quais realmente valem a pena.

Porque, aparentemente, envelhecer também é descobrir que o seu corpo começa a tomar decisões sem consultar você. E tudo bem.

Talvez o problema dos 30 não seja envelhecer. Talvez seja descobrir que ninguém sabe exatamente como se faz isso.

A sociedade, entretanto, parece ter um manual.

Aos 30, você deveria ter terminado a universidade, feito uma pós-graduação, conseguido estabilidade profissional, comprado um imóvel, saído da casa dos pais, aprendido outro idioma, viajado para alguns países, encontrado o amor da sua vida, constituído uma família e, de preferência, ter uma tatuagem que comprove que você também sabe ser espontâneo. Nessa ordem. E, se possível, antes dos 35.

Mas quem foi que decidiu que a vida funciona por prazo de validade?

Talvez tenha sido o mesmo sujeito que inventou a pergunta:

— Já encontrou o amor da sua vida?

Essa é uma pergunta particularmente curiosa especialmente para mim.

Porque ninguém pergunta “você encontrou alguém que faz você querer ficar?”. Não. É preciso encontrar o amor da sua vida, como se o coração viesse com etiqueta, certificado de garantia e reconhecimento em cartório. Eu nunca soube muito bem o que responder.

Talvez porque tenha passado boa parte da vida tentando entender se estar sozinho era um problema ou uma escolha.

E, depois de alguns anos, descobri que pode ser os dois.

Minha geração, a famosa Geração Y, aprendeu a transformar a solidão em uma espécie de estética. Nós fazemos brunch sozinhos, viajamos sozinhos, assistimos séries sozinhos e, em algum momento, começamos a chamar isso de autocuidado. Eu mesmo pertenço, sem nenhum constrangimento, ao “Bloco do Eu Sozinho”. E não é tão ruim assim.

Há dias em que tudo o que eu quero é ficar sozinho. Não porque não goste das pessoas. Talvez justamente porque gosto demais de algumas delas e precise, de vez em quando, voltar para mim.

A solidão pode ser uma sala silenciosa onde finalmente conseguimos ouvir nossos próprios pensamentos. E, convenhamos, depois dos 30, nossos pensamentos já fazem barulho suficiente.

Talvez seja por isso que algumas dores antigas tenham perdido espaço.

Aos vinte, uma rejeição parecia o fim do mundo. Aos trinta e poucos, a gente ainda sofre — mas já sabe que o mundo continua funcionando no dia seguinte. 

Um coração partido continua sendo um coração partido. Só que agora sabemos onde ficam os melhores lugares para tomar um café depois.

É curioso como o tempo muda a escala das coisas. Aquilo que parecia gigantesco diminui. Aquilo que parecia insignificante começa a importar.

Um telefonema. Uma conversa boa. Um jantar sem pressa.

Uma pessoa que lembra de alguma coisa que você disse semanas atrás.

Uma mensagem que chega no momento certo.

Talvez a maturidade seja isso: descobrir que felicidade não costuma fazer entrada triunfal. Às vezes, ela chega discretamente, senta ao seu lado e pergunta se você quer alguma coisa.

E então vem a parte mais difícil. Descobrir quem você se tornou.

Porque aos 30 e poucos já não somos exatamente quem éramos aos 20. Mas também não somos aquela pessoa completamente resolvida que imaginávamos que seríamos.

Ainda temos dúvidas.

Ainda fazemos escolhas questionáveis.

Ainda nos apaixonamos por pessoas que talvez não devessem ocupar tanto espaço na nossa cabeça.

Ainda temos medo.

A diferença é que agora sabemos reconhecer alguns desses medos pelo nome. E talvez seja justamente isso que nos torna adultos. Não ter todas as respostas, mas saber quais perguntas importam.

No que eu acredito? O que eu quero? O que realmente importa? Quem esteve comigo quando as coisas ficaram difíceis? Quem eu quero ao meu lado quando elas ficarem melhores?

E, principalmente: quanto da minha vida estou vivendo para mim e quanto estou vivendo para cumprir expectativas que nem sequer são minhas?

Talvez essa seja a verdadeira crise dos 30.

Não a idade. Não as rugas. Não os fios brancos. Não o imóvel que ainda não chegou. Não o casamento que não aconteceu. Não a carreira que ainda está tentando encontrar seu lugar.

A crise talvez aconteça quando percebemos que passamos tempo demais tentando chegar a um lugar que alguém decidiu que deveríamos alcançar.

E então olhamos ao redor e pensamos: “Espera. Eu queria mesmo estar aqui?” Aos trinta e poucos, estamos em uma espécie de território intermediário. Não somos tão jovens a ponto de acreditar que tudo é possível simplesmente porque temos tempo. Mas também não somos velhos o suficiente para desistir de tudo aquilo que ainda queremos viver.

Talvez esse seja o melhor lugar possível para estar. Porque finalmente sabemos que o tempo existe. Mas também descobrimos que ainda temos algum. 

E talvez a pergunta nunca tenha sido se, aos 30, deveríamos ter casamento, carreira estável e um imóvel no nosso nome.

Talvez a pergunta seja outra:

Se ninguém estivesse nos dizendo como deveria ser a nossa vida, o que nós escolheríamos para ela?

E talvez, pela primeira vez, a resposta possa ser inteiramente nossa.

Sobre a coluna asssuntasó!

A assuntasó! pauta a modernidade com leveza e transforma as neuroses da vida em matéria-prima para crônicas que relatam quem ousa viver o presente.

Will Assunção é cronista da modernidade e coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que a existência gira em torno do absurdo do cotidiano.

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