O amor cotidiano sobrevive ao caos como um café servido numa tarde de domingo

Entre tantas questões que surgem à mente talvez a mais persistente seja: o amor floresce no íntimo do cotidiano ou precisa extrapolar o comum para alcançar a condição de extraordinário?
O som improvisado do clarinete de Sidney Bechet parece guiar a cidade, onde caminho para escrever esta crônica, para uma cena em preto e branco, em que sobrevive o amor contemporâneo — esse amor que Woody Allen filmaria entre cafés, neuroses, tédio e olhares trocados por acaso. O amor do cotidiano que não se declara com fogos de artifício, mas com silêncios constrangedores e muitas perguntas silenciadas. Esse amor costuma sobreviver a crises e intemperanças da vida.
Vivo em uma rotina em que o mundo parece ser sarcástico, e que o jazz e amores que brotam no absurdo do cotidiano se dissolvem como açúcar num café que já esfriou. Afinal, quem nunca viveu um relacionamento banal disfarçado de grande história de amor? Quem nunca acreditou que o caos emocional tinha um quê de charme cinematográfico?
Suspeito que, para muitos de nós, o amor não funcione como um contrato de estabilidade, mas pode se tornar uma sucessão de equívocos bem-intencionados. Woody Allen nos mostra isso numa mistura de humor cáustico e melancólico, onde cada neurose é quase uma forma de carinho em Annie Hall.
O amor pode florescer em algo tão simples quanto uma partida de tênis. Mas nós, eternos espectadores de nós mesmos, insistimos em buscá-lo em experiências transcendentes, em epifanias divinas. E esquecemos que, às vezes, o extraordinário se disfarça de banalidade. Aquele amor que nasce da idealização exasperada das comédias românticas talvez só exista mesmo como um roteiro.
Em algum ponto das nossas vidas, percebemos que os relacionamentos ganham contornos de filmes de Woody Allen: roteiros sem garantias de finais felizes, onde as falas mais sinceras são ditas em tom de piada. Ainda assim, é possível transformar a banalidade em beleza sutil.
Podemos ainda nos despedir quando já não há mais espaço entre dois corações que aprenderam tudo, menos permanecer. E, no fundo, a gente entende: o amor não é a metade que nos completa, é a presença que nos provoca. Afinal, quem aceitaria ser metade de uma laranja quando o suco já perdeu o sabor?
Sobre a coluna asssuntasó!
A assuntasó! pauta a modernidade com leveza e transforma as neuroses da vida em matéria-prima para crônicas que relatam quem ousa viver o presente.
Will Assunção é cronista da modernidade e coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que a existência gira em torno do absurdo do cotidiano.
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