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Celebrando uma década de sucesso, espetáculo Tom na Fazenda chega a Salvador com sessões esgotadas

Genilson Coutinho,
19/03/2026 | 17h03

Neste final de semana, Salvador recebe o aclamado espetáculo “Tom na Fazenda”, que comemora 10 anos em cartaz com uma trajetória marcada por sucesso de público e crítica. A montagem desembarca na capital baiana com ingressos esgotados e, devido à alta procura, uma sessão extra foi aberta para atender os fãs.


Dirigido por Rodrigo Portella, Armando Babaioff protagoniza a peça e assina a tradução da obra do canadense Michel Marc Bouchard. O ator que é o convidado da Sala VIP do site Dois Terços, celebrou a longevidade do espetáculo e destacou a relevância da obra ao longo desses dez anos. Segundo ele, “Tom na Fazenda” vai além do palco ao provocar reflexões importantes, especialmente no combate à LGBTfobia, tema central da narrativa.
O artista destacou que o espetáculo sempre funcionou como uma forma de trazer à tona discussões urgentes, ressaltando o impacto que a peça provoca no público ao abordar questões que ainda precisam ser enfrentadas com mais empatia e respeito. Ele também ressaltou sobre a importância da montagem em sua trajetória pessoal e profissional. Para o ator, o projeto representa um marco em sua carreira, não apenas pelo reconhecimento conquistado, mas pelo vínculo construído com o público ao longo desses anos.
A relação com Salvador, segundo ele, é especialmente significativa. O artista afirmou que existe uma troca muito forte com o público da cidade, destacando o carinho com que sempre é recebido, o que torna cada apresentação ainda mais especial.
Com uma proposta intensa e sensível, “Tom na Fazenda” reafirma seu lugar como uma das montagens mais relevantes do teatro contemporâneo, mantendo-se atual ao abordar temas sociais fundamentais e emocionando plateias por onde passa.

Genilson Coutinho “Tom na Fazenda” completa uma década em cartaz, um feito marcante no teatro contemporâneo. Na sua visão, o que explica essa longevidade e como o espetáculo se transformou ao longo desses 10 anos?
Armando Babaioff: A continuidade de Tom na Fazenda está diretamente ligada à urgência dos temas que a peça atravessa. Infelizmente, a violência e o silenciamento da comunidade LGBTQPNIA+ ainda são realidades muito presentes no Brasil e no mundo. Nesse sentido Tom na Fazenda não envelheceu um segundo, ao contrário, o espetáculo segue dialogando com o presente. Ao longo desses dez anos, o trabalho amadureceu muito. Vi a mudança do mundo em cima de um palco. Houve um aprofundamento das camadas emocionais e da subjetividade do texto. Eu também mudei, como artista e como ser humano. O espetáculo que fazemos hoje carrega a memória de tudo o que vivemos nesses anos, todos nós.
GC Tom na Fazenda é uma obra intensa e emocionalmente desafiadora. Como você se preparou para dar vida a um personagem tão complexo?
Babaioff: Desde o início, eu entendi que não seria possível abordar o Tom de maneira superficial. Houve um mergulho profundo no texto, mas também no que não é dito. Trabalho muito até hoje a minha escuta e tenho o privilégio de pisar em diversos palcos, de diferentes formatos, com diferentes plateias, esse é o verdadeiro desafio para um ator. Não é só a repetição, é o jogo. O processo também exigiu um preparo físico e emocional muito rigoroso. É uma peça que demanda do ator um estado de tensão constante. Com o tempo, fui desenvolvendo estratégias para sustentar esse lugar sem me destruir, o que também é um aprendizado importante. Mas, mais do que uma “preparação” que parece que termina na estreia, eu diria que esse personagem continua sendo construído a cada apresentação. Ele está vivo.

GC – O espetáculo aborda temas profundos como repressão, identidade e relações familiares LGBTfobia. O que mais te impactou pessoalmente nessa história?
Babaioff: O que mais me impacta até hoje é a naturalização da violência. Eu percebo isso muitas vezes nas reações da plateia. A peça revela como estruturas familiares e sociais podem operar de maneira brutal, muitas vezes sob o disfarce de afeto, de tradição, de moral. Também me atravessa muito a solidão e o luto do Tom, essa tentativa desesperada de pertencimento, mesmo em um ambiente que o rejeita. É uma história que fala sobre amor, mas também sobre perdas, sobre poder, sobre controle, sobre o que é permitido existir. E é impossível não relacionar isso com o contexto brasileiro, onde tantas pessoas ainda vivem essa realidade de silenciamento e medo. A crítica do Jornal The Guardian disse que a nossa montagem simboliza no mundo atual a “morte da esperança”, e eu tendo a concordar.
GC – Como tem sido a recepção do público ao longo da turnê? Existe alguma reação que tenha te marcado especialmente?
Babaioff: A recepção tem sido profundamente comovente. É muito comum que as pessoas saiam em silêncio, ou com dificuldade de falar, e isso diz muito sobre o impacto da peça. Ao longo desses anos, recebi relatos muito fortes de pessoas que se reconheceram na história, que se sentiram vistas, ou que conseguiram, a partir da peça, iniciar conversas importantes com suas famílias. Mas também me marca muito quando o público se surpreende. Quando alguém diz: “eu não esperava por isso”. Esse deslocamento é fundamental no teatro. Mas o que mais me emociona é quando descubro pessoas indo ao teatro pela primeira vez na vida para assistir “Tom na Fazenda”.
GC- Apresentar-se em Salvador traz alguma expectativa diferente para você? Como você enxerga a energia e a sensibilidade do público baiano?
Babaioff: Salvador é uma cidade com uma potência cultural e emocional muito singular. Existe uma escuta muito aberta, muito disponível, mas também muito crítica. Voltar pela terceira vez cria uma relação de continuidade, quase de reencontro. Isso é muito bonito, porque o espetáculo também se transforma a partir desse vínculo com o público. Tenho uma expectativa de troca muito forte. Salvador nunca é um lugar neutro é sempre um lugar de experiência.
GC- Você acredita que o público de Salvador se conecta de forma particular com a narrativa de Tom na Fazenda? E se sim, por quê?
Babaioff: Acredito que sim. Salvador é uma cidade atravessada por questões muito profundas relacionadas à identidade, à resistência e às estruturas sociais. Existe uma consciência muito presente sobre violência, sobre exclusão, mas também sobre sobrevivência e afirmação. Isso cria um terreno fértil para que a peça reverbere de maneira intensa. Ao mesmo tempo, o público baiano tem uma sensibilidade muito particular para o corpo, para o gesto, para o simbólico, e Tom na Fazenda trabalha muito nesse campo.

GC- Depois de tantas apresentações, você consegue perceber se esse papel transformou você enquanto ator e enquanto pessoa?
Babaioff: Sem dúvida. Tom na Fazenda é um divisor de águas na minha trajetória. Como ator, me ensinou sobre rigor, sobre escuta e sobre permanência. Como produtor aprendi que sustentar um espetáculo por tanto tempo exige uma relação muito honesta com o trabalho e comigo mesmo. É a minha coerência que está em cena. Como pessoa, me tornou mais consciente das violências explícitas e sutis que atravessam a nossa sociedade. E também me fez entender o teatro como um espaço de encontro real, de transformação possível. É um papel que me acompanha por muito tempo, o personagem que mais investigo. E, de certa forma, me constitui.