Historias LGBTQIAPN+ na MPB de 1931 a 1979
Por Carlos Leal
Na história da Música Popular Brasileira (MPB), não é de hoje que declarações de amor entre pessoas do mesmo sexo são cantadas em verso e prosa. Muitas, claro, a depender da época, de forma sutil. Uma das primeiras a revelar uma temática LGBTQIA+ e de forma respeitosa é datada de 1931. Trata-se de Mulato Bamba, de Noel Rosa. A música, uma homenagem a Madame Satã, famoso capoeirista e malandro homossexual carioca. Muito digno e respeitoso, Noel trata Madame Satã com dignidade e admiração: ‘Quer no morro ou na cidade/ Ele sempre foi o bamba/ As morenas do lugar / Vivem a se lamentar/ Por saber que ele não quer se apaixonar por mulher … Eu sei que o morro inteiro vai sentir/ Quando o mulato partir”. Importante lembrar que a canção é da década de 30, período extremamente conservador, o que rendeu severas críticas ao autor da canção. Viva Noel Rosa, o poeta da Vila Isabel. Seis anos depois, em 1937, Assis Valente, cujas conversas nas rodas de samba dos morros cariocas “davam conta” que o baiano de Santo Amaro era homossexual, sendo alvo de piadas das mais variadas, compôs um dos seus sambas mais famosos até hoje: Camisa Listrada, gravado inicialmente Carmem Miranda e regravada depois por artistas como Maria Bethânia e Leci Brandão. Nele, Assis narra a história do homem que se traveste durante os dias de carnaval, libertando-se assim dos preconceitos do dia a dia. A música mostra uma característica gay da época: a sexualidade escondida a sete chaves, com seus romances secretos podendo ser, mesmo que de forma discreta, assumidos durante o carnaval. O próprio Assis Valente, que nunca se assumiu homossexual, cometeu suicídio em 1958 e, de acordo com algumas biografias do artista, o motivo foi o fato de viver atormentado por ser homossexual. Alguns anos depois, já na década de 50, a temática LGBTQIA+ passa a fazer parte de algumas poucas canções da chamada dor de cotovelo ou samba canção. Decerto que Preconceito, sucesso na voz da cantora Nora Ney foi o mais famoso deles. Composição de Antônio Maria e Fernando Lobo, a música termina com a dramática estrofe (e real para época): “Por que você diz meu nome?/ Por que você me procura?/ Se as nossas vidas juntas / Terão sempre um triste fim/ Se existe um preconceito muito forte/ Separando você de mim”. Nora Ney, claro, virou musa da comunidade gay da época, dos assumidos aos enrustidos. Em 1989 a música ganhou uma regravação do cantor Cazuza no Álbum Burguesia, o último da carreira do artista. O cantor Johnny Alf, gravou em 1961 a música Ilusão à toa, sucesso até hoje nas rodas de violão dos amantes da Bossa Nova.
Gravada por um grande número de artistas da nova e da velha geração, podemos destacar três gravações que, definitivamente, marcaram deram grandes interpretações a canção: Elis Regina, Gal Costa e Leila Maria. A música, embora trate a questão do homossexualismo de forma subliminar, tem uma letra tratada pela primeira vez de maneira lírica na música brasileira. “Eu acho engraçado/ Quando um certo alguém/ Se aproxima de mim trazendo exuberância que me extasia/ Meus olhos sentem / Minhas mãos transpiram/ É um amor que guardo há muito dentro de mim”. Jhonny era alvo de piadas de mau gosto na época. Em seu livro Noites Tropicais (Objetiva – 2000) o autor, Nelson Motta, conta que a turma da Bossa Nova costumava dizer, em tom de chacota, que o artista era cheio de sobrinhos e levava um em cada reunião que faziam.
O forró não poderia ficar fora dessa. Na década de 60, o Trio Nordestino lança uma divertida música do baiano Gordurinha chamada Carta a Maceió. Nela, o autor narra a história de um nordestino que vai embora para o Rio de Janeiro e se hospeda na pensão de um homossexual que, de cara, se apaixona pelo alagoano, tratando-o como um rei. Embora em tom brincalhão, o tema é tratado de forma divertida e respeitosa. Ao final, o hóspede diz ter se rendido aos encantos do dono da pensão: “Eu queria voltar prá Maceió, mas eu fico no Rio que é mió”. Vale destacar que em outras canções Gordurinha foi extremamente preconceituoso, um exemplo disso é na música Baiano não é palhaço, onde diz: “Não falo fino nem ando me rebolando. Mas tem gente falando que eu não sou legal”. Carta a Maceió também foi gravada por Fafá de Belém em 1983 no álbum que leva o nome da artista paraense. Mas foi em 1972 que Chico Buarque e Ruy Guerra compuseram Bárbara, gravada inicialmente pela pioneira Angela Rorô. Escrita especialmente para o espetáculo Calabar – o elogio da traição, espetáculo censurado pela ditadura, a música trata o tema do amor entre duas mulheres de forma lírica e intensa, sem julgamentos ou preconceitos. “Bárbara, Bárbara/ Nunca é tarde, nunca é demais/ Onde estou, onde estás/ Meu amor, vem me buscar/ O meu destino é caminhar assim/ Desesperada e nua”. Bárbara também teve registros nas vozes de Gal Costa, Maria Bethânia e Simone. E o que dizer do Grupo Secos & Molhados, que tinha Ney Matogrosso como vocalista? Lançado em 1973 foi uma verdadeira revolução na MPB. Já no disco de estreia, que levava o nome da banda, trazia Ney em uma postura totalmente gay: figurino, maquiagen, vestimentas e requebros que fizeram com que as famílias tradicionais brasileiras ficassem horrorizadas, mas, por outro lado, abriu caminho para vários artistas que passaram a fazer performance de Ney Matogrosso em boates, circos e festas populares. Uma das músicas do álbum, O Vira, de João Ricardo e Luli, foi um marco no estilo da representação gay da época “Vira, vira, vira homem/ Vira, vira lobisomem…”. A Banda veio com mensagens em defesa dos homossexuais, e não ao ataque, como era feito por vezes naquela época. Mas e a música dita popular? Claro que ela não poderia ficar de fora dessa história. Em 1978 o ídolo Wando lançou no seu Álbum Gosto de Maçã, cuja faixa título, aliás, virou sucesso nacional. No mesmo disco, a música Emoções chamava a atenção pela sua letra e foi vetada pela gravadora de ser trabalhada e até cantada em shows, afinal, era um ídolo popular cantando algo “proibido”, poderia não pegar bem. A letra de Emoções já começa de forma direta, sem preconceito: “Nos fizemos tão meninos/ Livres, tão vadios de tanto querer/ Nós fizemos poesia para chorar do riso e sorrir da dor/ Me entregastes teus segredos/ Eu falei do medo do meu coração… Te amei suavemente, e tão docemente, eu me fiz teu rei”. Não podemos esquecer de um ídolo que nos deixou ainda jovem: o cantor e bailarino Ronaldo Resedá, apadrinhado por Rita Lee e Roberto de Carvalho. Embora as suas músicas não fossem exatamente com temáticas gays, ele foi lançado para ser um ídolo gay. Músicas como Plumas e Paetês, Marrom Glacê e Pif Paf foram os grandes sucessos de Resedá e que fazem sucesso nas pistas até hoje. Em 2001, por exemplo, no álbum Dê-se ao luxo, o cantor Edson Cordeiro regravou, do repertório de Resedá a música Marrom Glacê “Champanhe no gelo/ Salgados e doces…”. Mas foi em 1979 que temos o registro de uma música feita declaradamente por um homem para outro homem e, claro, tinha que ser um baiano. Trata-se de Menino do Rio, de Caetano Velloso. De maneira suave, lírica e delicada, tecia elogios aos dotes físicos de um surfista, que chegava a provocar arrepios. O muso inspirador, falecido em 1989 de forma trágica, foi o surfista José Artur Machado, o Petit. Sucesso absoluto, a música foi abertura da novela Água Viva (TV Globo – 1980) na voz de Baby Consuelo, hoje, Baby do Brasil. E por falar nos tropicalistas, em 1979 Gilberto Gil lança o álbum Realce. No mesmo disco, duas canções tratavam de forma respeitosa da questão homossexual: Logunedé, fazendo referência a entidade do candomblé que é metade homem e metade mulher e Super-homem, a canção, também gravada por Markinhos Moura no álbum Anjo Azul, de 1987: “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria/ Que o mundo masculino tudo me daria/ Do que eu quisesse ter/ Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara/ É a porção melhor que trago em mim agora/ É o que me faz viver”. Salve Gilberto Gil! Viva nossos artistas pioneiros que souberam de forma sutil ir, aos poucos e às vezes, aos prantos, derrubando barreiras, abrindo caminhos e exaltando a liberdade.
Carlos Leal -Jornalista formado pela Universidade Tiradentes, Especialista em Marketing Digital, autor do livro infanto-juvenil Histórias de Dona Miúda: a Raínha do Forró (Ed.Pinaúna), co-autor do livro Cem Anos de Dorival Caymmi: panoramas diversos, em parceria com a Professora Dra. Marilda Santanna. Atualmente colabora com artigos para o jornal A Tarde e escreve duas biografias: da cantora alagoana Clemilda e da sambista baiana Claudete Macêdo.



