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Visibilidade trans: existir, resistir e viver com dignidade

Genilson Coutinho,
28/01/2026 | 18h01

No dia 29 de janeiro, o Brasil celebra o Dia Nacional da Visibilidade Trans — um marco que ultrapassa o simbolismo de uma data e se afirma como um chamado urgente por reconhecimento, respeito e garantia de direitos básicos para pessoas trans — travestis, mulheres trans e homens trans — em uma sociedade que ainda tende a invisibilizar, violar e excluir esses corpos.

Falar de visibilidade trans é falar de existência, mas também de sobrevivência: identidade de gênero, cidadania, políticas públicas, acesso à saúde, educação, trabalho e, sobretudo, o direito de viver com dignidade.

Como surgiu o Dia da Visibilidade Trans

A data tem origem em 2004, quando ativistas travestis e transexuais estiveram no Congresso Nacional durante o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, organizada em parceria com o Ministério da Saúde — a primeira vez que o Estado brasileiro reconheceu publicamente a existência das pessoas trans como sujeitos de direitos. Desde então, 29 de janeiro se consolidou como um dia de denúncia da violência e afirmação identitária, resistência e orgulho.

Visibilidade que salva vidas

Ainda hoje, ser pessoa trans no Brasil significa viver sob constante ameaça de violência estrutural e exclusão social. O país continua liderando o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis, apesar de uma redução em números absolutos nos últimos anos. Os dados mais recentes do dossiê da ANTRA — lançado em janeiro de 2026 — mostram que pelo menos 80 pessoas trans foram assassinadas em 2025, mantendo o Brasil no topo desse indicador por quase 18 anos seguidos.

Segundo o relatório, mesmo com a redução em relação a 2024, a violência não diminuiu de fato: houve aumento de tentativas de homicídio* indicando que a ameaça persiste e que menos mortes registradas não significam mais segurança.

As vítimas continuam sendo majoritariamente travestis e mulheres trans — predominantemente jovens e negras ou pardas — evidenciando o cruzamento entre transfobia, racismo e misoginia estrutural.

Bruna Benevides, presidenta da ANTRA e autora do relatório, tem ressaltado que esses números não são mortes isoladas, mas sim o reflexo de um sistema que naturaliza a opressão contra pessoas trans. Para ela, “sem políticas públicas estruturadas, dados oficiais e prevenção, não há como afirmar que há mais proteção. O que há é mais silêncio.”

Benevides enfatiza que, enquanto vida trans for tratada como descartável, o Brasil continuará liderando o ranking de mortalidade, alimentado por racismo, exclusão social, abandono institucional e transfobia cotidiana.

A presidenta também destaca que a falta de ações afirmativas robustas — em saúde, educação, trabalho, segurança pública e moradia — empurra muitas pessoas trans para contextos de maior vulnerabilidade, ampliando os riscos de violência física e psicológica.

ANTRA cobra do Ministério da Saúde política de saúde para população trans – Associação Nacional de Travestis e Transexuais

Saúde integral e ISTs/HIV: um direito ainda em disputa

A saúde das pessoas trans é outro campo onde a exclusão se manifesta com crueldade — e isso inclui a vulnerabilidade às infecções sexuais e ao HIV/aids. Estudos no Brasil mostram que a população trans enfrenta maiores taxas de infecção e obstáculos ao acesso a serviços de saúde devido ao estigma, à discriminação e à falta de cuidados integralmente acolhedores.

Dados epidemiológicos gerais sobre HIV/Aids no Brasil mostram que o país vive uma epidemia concentrada: as populações-chave — entre elas pessoas trans, homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo — têm prevalência substancialmente maior do que a média populacional. Globalmente, estima-se que pessoas trans tenham 35 vezes mais risco de infecção por HIV do que a população geral.

Além disso, pesquisas brasileiras indicam que as barreiras ao acesso ao diagnóstico, à prevenção combinada (como a profilaxia pré-exposição, PrEP) e ao tratamento ainda são significativas para a população trans, especialmente para aqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

Importante lembrar que a saúde trans não se resume à transição de gênero, mas envolve cuidados integrais que incluem:

* Atendimento com respeito ao nome social e identidade de gênero;
* Acesso digno à prevenção e tratamento de ISTs/HIV, com redução do estigma nos serviços de saúde;
* Ações de saúde mental, profundamente impactada pela discriminação cotidiana;
* Prevenção e assistência em sexualidade e reprodução;
* Cuidados que considerem a população trans idosa.

Garantir esse atendimento integral é assegurar o direito à vida digna — e reforçar que visibilidade não é apenas representatividade, mas uma estratégia concreta de sobrevivência, saúde pública e justiça social.

O Dia Nacional da Visibilidade Trans vai além de uma data comemorativa: é um compromisso com a existência plena de pessoas trans em suas diversidades. Exige que sociedade e Estado reconheçam e enfrentem as violências estruturais, ampliem políticas públicas efetivas — incluindo na saúde e na prevenção de HIV/ISTs — e garantam que visibilidade rima com dignidade, vida e direitos.

Agência de Notícias da Aids