Uma reflexão sobre as campanhas de prevenção ao HIV e outras IST no Carnaval
Mais um Carnaval está chegando e temos as mesmas perguntas, as mesmas inquietudes e, muitas vezes, as mesmas respostas. Nossas ações de prevenção ao HIV e a outras IST no Carnaval são suficientes? São eficientes? Fazem sentido? Os governos investem o suficiente?
As respostas podem ser as mais variadas, mas sempre temos a mesma sensação: a de que deveríamos começar mais cedo, de que os governos deveriam ser mais eficientes e investir mais, sobretudo antes do Carnaval.
Embora existam campanhas, elas acontecem de forma pontual ou focadas apenas no curto “período” do Carnaval. Sempre aparecem na última hora, com cada vez menos (ou nenhuma) participação das organizações da sociedade civil.
Essas campanhas são dirigidas aos foliões, como se apenas no Carnaval as infecções fossem possíveis.
Na Bahia — e especialmente em Salvador, que é o meu campo de atuação e da nossa instituição, a Motirô BA — não é diferente. As campanhas (midiáticas) são planejadas sem a nossa participação, e só tomamos conhecimento quando já estão nas redes sociais ou na TV. Sem entrar no mérito da qualidade delas, acredito que a nossa colaboração e experiência nesse campo são fundamentais.
Um ponto positivo em Salvador é a realização de ações de testagem no Carnaval desde 2019, mantendo viva a chama do Fique Sabendo (criado pelo Ministério da Saúde em parceria com UNICEF e UNAIDS), sendo uma das poucas prefeituras que adotaram o projeto e que o mantêm até hoje nos carnavais e nas Paradas LGBT da cidade.
Na perspectiva dessa “adoção” de projetos de sucesso, neste ano a Prefeitura está implementando, pelo segundo ano consecutivo, a estratégia Rolê da Prevenção, com mobilizadores da sociedade civil levando informações e apoiando a divulgação da testagem nos módulos dos dois circuitos do Carnaval. Trata-se de um fato inédito, pois nunca Salvador havia feito um investimento desse tipo com organizações da sociedade civil voltadas para a resposta ao HIV/aids. Ficamos muito empolgados com esse começo promissor, já que, além da contratação de quase 40 multiplicadores, a prefeitura está investindo em insumos (gel e higienizador íntimo), ventarolas, brindes, camisas etc., tudo personalizado e específico para ser utilizado durante os seis dias da folia.
Celebrando essa conquista importante, no entanto, acreditamos que as campanhas precisam começar antes e ser mais abrangentes. Por que precisam começar antes? Porque a cidade, as pessoas e os equipamentos precisam estar preparados para a grande demanda e mobilização do Carnaval.
Hoje, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis movimentam milhões de pessoas — e não apenas foliões. Movimentam trabalhadores e trabalhadoras autônomas, pessoas que terão seu “ganha-pão” no Carnaval; pessoas que se deslocam para a casa de parentes no interior ou em outros bairros; pessoas que recebem turistas ou amigos. São pessoas e mais pessoas se movimentando e “fervendo” com a expectativa do Carnaval.
Assim, a abrangência das campanhas precisa ser maior do que apenas o foco nos foliões. É necessário considerar toda essa movimentação pré-Carnaval, que envolve shows, ensaios, carnavais de bairro etc.
O Carnaval é o feriado mais popular do Brasil e se tornou um evento de grandes proporções em muitas cidades e nas principais capitais do país, levando multidões às ruas em festas que duram vários dias (acredito, jocosamente, que em Salvador começa em 4 de dezembro, dia de Santa Bárbara, e não para até vários dias após a Quarta-feira de Cinzas). É uma celebração que, embora de origem europeia, se potencializou com a mistura da herança africana — dos sons, das cores, das tradições, da alegria e de todas as contribuições da população negra nesta terra brasilis. É uma festa multicultural que, em cada local, tem suas características próprias, mas tem algo em comum: a mistura de todas as classes sociais. As cores, a origem e até a religião parecem ser esquecidas por esses dias, e vive-se uma mistura efervescente de atividades e folia.
Para a realização de ações de prevenção e testagem, é um momento muito propício, e os governos deveriam melhorar e ampliar as estratégias de acesso à população nesse contexto de grande movimentação — da periferia para os “centros”, de pequenas cidades para as capitais. Essa movimentação e o “anonimato” fazem com que muitas pessoas percam a timidez ou superem barreiras físicas (territoriais) e de estigma, procurando serviços de prevenção, testagem e até assistência. Alcançar pessoas que enfrentam barreiras de acesso a esses serviços, seja pela desinformação ou pelo estigma, é um objetivo extremamente relevante.
Como observei muitas vezes no Carnaval, o fato de tantas pessoas passarem de uma a duas horas do seu “tempo de lazer e folia” em uma unidade móvel para fazer um teste indica que essa iniciativa é absolutamente necessária e precisa ser disponibilizada DURANTE o Carnaval, mas também ANTES dele e em locais “não tradicionais”.
Em Salvador, neste ano melhoramos — mas sempre queremos mais!
* Javier Angonoa é ativista do Movimento Social de luta contra Aids. Diretor da Associação Motirô BA. Ex-consultor do Unaids e do Unicef.
