Uma história de resistência: há mais de 40 anos, uma rede comunitária transforma vidas na luta contra o HIV em Salvador
*Por Genilson Coutinho
Entre acolhimento, prevenção, alimentação, educação e defesa dos direitos humanos, o trabalho iniciado por Tia Conca tornou-se referência de atenção e solidariedade para pessoas que vivem e convivem com HIV e para populações em situação de vulnerabilidade em Salvador.
Contar a história da luta contra a AIDS e o HIV na Bahia é também contar a trajetória de mulheres e homens que, muito antes de existirem políticas públicas estruturadas, decidiram acolher quem era rejeitado, amparar quem estava sozinho e levar informação a quem não tinha acesso a ela.
É impossível falar dessa trajetória em Salvador sem mencionar Tia Conca, hoje aos 82 anos, fundadora da instituição, e José São Macedo, que atualmente conduz uma iniciativa construída ao longo de mais de quatro décadas de resistência, solidariedade e compromisso com a vida.
A história começou ainda nos anos 1980, quando a epidemia de AIDS provocava medo, preconceito e desinformação. Naquele período, o Hospital Roberto Santos era uma das referências no atendimento a pessoas vivendo com HIV na cidade. Tia Conca trabalhava como enfermeira e, durante os atendimentos, conheceu uma travesti que, depois de receber alta, não tinha para onde ir. Diante daquela realidade, decidiu fazer algo que ultrapassava os limites da profissão.
Alugou um pequeno quarto na Rua 28 de Setembro, região que, naquele período, concentrava a prostituição em Salvador, e transformou o espaço em abrigo e acolhimento. O quarto ficava embaixo de um bar. Era simples, mas representava muito para quem não tinha onde dormir, comer ou encontrar apoio.
“Eu não podia deixar aquela pessoa sair do hospital sem ter para onde ir. Aluguei um quartinho e comecei a cuidar. Depois vieram outras pessoas, e eu fui entendendo que precisava fazer mais. Eu recolhia até os restos de alimentos do hospital para levar para quem não tinha o que comer. Foi assim que tudo começou.”
— Tia Conca, fundadora da instituição
A notícia daquele gesto começou a se espalhar pela cidade.
Tia Conca passou a recolher alimentos para distribuir entre pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Aos poucos, aquela iniciativa individual transformou-se em uma rede de solidariedade.
Com o passar dos anos, conseguiu uma casa em Pernambués e ampliou a atuação. O espaço passou a acolher crianças, jovens e famílias que viviam e conviviam com HIV.
Era uma luta diária. Em uma comunidade periférica onde as informações sobre HIV e AIDS ainda chegavam de forma limitada, o preconceito também fazia parte da realidade. Muitas pessoas sabiam que aquele espaço era frequentado por pessoas vivendo com HIV.
Mesmo assim, Tia Conca permaneceu.
Cuidar também é prevenir
A atuação da instituição não se limita ao atendimento de quem já vive com HIV. Uma de suas dimensões fundamentais é a prevenção do HIV e das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
As ações acontecem onde as pessoas estão: em eventos, estações de ônibus e espaços públicos, levando informação, orientação e acesso a métodos de prevenção.
A cada 15 dias, a instituição realiza uma ronda noturna junto a profissionais do sexo de Salvador, incluindo mulheres trans e travestis que trabalham na orla da cidade. A iniciativa leva café, leite e outros alimentos, mas a atuação vai muito além da distribuição.
Durante as rondas, há espaço para a escuta. As profissionais relatam situações de violência, recebem orientação e apoio e, quando necessário, são encaminhadas para atendimento psicológico e médico. As ações também incluem informações sobre prevenção do HIV e das ISTs.
É uma estratégia que reconhece uma realidade muitas vezes invisibilizada: para falar de prevenção, é preciso primeiro construir confiança.
“Quando a gente chega na rua, não chega só para entregar um café ou um alimento. A gente chega para saber como elas estão, ouvir o que aconteceu, saber se estão sofrendo violência e orientar. Muitas vezes, antes de falar de saúde, precisamos mostrar que estamos ali para cuidar.”
— Tia Conca
72 crianças e uma rede de cuidado
Hoje, Tia Conca também está à frente do trabalho desenvolvido na creche da instituição, que atende 72 crianças que vivem com HIV. Para muitas delas, o espaço representa muito mais do que uma creche.
É lugar de alimentação, educação, convivência e proteção. Há crianças que chegam de famílias sem condições de garantir sequer as primeiras refeições do dia. Na instituição, encontram alimentação diária, professores, atividades educativas e uma rede de apoio.
E o atendimento não termina na criança.
As famílias também são acolhidas, porque viver com HIV envolve dimensões que ultrapassam o tratamento médico. Estão em jogo alimentação, educação, informação, renda, vínculos familiares, autoestima e enfrentamento do preconceito.
Quando a prevenção encontra a realidade
Um dos exemplos mais marcantes dessa atuação está no trabalho com jovens que vivem e convivem com HIV. O projeto Jovem Aprendiz busca prepará-los não apenas para o mercado de trabalho, mas também para a vida. São realizados treinamentos, encontros, rodas de conversa, visitas a museus e outras atividades de formação. Em uma dessas conversas, uma jovem revelou uma história que traduz a dimensão humana dessa luta.
Ela nasceu com HIV, adquirido da mãe, que posteriormente morreu. Ao descobrir que vivia com o vírus, passou por um período de profundo sofrimento e chegou a pensar em tirar a própria vida.
Não queria se tratar. Não queria sobreviver. Mais tarde, engravidou.
Durante a gestação, passou a compreender a importância de cuidar de si e da vida que estava gerando. Retomou o tratamento e conseguiu que seu filho nascesse sem HIV.
A trajetória dessa jovem revela uma das dimensões mais importantes da luta contra o HIV: informação, tratamento, acompanhamento e acolhimento podem mudar trajetórias e salvar vidas.
Uma relação que começou na faculdade
Minha relação com o IBCM começou no segundo ano da faculdade, quando participei de uma ação de trote solidário com os calouros. Em vez das tradicionais brincadeiras, decidimos arrecadar brinquedos e fazer doações. Foi assim que conheci a creche da instituição.
Quando fui entregar as doações, conheci a história do IBCM e o trabalho desenvolvido com crianças que viviam com HIV. Até aquele momento, nunca havia passado pela minha cabeça que crianças também pudessem viver com HIV.
Aquele primeiro contato me fez refletir sobre como, muitas vezes, estamos fechados em nossos próprios mundos e desconhecemos realidades que estão tão próximas de nós.
A partir daquele dia, nunca mais deixei de ajudar a instituição. Tornei-me voluntário e sou muito grato por essa oportunidade. O IBCM me proporcionou momentos de felicidade, aprendizado e, principalmente, a possibilidade de compreender que ajudar o outro também transforma a nossa própria vida.
Mais de 40 anos dizendo que ninguém deve ficar para trás
A trajetória de Tia Conca e da instituição é, sobretudo, uma história de cuidado comunitário como instrumento de prevenção e transformação social.
Mais de quatro décadas depois daquele primeiro gesto, a mensagem permanece atual: combater o HIV também significa enfrentar a fome, a violência, a desinformação, o preconceito e a exclusão.
Porque, antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa. E cuidar dessa pessoa é também cuidar da vida.
Genilosn Coutinho é jornalista, editor-chefe do site Dosi Terços e ativista LGBT+




