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Trajetória de Erick Gomes evidencia desafios no acesso à saúde e na garantia de direitos de pessoas trans

Monique Sousa,
28/01/2026 | 17h01

Foto:@caroladentro

Aos 47 anos, o técnico de qualidade Erick Gomes, morador da Cidade Baixa, em Salvador, decidiu tornar pública uma história marcada por autoconhecimento, enfrentamento institucional e afirmação de identidade. 

Homem trans, Erick compartilha sua trajetória de transição e o caminho até a realização da cirurgia de redesignação sexual, revelando os obstáculos impostos pelo sistema de saúde e a importância da informação como ferramenta de resistência, onde o processo começou de forma íntima e silenciosa. 

“Meu principal desafio foi pessoal. Me entender, compreender e aceitar esse novo caminho que estava começando a se abrir para mim, organizar as coisas na minha cabeça e na minha vida”, relata.

O apoio familiar teve um papel decisivo para que o processo de transição ocorresse de maneira mais segura e acolhedora. Gomes relata que foi surpreendido positivamente pela reação da família, que demonstrou compreensão e afeto desde o primeiro momento, contribuindo para que ele atravessasse essa etapa com mais tranquilidade e confiança 

“Quando reuni a família para falar da minha transição, eles disseram que já me enxergavam como homem. Isso me deixou feliz, leve e tranquilo.”

No ambiente de trabalho não foi diferente, a postura da liderança também foi decisiva para garantir um processo de transição marcado pelo respeito e pela inclusão. Erick destaca que a iniciativa partiu diretamente da chefia imediata, que buscou compreender suas necessidades e assegurar um ambiente profissional seguro.

“Meu supervisor me chamou para conversar, perguntou como eu gostaria de ser chamado e articulou com a gerência para orientar as equipes. Foi uma atitude maravilhosa que tornou meu processo de transição mais suave.”

Entretanto, no campo da saúde o cenário se mostrou mais complexo e marcado por obstáculos. Após realizar uma ginecomastia sem intercorrências, Erick deu início à busca pela cirurgia de redesignação sexual, etapa fundamental de seu processo de afirmação de gênero. O primeiro contato com um profissional de saúde foi permeado por frustração e falta de acolhimento.

“O médico apenas atendeu a consulta particular e não me passou informações por conta da ética médica. Aquilo me desanimou.” A situação se agravou em outra consulta quando: “O médico olhou para mim e disse: ‘Será que vale a pena se arriscar numa cirurgia tão delicada para mijar em pé?’ Ouvir aquilo num tom depreciativo e transfóbico me fez encerrar a consulta e ir embora”, relembra Gomes. 

A partir desse episódio, Erick decidiu buscar atendimento particular com o cirurgião Ubirajara Barroso Jr., em busca não apenas de uma alternativa técnica, mas de um cuidado que considerasse sua trajetória, suas expectativas e a dimensão subjetiva envolvida no processo de transição. A escolha marcou uma virada significativa em sua experiência no campo da saúde, agora pautada pela escuta, pelo respeito e pela compreensão da complexidade que atravessa esse tipo de procedimento.

“Pense num profissional delicado ao abordar o assunto, atento em conhecer você e sua história. Ele entende que não é somente uma cirurgia, é a vida de alguém nas mãos dele”, comenta Erick. 

Com o relatório médico em mãos, iniciou-se uma longa batalha com o plano de saúde. O processo de solicitação de autorização teve início em setembro de 2025 e se estendeu até novembro do mesmo ano, período marcado por negativas, transferências de responsabilidade e exigências administrativas. 

O plano inicialmente se recusou a autorizar o procedimento, exigindo que Erick arcasse com os custos. Foi necessário acionar a ouvidoria, abrir reclamação na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e envolver o setor de Recursos Humanos da empresa onde trabalha.

“Tive que expor minha vida, passar pelo constrangimento de falar da minha intimidade, algo que desde o início poderia ter sido resolvido, pois era um direito que eu já tinha”, conta Gomes.

Somente após a intervenção da ANS e a mediação institucional, o processo avançou. Ainda assim, Erick destaca que em nenhum momento houve preocupação com os danos emocionais causados: “A única preocupação do plano era que eu finalizasse a reclamação junto à ANS”, conta.

Para ele, o relato ultrapassa a dimensão da experiência individual e assume um caráter coletivo e pedagógico. Erick destaca a centralidade da informação como ferramenta de autonomia e garantia de direitos, especialmente em contextos marcados por desinformação e barreiras institucionais. Nesse sentido, transforma sua própria trajetória em orientação para outras pessoas que vivem processos semelhantes.

“Procurem saber todos os seus direitos, vejam se o plano cobre, busquem a ANS e não deixem que ditem seus sonhos”, afirma. 

A história de Erick Gomes evidencia que o acesso à saúde para pessoas trans ainda é marcado por barreiras institucionais, práticas discriminatórias e desinformação, revelando um sistema que, muitas vezes, falha em acolher identidades dissidentes. 

Ao mesmo tempo, seu percurso também é atravessado por resistência, coragem e pela afirmação contínua de direitos, apontando para a urgência de políticas públicas mais eficazes e de uma atuação profissional pautada na escuta e no respeito à diversidade.

“Nunca é tarde para sonhar, buscar ser feliz e ser quem você realmente é”, conclui.