Por Valdeci Gonçalves
O presente artigo é uma revisão bibliográfica a respeito da homossexualidade masculina e de sua visibilidade.Com base na referência da masculinidade como construção, procurou adentrar os mecanismos institucionais e culturais que fomentam o preconceito. Neste contexto, atribui-se à conduta homossexual “passiva” uma atitude revolucionária, uma vez que, contrária a maioria, heterossexual dominante e intolerante, esse ator social vivencia a própria singularidade do desejo homoerótico, diante do olhar público, refletidos de trejeitos ou afeminação. O interesse por este aspecto foi despertado pela afirmativa: “O buraco do meu cu é revolucionário”, do francês Guy Hocquengheim (1993), que fez eco com as falas dos michês jovens - cuja virgindade do ânus e o beijo na boca parecem ser preservados a todo custo -, na dissertação sob o título Faca de Dois Gumes: percepções da bissexualidade masculina em João Pessoa-PB, de Valdeci Gonçalves da Silva, mestrado em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba, 1999. O estudo recorreu aos conceitos de “estigma” de E. Goffman; “deslizamento” de J. Derrida; “singularidade” de F. Guattari; “estranho” de Z. Bauman, e outros. Estes, de uma forma ou de outra, e com as devidas adaptações, ajudaram a esmiuçar as contradições e deturpações forjadas em relação à homossexualidade, em particular, a “passiva”. Uma conduta sexual intrigante que, talvez em virtude da necessidade de investigações, ainda, neste início do século XXI, é discriminada de maneira explícita ou velada. Enfim, constata-se de que sentimento homofóbico se presentifica na pós-modernidade, suscitando a razão da discussão temática aqui proposta.
Publicado com título original: "A visibilidade do suposto passivo: uma atitude revolucionária do homossexual masculino", na Revista Mal-estar e Subjetividade, Fortaleza-CE: Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Vol. VII - n. 1 - mar. 2007.
“Se descubro que um de meus jogadores é gay, eu rapidamente me livro dele” (Luiz Felipe Scolari)1
“O buraco do meu cu é revolucionário” disse o francês Guy Hocquengheim (HOCQUENGHEIN apud MOTT. In GUATTARI e ROLNIK, 1993, p. 77). A força transgressora desta afirmativa parece se dever ao fato de que, no seu bojo, traz algo bastante inquietador, uma vez que desloca uma característica política, a revolução, para um outro lugar, ou seja, para um órgão fisiológico, próprio de descarga. Porém, de grande significância erótica, bem como da representação em que se inscreve a conduta do macho. Não que essa parte terminal do intestino por si só seja revolucionário, mas porque exerce a função de divisor de identidades na construção da masculinidade.
O interesse por este trabalho se deve, em especial, à provocação de Hocquengheim, acima citado, que fez eco com a angústia de alguns michês jovens entrevistados para pesquisa de campo da dissertação de mestrado em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba, Faca de Dois Gumes: percepções da bissexualidade masculina em João Pessoa2 (1999), do autor deste artigo. Para esses atores sociais, a virgindade anal e o beijo na boca são bens a serem preservados a todo custo, em contraste com a postura mais flexível de alguns outros, bissexuais não-michês de mais idade, também sujeitos do tal estudo, de encarar sua prática sexual “ativa” e/ou “passiva” 3, sem aparente conflito. A preocupação com o ânus, perpassa, de maneira subjacente ou explícita, não somente as falas desses homoeróticos, nesse contexto da sexualidade negociada ou não. Mas de modo geral, o universo masculino como um todo, considerando que, a intactilidade do mesmo é tida como um símbolo da certeza de ser macho.
O recorte deste trabalho se faz, em específico, sobre a emblemática conduta homossexual “passiva” e da “visibilidade desse estigma”. Por estigma, Goffman (1988) entende os sinais corporais os quais evidenciam o status moral da pessoa que o apresenta, a exemplo dos trejeitos que denunciam a conduta homoerótica “passiva”, em vista de que, este ator social vivencia a sexualidade e o modo de estar no mundo, de acordo com a própria “singularidade”. Termo este, entendido por Guattari (1993), comoum devir diferencialque se recusa à subjetivação capitalística. Ou seja, o homossexual “passivo” com esta visibilidade não segue os ditames da sociedade que determina uma postura masculina do homem se portar.
A relevância do presente estudo consiste no fato de tentar lançar um pouco de luz na compreensão da conduta homossexual “passiva”, e sua efeminação; assim como de procurar esmiuçar as razões que levam os segmentos sociais a excluírem e a perseguirem, de maneira explícita ou velada, essa conduta homoerótica. Para este fim, se debruça nos aportes das teorias da Subjetivação, da Identidade Cultural, do Construcionismo, e faz algumas incursões nos postulados pós-estruturalistas de Foucault, Deleuze e Guattari.
Ao longo desta semana iremos outros capitulo do referido artigo.
Agradecemos a Valdecy Gonçalves , que nos cedeu gentilmente este artigo nosso site.
Valdecy Gonçalves da Silva é mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba.
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