OBAMA, SARKOZY E A BUNDA
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Duas semanas atrás, a bunda, mais uma vez, rompeu com toda força as manchetes de jornais e telejornais de uma boa parte do mundo. Uma garota carioca de 17 anos, por conta de supostos olhares sorrateiros e fulminantes em direção ao seu derrière, angariou, involuntariamente, seus quinze segundinhos de fama. Foto oficial para alguma coisa na última conferência de cúpula dos países mais ricos do mundo, o chamado G8, na cidade italiana de L’Áquila, recentemente devastada por um terremoto, lá estava Mayara Tavares com seu traje coladinho e suas doces curvas, sendo acompanhadas bem de perto, prestes a causar um novo terremoto, desta vez, na alta esfera do poder mundial.

Mayara, a adolescente brasileira, faz parte do Junior 8, um fórum que reúne anualmente jovens de todo o mundo com o objetivo de compartilhar e discutir suas preocupações com o planeta e elencar recomendações de como resolver os problemas que afligem os povos da terra. Além de delegados dos países do G8 (Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos), recentemente, o Junior 8 expandiu a participação de mais jovens, recebendo grupos do Brasil, China, Egito, Índia, México e África do Sul. Os garotos e garotas reuniram-se em Roma e depois seguiram para a cidade de L’Áquila, onde juntaram-se aos comandantes-em-chefe de todos os países por eles representados.

Como essas reuniões de cúpula normalmente têm muita publicidade, firula e muito blá, blá, blá, revelando-se virtualmente improdutivas, a inusitada imagem da moça brasileira subindo os degraus do palco onde estavam os homens mais poderosos do globo e seus colegas de Junior 8, e sendo seguida por olhares nada inocentes dos presidentes dos Estados Unidos e da França, correu mundo. Ficou tão marcada pelas lentes de máquinas e câmeras que recebeu mais destaque do que qualquer resolução que possa ter advindo da conferência mundial. Provavelmente, a garota sequer notou que o presidente Sarkozy, gavião assumido, quase teve uma entorse no pescoço ao segui-la com total fidelidade desde o primeiro degrau. E olhe que a menina não tem nada de Sheila Carvalho ou Mulher Melancia. Se fosse uma Viviane Araújo, Sarkozy, certamente, teria uma síncope.

No caso de Obama, a imprensa americana tratou logo de arranjar uma maneira de limpar a barra do atual morador da Casa Branca. Ancorados no puritanismo irritante e politicamente decrépito de sempre, os telejornais e um monte de apresentadores apressaram-se em chamar a atenção para as imagens em movimento. O argumento é que, enquanto a jovem brasileira de vestido fulgurante colado, derrière bem formado e protuberante, passava em frente a Obama e este, supostamente, seguia os movimentos da bunda tupiniquim com certo interesse, o presidente, na realidade, estaria olhando para baixo, estendendo a mão para a feiosa americana que estava atrás dele e que teria de se posicionar ao lado do presidente. Mayara, a magrela bunduda, caminhava em direção a Luis Inácio, que em bate-papo empolgado, sabe-se lá em qual língua, não registrara a cena. Pronto, Obama estava livre das más línguas. Obama, o presidente, não seria um homem normal.

Essas coisas do poder são realmente muito interessantes. É bem possível que o presidente americano não estivesse mesmo seguindo a moça brasileira com o olhar. Mas, e se estivesse? Que mal viria a ele? Sarkozy, o bonachão francês, não perdeu o rebolado e, pelo que eu sei, seus asseclas em Paris não se arvoraram em defender seu ato, muito menos tentaram adivinhar os pensamentos que devem ter passado pela cabeça do marido de Carla Bruni. O mais interessante de tudo isso é que, nós, latinos, jamais daríamos tanta importância ao fato, nem tampouco sairíamos em disparada para desmentir uma coisa que quase todo homem nesse lado de cá faz sem a menor preocupação. A bunda é uma preferência nacional e como parte do inevitável processo de globalização, segue a passos largos para virar um artefato cultural internacional. Sendo assim, que comece logo no topo.

Como um curioso do assunto, sem a menor pretensão de soar sexista, lá fui eu assistir às imagens que tentaram usar como defesa incontestável para as intenções de Obama. Vi uma, duas, diversas vezes, e confesso que não fiquei convencido. Acho que o presidente estava mesmo apontando o lugar para que a bruaca compatriota dele se apresentasse, mas, tenho certeza absoluta que a silueta de Mayara não passou pelo novo queridinho do mundo de maneira incólume. Nem que tenha sido vítima do famoso ‘rabo de olho’, Mayara capturou sim os interesses do jovem senador de Illinois. E daí? Nada de mais. Afinal, se olhar para dentro de casa, observando a figura da primeira dama, vê-se muito bem que, no tocante ao artigo em questão, Obama está muito bem servido.

O grande problema nessa celeuma toda, é que a hipocrisia sempre andou solta por entre os meandros da política e um comportamento natural, mesmo tratando-se de homens públicos poderosos, é obrigado a passar por todos os filtros de censura moral. Se esses filtros realmente funcionassem no tocante a outros itens como caráter, honestidade, coerência ideológica, só para citar alguns, aí sim, consideraríamos uma olhadela de bunda como algo reprovável para um chefe de estado. Entretanto, como o que eu vislumbro na política, seja daqui ou de alhures, é pura utopia, olhar uma bunda, mesmo em um momento solene, me parece um ato mais salutar do que envolver-se em casos escabrosos das mais diversas montas. A bunda de Mayara, de longe, é café pequeno diante, por exemplo, dos atos secretos do Senado brasileiro. Aliás, ao Senado brasileiro, deveríamos todos virar a ..., como o fazem aqueles jovens irreverentes dos filmes americanos.

Certamente, os moralistas de plantão, nesse momento, devem estar indignados com os meus argumentos. Ah, esses homens são figuras públicas, têm que se dar ao respeito. Respeito que nada! Esses homens se dariam o respeito se demonstrassem que ao assumir o posto outorgado pelo povo, tentariam manter o mínimo de bom senso e alguma fidelidade aos seus princípios no exercício do poder. Sei muitíssimo bem que em política, como em futebol, do pescoço para baixo, tudo é canela. Entretanto, há coisas na política que extrapolam o bom senso. No nosso quintal, por exemplo, o beijo de Lula na mão de Jader Barbalho, os recentes abraço apertado e agradecimento efusivo ao senador Fernando Collor de Mello, aquele mesmo que jogou sua imagem na sarjeta, são exemplos singulares de que entre escândalos como esses e uma olhadela para uma bunda de uma jovem, considero o segundo ato absolutamente normal. Mesmo para um homem público poderoso.

Em suma, dou vivas a Mayara, a menina do Brasil, representante do Junior 8. Em primeiro lugar, por ter sido escolhida como uma de nossas jovens delegadas que buscam contribuir com suas ideias para ajudar a resolver as tantas e complexas questões que afetam o nosso planeta. Em segundo lugar, por, involuntariamente, ter roubado a cena, em momento em que ela era apenas uma mera coadjuvante. Certamente, espera-se que Mayara não mantenha sua popularidade a partir de uma qualidade física tão apreciada por nós, homens brasileiros. Tenho certeza que ela tem muitos outros atributos, senão não estaria lá. Mas, (in)felizmente, esse foi o momento Obama, Sarkozy e a bunda. A famosa bunda brasileira. Por alguns dias, Mayara será a menina da bunda. Goste ela ou não. Com o tempo, tudo arrefece. Até que uma nova bunda nos chame a atenção. Sem preconceito, sem hipocrisia, sem defesas indefensáveis. Uma bunda. Naturalmente bela. Feminina. Masculina. Sem preconceito. Sem hipocrisia. Sem defesas indefensáveis. A bunda. A bunda. E pronto!


Professor
Sávio Siqueira


 

 

Inserido em:21/07/2009
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