Na semana passada, aproximando-se do Dia dos Pais, apelos comerciais à parte, Salvador acordou chacoalhada por mais uma tragédia a ser adicionada a nossa crônica de violência e de horrores cada vez mais comum. Uma médica pediatra, ao voltar de suas compras em um dos mais movimentados shoppings da cidade, é abordada por um criminoso condenado, usufruindo exatamente do indulto do Dia dos Pais, seqüestrada com sua filhinha de dezoito meses, e morta brutalmente por atropelo numa estrada vicinal de um município não muito distante da capital. Mais um crime bárbaro, comoção geral.
De tragédia em tragédia, nossa vida nas cidades brasileiras vai ficando insuportável. A sensação de insegurança é tão grande que bastou a Polícia Militar da Bahia ensaiar uma paralisação por melhores condições de trabalho, mais equipamentos e aumento real no soldo para que a população entrasse em absoluta condição de pânico. Era gente ligando para os programas de rádios, sensacionalistas, assistencialistas ou não, denunciando pseudo-arrastões, assaltos nas esquinas, roubo em sinaleiras e por aí vai. O medo catapultado à décima potência, o horror instalado nas nossas mentes e nos obrigando a seguir vivendo em grau máximo de temor, pedindo a Deus para não ser a próxima vítima.
E falando em horror, a notícia da morte brutal da pediatra paulista radicada na Bahia, como não poderia deixar de ser, causou indignação e revolta, principalmente quando se elucidou o crime, culminando com a prisão em tempo recorde do assassino. Com a ajuda das imagens gravadas pelo sistema de segurança do shopping, pudemos ver com riqueza de detalhes a facilidade como um bandido transita por seus corredores, caminha livremente pelo estacionamento lotado, aborda uma mulher indefesa, ajeitando sua filhinha no fundo do carro, e sai tranquilamente pela guarita eletrônica sem que ninguém o aborde. É incrível ver o movimento frenético de carros e pessoas no momento do seqüestro e como tudo dá certo para o assassino. Foi-se embora com suas vítimas acuadas no banco de trás.
Não quero me ater ao já tão propalado, mas pouco ouvido, discurso sobre o fato de que a opinião pública brasileira só se choca e se manifesta com veemência gutural quando as vítimas da violência são pessoas das classes dominantes. Acho desnecessário repetir esse clichê porque esta é a mais pura verdade. A guerra civil instalada nas nossas periferias ceifa diariamente dezenas de vítimas, uma boa parte delas inocentes, mas o único veículo de comunicação que abre espaço para mães e famílias debulharem sua dor são os programas mundo-cão. E como não somos idiotas, na realidade, o que esses abutres televisivos querem mesmo é expor sangue em troca de audiência, fazendo de conta que se solidarizam com aquela gente pobre que mal consegue dar vazão ao seu sofrimento.
Em depoimento impressionante para reportagem de Carta Capital (19.08.2009, p.22-25), Francisco Marcelo, morador da Vila Vintém, no Complexo de Favelas da Maré, Rio de Janeiro, coloca de forma crua que “o favelado é um brasileiro de terceira classe ou, talvez, nem isso”. Segundo ele, nesses locais dominados pelo tráfico, esquecidos pelo Estado, o medo é companheiro constante. Medo de tudo, inclusive da polícia que, como relata Francisco, “age baseada no estereótipo”. Se alguém usa boné e anda de bermudas, para os homens de farda, é bandido. E nesse jogo macabro, onde rostos se confundem e se mesclam, mata-se qualquer um, atira-se para depois, caso alguém reclame, se dar um nome e uma identidade a quem tombou. Essa é a rotina de vida que, infelizmente, não choca mais ninguém.
Francisco Marcelo fala também que, como todo favelado, vive assustado, quase não pára na rua, não vê os amigos, se assusta com criança correndo, barulho de moto, gente gritando. Se assusta até com o silêncio. Silêncio que, na visão dele, diz muito, muita coisa para quem tem sensibilidade. Mas esse rapaz, ainda que acostumado a tamanha brutalidade no seu dia-a-dia, fala de esperança e resiste, não sai da Maré. Diz que se fizer como muitos dos seus amigos, que logo que conseguem entrar para a faculdade, arrumam o emprego e se mudam, a comunidade permanecerá entregue à própria sorte e tudo continuará na mesma.
Agarro-me a esse depoimento para fazer um pequeno paralelo entre o caso da médica assassinada aqui em Salvador e os tantos igualmente brutais assassinatos e a rotineira matança que ocorrem todos os dias nos bairros pobres dessa cidade gigante, e como a gente sente e trata das duas situações. Infelizmente, respeitando e nos solidarizando com a família de mais essa vítima da nossa violência urbana, nossos olhares voltam-se apenas para esses casos em que têm-se nome, elenca-se profissão, bate-se à porta da classe social que, como reclama o carioca Francisco, não possui nas suas hostes cidadãos de terceira categoria. Com isso, não quero jamais minimizar a dor da tragédia, mas quero conclamar que não fiquemos perplexos apenas quando a classe dominante é atingida. Afinal, de novo, sem cair no queixume dos clichês, se somos uma nação, não incorramos no erro cruel de simplesmente achar que existem pessoas e pessoas.
A morte da pediatra me chocou. A forma como aconteceu e por quem o crime foi cometido, mais ainda. A incompetência da segurança do shopping também. Todos os jornais, todos os programas de televisão, dos mais simples aos mais badalados, como o Jornal Nacional, deram ênfase ao acontecido. Deram nome e rosto àquela vítima que, provavelmente, no intuito de proteger sua filhinha, seguiu com total controle os desmandos do assassino. Mas, mesmo assim, acabou sendo morta. Tragédia que fica martelando nas nossas cabeças e que, a cada dia, todo santo dia, nos põe em pé de guerra com a nossa própria sanidade, nos levando a não relaxar jamais, a ter medo até de folha que cai. Isso é muito ruim e, aos poucos, vai nos matando, nos tirando o sossego, enfraquecendo o nosso coração.
Em constante estado de choque, de tragédia em tragédia, seguimos nosso caminho, aprendendo a sobreviver a uma guerra civil que, dia após dia, vai chegando no asfalto e tornando todo mundo refém de nossa derrocada como uma sociedade capaz de garantir condições mínimas de vida para todos. Ah, utópico menino que pede para que olhem os pobres e os oprimidos! Dor não se compensa com dor. Tragédia não se justifica com separação de classes, como se fosse possível esconder debaixo do tapete o derramamento de sangue, a matança que há muito tempo se opera nas nossas cidades. A violência deixou os guetos, migrou das vielas das favelas para os bairros nobres. Apesar de tanto aparato de segurança, grades e condomínios isolados, somos todos vítimas dessa falência social. E ao invés de pensarmos em levar a paz às favelas e às periferias, erguemos fortalezas, Le Parcs, Manhattans, Mandarins, e por aí vai.
Em suma, estamos todos acuados. Temos poucas escolhas, mas se quisermos jogar um pouco de esperança nesse caldo entornado de nossa vida amargurada, é preciso que gritemos por todos. É preciso que lutemos por todos. É preciso que todos tenham nome e que revolta e resignação não separem habitantes de um mesmo lugar, como se não fossem detentores dos mesmos direitos. Como sabiamente relembra o Francisco, “por mais que a violência tenha crescido juntamente com as favelas, elas sempre tentaram manter o que têm de mais valor:a alegria e a força do seu povo” (p.24). Pois bem, é essa nossa força, às vezes esquecida, que precisa nos mover. De tragédia em tragédia. Seja um ambulante, seja uma médica. É essa revolta democrática que precisa tomar conta de nós para que, quem sabe, possamos tentar entender que habitamos a mesma casa e que segurança pela metade não resolve nada. Felicidade pela metade, tampouco. É preciso uma indignação coletiva para que tragédias como a da pediatra nos choque tanto quanto a de um menino favelado sem rosto e sem nome. Só assim, somente assim, poderemos, juntos, brigar pela paz comum. Fora isso, as tragédias se repetirão e nós, pobres, ricos, favelados, endinheirados, continuaremos a viver uma vida sem sentido. Cada um, no seu canto, acuado, assustado por tantas e tantas tragédias. Não dá. Não é possível viver assim!
Sávio Siqueira
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