A classe média gay é tão despolitizada quanto a hétero", diz blogueiro Thiago Magalhães
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"A classe média gay é tão despolitizada quanto a hétero", diz blogueiro Thiago Magalhães
Quando escrevo um texto como este lamentando a alienação política e a apatia generalizada que tomaram conta do meio gay, não acho que esteja chovendo no molhado. Mesmo sem me considerar um formador de opinião, acredito que compartilhar essas reflexões pode levar outras pessoas a também pensar sobre o assunto. Não deixa de ser uma forma de fazer alguma coisa para tentar melhorar nossa situação. Por outro lado, não ignoro que esse tipo de iniciativa tem um impacto limitado. Muitos leitores até concordarão com o que eu digo, irão se sentir incomodados por alguns instantes, mas logo virá outro post para distraí-los, e a eventual indignação acabará evaporando sem que ninguém tire a bunda da cadeira. E assim ficamos.

Tenho pensado em outras maneiras de fazer a minha parte. Como é possível virar a mesa? Algumas pessoas são realmente acomodadas: aguardam a misericórdia da sociedade, e contentam-se em colher os frutos do que for plantado por outras pessoas. Mas sei que há gente que se importa e até gostaria de fazer algo, mas não sabe como.

"As bibas são individualistas", "está todo mundo entorpecido pela mídia", "a inclusão que importa hoje é a do consumo". Sim, essas constatações são todas verdadeiras. Se formos esperar que os 3 milhões de pessoas espremidos pela Avenida Paulista dêem as mãos e promovam uma mudança, estaremos ferrados. Seria lindo se toda a vasta comunidade LGBT se unisse, mas, sejamos realistas, isso possivelmente não vai acontecer. Não posso falar por todos, mas olho ao meu redor e vejo muito mais gente tirando o corpo fora do que se importando de verdade. Então, não há saída? Há sim, mas não dá mais para viver uma utopia, sonhar com uma união que parece cada vez mais distante. A esperança não está nas atitudes coletivas, e sim nas individuais.

Mas por onde começar? Transformando palavras vagas e ideais abstratos em atos concretos, coisas que estejam ao alcance de cada um de nós. Nasceu aí minha ideia de fazer uma cartilha, uma lista de medidas exequíveis, palpáveis, realistas. Pequenas atitudes para cada um adotar no seu cotidiano, dentro de suas possibilidades individuais, que variam de uma pessoa para outra. São sugestões; ninguém precisa acatar todas elas, basta cumprir aquelas que estão mais próximas de sua realidade. Rodolfo, que é fortão, pode socorrer uma biba que está levando um coió ou sendo agredida; já Lucas, que é franzino, pode escrever uma manifestação de repúdio a um programa de TV homofóbico, e mandar para um jornal. Plínio, que é podre de rico e não suja as mãos nem com seu poodle, pode remanejar o valor de um jantar por mês para ajudar alguma ONG que auxilie travestis, soropositivos ou vítimas de preconceito. Todos nós podemos nos manter melhor informados sobre o mundo que nos cerca, e deixar de abaixar a cabeça quando vemos nossos direitos sendo preteridos.

A ideia é que cada um, sozinho, tome pequenas atitudes que transformem o mundinho ao seu redor, e assim ajudem a fazer a diferença. Eu faço aqui. Você faz aí. Eventualmente, os amigos dos amigos, que moram em Novo Hamburgo, Manaus ou Feira de Santana, se animarão também. Claro que nem todo mundo pode se dar ao luxo de sair do armário heroicamente e ser crucificado em seu círculo social. Mas cada um faz o que pode. E olha: tem coisa pra caramba que dá para fazer. Cada um no seu quadrado, podemos acabar gerando uma formidável corrente do bem. Pessoas comuns, anônimas ou não, entre seus amigos e familiares, fazendo um trabalho de formiguinha e multiplicando-o, semeando inclusão, promovendo cidadania e ajudando a enfraquecer o preconceito.

Para me ajudar na elaboração dessa cartilha, resolvi convidar mais cinco blogueiros (Gustavo, Cris, Daniel, BHY e Isadora) que, além de estarem entre os meus preferidos, têm uma visão crítica e que vai além dos muros da boate. Nem sempre estamos afinados com as mesmas opiniões, mas as divergências só vão enriquecer o resultado. Minha ideia é trabalharmos em cima disso pelos próximos 15 dias, até chegar a uma lista final com 50 itens. E publicar a cartilha em nossos blogs, na segunda-feira logo depois da Parada - quando todo mundo já "celebrou o orgulho" e está prontinho para esquecer a causa pelo resto do ano. Eu boto fé, e você? Sugestões serão sempre bem-vindas.

 

Inserido em:09/06/2009
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