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Supressão viral faz pessoas com HIV envelhecerem cognitivamente no mesmo ritmo que pessoas sem HIV, aponta estudo dos Estados Unidos

Genilson Coutinho,
19/02/2026 | 22h02

Uma nova investigação científica traz evidências robustas sobre o impacto do HIV no envelhecimento cerebral e oferece uma mensagem relevante para a saúde pública: pessoas vivendo com HIV que conseguem manter a carga viral indetectável envelhecem cognitivamente no mesmo ritmo que pessoas sem HIV. O estudo, liderado pelo médico James Kennedy e publicado no periódico científico The Journal of Infectious Diseases, acompanhou centenas de participantes por mais de uma década e analisou tanto o desempenho cognitivo quanto alterações estruturais do cérebro.

Os resultados indicam que o controle eficaz do vírus por meio do tratamento não apenas melhora a saúde geral das pessoas vivendo com HIV, mas também parece normalizar o ritmo de envelhecimento cerebral. Em contrapartida, indivíduos que não conseguem atingir ou manter a supressão viral apresentam declínio cognitivo mais acelerado e alterações cerebrais mais pronunciadas ao longo do tempo.

A pesquisa mostrou ainda que, embora pessoas com HIV — mesmo com carga viral indetectável — apresentem volumes cerebrais menores e desempenho cognitivo ligeiramente inferior em média quando comparadas a pessoas sem HIV, a velocidade com que essas mudanças progridem com a idade se torna semelhante entre os grupos quando o vírus está controlado. Segundo os autores, isso sugere que possíveis prejuízos iniciais podem ocorrer antes do início ou da estabilização do tratamento, mas não continuam a se agravar de forma desproporcional após a supressão viral.

Como o estudo foi conduzido

A pesquisa foi realizada entre 2008 e 2024 com participantes recrutados na região de St. Louis, nos Estados Unidos. O estudo reuniu um número considerado elevado para pesquisas de neuroimagem cognitiva, com três grupos principais:

* 259 pessoas sem HIV
* 264 pessoas com HIV em tratamento e com supressão viral estável
* 84 pessoas com HIV com carga viral detectável apesar da terapia

Os participantes eram predominantemente homens e afro-americanos. Aqueles sem HIV e os com HIV detectável tinham idade média de 36 anos, cerca de dez anos mais jovens que o grupo com HIV indetectável. O nível de escolaridade apresentou pequenas diferenças entre os grupos.

Para garantir maior precisão científica, foram excluídos indivíduos com condições que poderiam interferir na função cognitiva, como histórico de acidente vascular cerebral, distúrbios neurológicos, depressão não tratada, perda prolongada de consciência ou transtornos graves por uso de substâncias (exceto tabaco, álcool ou cannabis).

A supressão viral foi definida como menos de 50 cópias do vírus por amostra de sangue, medida por exames realizados no início do estudo ou por registros médicos. Ao longo da pesquisa, os participantes realizaram um total de 841 visitas, com alguns sendo avaliados repetidamente ao longo dos anos.

Testes cognitivos e avaliação do cérebro

Em cada visita, os participantes passaram por uma bateria de testes cognitivos seguida de exames de ressonância magnética para análise da estrutura cerebral.

Os testes cognitivos incluíram tarefas de fluência verbal, aprendizagem verbal e testes de trilhas que mediam velocidade de processamento e atenção. No teste de fluência, os participantes precisavam nomear o maior número possível de itens de uma categoria — como animais — dentro de um tempo determinado. No teste de aprendizagem verbal, uma lista de doze palavras era apresentada e deveria ser repetida de memória em três tentativas. Já os testes de trilhas exigiam que os participantes ligassem números distribuídos em uma folha o mais rapidamente possível.

Essas avaliações permitem medir diferentes dimensões do funcionamento cerebral, incluindo acesso ao conhecimento semântico, processamento de informações verbais, atenção visual, velocidade motora e flexibilidade cognitiva.

Após os testes, os participantes eram submetidos a exames de ressonância magnética para avaliar o volume de diferentes regiões do cérebro e identificar sinais de atrofia — redução de volume associada à morte celular e a alterações estruturais que podem comprometer funções cognitivas específicas.

Envelhecimento cognitivo: diferenças entre os grupos

Os resultados confirmaram que o envelhecimento afeta a cognição de todos os indivíduos. O desempenho cognitivo diminuiu progressivamente com a idade em todos os grupos avaliados. No entanto, pessoas sem HIV apresentaram melhor desempenho médio ao longo do tempo, enquanto os dois grupos com HIV tiveram pontuações gerais mais baixas.

A descoberta central foi que a taxa de declínio cognitivo — ou seja, a velocidade da piora ao longo dos anos — foi praticamente idêntica entre pessoas sem HIV e aquelas com HIV indetectável. Em termos simples, apesar de possíveis diferenças iniciais, o ritmo de envelhecimento cerebral é semelhante quando o vírus está sob controle.

Já entre participantes com carga viral detectável, o declínio cognitivo ocorreu de forma mais rápida. Os pesquisadores observaram uma interação negativa entre envelhecimento e presença ativa do vírus, sugerindo um efeito sinérgico em que idade e replicação viral contribuem conjuntamente para acelerar a deterioração das funções cognitivas.

Alterações no volume cerebral

Os exames de neuroimagem confirmaram tendências semelhantes às observadas nos testes cognitivos. Em geral, participantes sem HIV apresentaram volumes cerebrais maiores na maioria das regiões analisadas, enquanto os dois grupos com HIV mostraram volumes menores.

A taxa de perda de volume cerebral com o envelhecimento foi amplamente semelhante entre os três grupos, indicando que o controle viral impede uma aceleração significativa do processo de degeneração estrutural.

Uma exceção importante foi observada em regiões específicas — o globo pálido e o putâmen — onde a perda de volume ocorreu mais rapidamente em pessoas com carga viral detectável. Essas áreas fazem parte dos gânglios da base, estruturas relacionadas ao controle do movimento, cognição e motivação, consideradas particularmente vulneráveis ao HIV e potencialmente capazes de atuar como reservatórios virais no cérebro.

Fatores sociais e comportamentais também influenciam

O estudo também mostrou que a saúde cerebral não depende apenas do controle viral. Análises complementares indicaram que sintomas depressivos, consumo de álcool e cannabis e condições socioeconômicas desfavoráveis — como viver em bairros com maior vulnerabilidade social — estavam associados a pior desempenho cognitivo e menor volume cerebral.

Os resultados indicam que fatores sociais, ambientais e de saúde mental exercem influência significativa sobre o envelhecimento cognitivo, mesmo entre pessoas com HIV bem controlado, reforçando a importância de uma abordagem integral da saúde.

Implicações para tratamento e saúde pública

Segundo os pesquisadores, de forma geral, o estudo contribui para esclarecer os efeitos de longo prazo do HIV no cérebro. Ao acompanhar os participantes ao longo do tempo e diferenciá-los de acordo com o nível de supressão viral, os pesquisadores demonstraram que o tratamento eficaz pode impedir a aceleração do envelhecimento cognitivo associada à infecção.

Embora diferenças estruturais e funcionais médias possam persistir, o processo de envelhecimento em si não parece ser intensificado quando a carga viral é mantida indetectável. As conclusões reforçam a importância do diagnóstico precoce, da adesão ao tratamento antirretroviral e do monitoramento contínuo da carga viral para preservar a saúde cerebral.

Em um cenário em que pessoas vivendo com HIV apresentam expectativa de vida cada vez maior graças aos avanços terapêuticos, compreender o impacto da infecção sobre o envelhecimento torna-se essencial. O estudo sugere que o controle viral eficaz pode permitir que essas pessoas envelheçam cognitivamente de forma semelhante à população geral, ao mesmo tempo em que destaca a necessidade de atenção a fatores sociais, comportamentais e psicológicos que também moldam a saúde do cérebro ao longo da vida.

Da Agência de Notícias da Aids