Essa semana o DoisTerços tem a participação de Fernando Figueiredo, ex-sargento do Exército e personalidade que tem se destacado no cenário LGBT, principalmente por toda a visibilidade e postura adotada após ter sido capa da revista Época juntamente com seu companheiro, Laci de Araújo. No último dia 18 de julho o casal esteve em Feira de Santana, a convite do GLICH (Grupo Liberdade Igualdade e Cidadania Homossexual) para receber o prêmio Luiz Mott, um reconhecimento pelo registro histórico que trata de um tema que representa tabu nas forças armadas do Brasil. Toda a polêmica envolvendo o casal está registrada no livro divulgado na ocasião, “Soldados não choram”. O livro descreve os desdobramentos da revelação da homossexualidade do casal na mídia nacional, fala da prisão de Laci no programa Superpop, de Luciana Gimenez, e relata toda a história de Fernando juntamente com seu companheiro, Laci junto ao Exército Brasileiro.
Ao DoisTerços, Fernando falou sobre a atual relação do casal com o exército, sobre a cobertura do seu caso pela mídia brasileira e sobre a Parada Gay de São Paulo. Laci não pode se pronunciar ainda, por orientação de seus advogados, e em virtude de ainda estar vinculado ao exército.
DoisTerços - Pude encontrar vocês dois na Feira LGBT no Vale do Anhangabaú em São Paulo, também num trabalho de divulgação do livro. Como foi aquele momento para vocês? Como foi sentir a energia do público que passava por lá?
Fernando - Estar junto a quem nos apoiou é sempre bastante gratificante. Recebemos incontáveis demonstrações de solidariedade naquele momento em particular e a todo instante quando do ocorrido. Somos muito gratos por isto.
DT - E o que vocês acharam da Parada Gay de São Paulo em 2009 e de toda a repercussão sobre o rapaz morto e sobre a explosão da bomba?
Fernando - A parada foi linda em sua plenitude. Uma ocorrência em separado não pode responder por todo o contexto. Foi sim uma parada pacífica, apesar daquela clara intenção em intimidar tanto participantes quanto ao público presente. Infelizmente foi dada notoriedade àquela clara demonstração de homofobia. Contudo serviu para exemplificar a quantos ainda impera a intolerância e o preconceito.
DT - Há uma dupla relação com as pessoas que conhecem um pouco de vocês através da mídia. Há aqueles que criticam a exposição do casal e há aqueles que os vêem como verdadeiros ídolos, por terem dado a cara a tapa e enfrentado uma instituição como o Exército Brasileiro. Como vocês vêem isso?
Fernando - Isso é perfeitamente normal. Mas pouco aceitável. Independente do que se possa concluir, a ponderação seria no sentido de que o fato é muito mais importante do que seus protagonistas. É inegável que nosso ato simboliza uma luta de centenas de outros que são diuturnamente massacrados por questões preconceituosas e de cunho político dentro das Forças Armadas. Nosso caso não é único. Particularmente, o ato foi na realidade uma demonstração de desespero, ninguém quer sua vida exposta a todos como nos ocorreu. Algo muito sério vinha ocorrendo para tomássemos aquela decisão de exposição.
DT - Como está a vida de vocês atualmente? No que estão trabalhando? Quais os projetos em andamento, planos para o futuro?
Fernando - Atuo no Grupo Tortura Nunca Mais do Estado de São Paulo, com representação em Brasília. Voltei a cursar Direito e meu projeto é a defesa dos Direitos Humanos. Laci ainda é vinculado ao Exército por força de decisão da justiça do Exército.
DT - Já pensaram em vender os direitos da história de vocês para a produção de um filme? Ou alguém já entrou em contato em busca disso?
Fernando - É uma possibilidade. Há sondagens de fato.
DT - Como está a relação de vocês com suas antigas organizações militares? Vocês sentem falta de algo da vida militar?
Fernando - Não mantenho contato com eles. O Laci está trabalhando normalmente por força de decisão da justiça do Exército. Paralelo a isto estamos travando uma luta judicial para o reconhecimento da doença [de Laci] na justiça federal.
DT - E quanto à imprensa? Você tem algo a falar sobre o tratamento da imprensa em relação a vocês depois da divulgação da matéria de capa na revista Época?
Fernando - Uma inegável demonstração de respeito pela maioria esmagadora dos meios de comunicação. Sobressaiu-se sempre a transmissão clara da notícia de forma isenta em busca dos fatos concretos que norteavam o assunto. E, em conseqüência, a verdade veio à tona. O exército calou quando não conseguiu explicar o porque dos meios e da violência empregada para se justificar a prisão de dois “transgressores”. A farsa foi desmontada.
O DoisTerços aproveita para agradecer toda a atenção e carinho de Fernando e divulgar seu artigo sobre a luta pelos direitos humanos junto ao Grupo Tortura Nunca Mais.
http://www.torturanuncamais-rj.org.br/jornal/gtnm_68/artigo.html
Gustavo B
Formado em Jornalismo pela FACOM - UFBA
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