PÁRA O MUNDO QUE EU QUERO DESCER

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Faz pouquíssimo tempo, eu disse em um dos meus escritos que eu pensei que já tinha visto (quase) tudo acontecer nesse Brasil de meu Deus. Referia-me aos contêineres de lixo importado da Inglaterra que aqui chegaram pelos portos de Santos (SP) e Rio Grande (RS). Felizmente, a publicidade e o estardalhaço necessários para escândalos dessa monta, deram resultado e, pelo que sei, o malfadado carregamento está de volta ao seu país de origem. Pelo menos, nesse pormenor, fomos mais assertivos que muitos governos de nações africanas que, mesmo diante de quadros grotescos de miséria, continuam a aceitar que suas terras sejam transformadas em lixões. Uma vergonha sem par.
 
Mas saindo da questão do lixo inglês, o que me estarrece nessa bela tarde de domingo é estar lendo em detalhes, ainda que preliminares, os crimes cometidos por um dos médicos mais badalados desse país. O médico das estrelas, dos ricos e endinheirados. O doutor bigodudo que tornou-se referência em medicina reprodutiva no Brasil. Pelo que eu sei, gente famosíssima, a começar pela ex-mulher de Pelé, Assíria, fez tratamento com esse médico e deu luz a gêmeos. Pelo que me lembro, o dr. Roger Abdelmassih era dito como um semi-deus no tocante a ajudar casais com problemas para conceber filhos.  
 
Ainda meio atarantado com o escândalo e a repercussão negativa do caso, pipocando em progressão geométrica, e que certamente vai implodir o seu negócio milionário, o dr. Roger, claro, como nada ainda está provado, jura inocência. Diante das câmeras, mantém a empáfia de alguém que se sente acima do bem e do mal e, como preconiza a máxima de quem tem prestígio e plata mucha, a estratégia é contratar a peso de ouro advogados renomados, em especial com grande desenvoltura midiática, para que, desde o começo, se construa a manjada, porém eficiente, tese de que tudo não passa de alucinação e calúnia de quem acusa. Isto é, tudo fica a cargo da imaginação fértil de mais de sessenta senhoras que, de repente, deram a louca, e resolveram abrir sua intimidade apenas para levantar falso testemunho contra um pobre inocente sexagenário.
 
Eu digo e repito: pensei que já tinha visto quase tudo nesse país de absurdos. Mas, como pode-se ver, o ser humano, para o bem e para o mal, não pára de nos surpreender. Quem, em sã consciência, poderia sequer imaginar que um senhor distinto, rico, renomado, tido como o “pai” de mais de cinco mil crianças não passa de um grande canalha estuprador? Dos tantos atos nefastos e mórbidos que nossas sociedades doentes foram capazes de produzir, o estupro talvez seja o mais hediondo de todos. As marcas ferozes são na alma e não há remédio nem tratamento que as apague em definitivo. É um crime tão terrível que até no código de conduta dos bandidos encarcerados nas penitenciárias, estupradores são submetidos a tratamento similar. Sem dó nem piedade.
 
Sem querer jamais mensurar a gravidade do ato, o que esse médico doente fez, na minha visão, é ainda pior do que geralmente faz qualquer canalha tarado que ataca mulheres indefesas e as estupram em ruas desertas, sob a mira de uma arma. Esse médico, amigo das celebridades, de acordo com algumas testemunhas, estuprava suas pacientes, inclusive com sexo anal, no momento em que elas estavam sedadas, ou seja, completamente indefesas. Isso sem falar nas outras sacanagens inenarráveis que ele as submetia, como masturbação, beijo forçado, carícias nos seios e por aí vai. Dá para imaginar?
 
Como essas coisas cheiram muito mal e desenrolam tal qual novelo, outros depoimentos demonstram claramente que esse senhor, além de tarado, passava por cima da ética médica que jurara defender. Chocou-me o depoimento de uma senhora que disse que depois de quase quinze anos, já não tem mais certeza se o filho dela é mesmo fruto da fertilização in vitro de seus óvulos com os espermatozóides de seu esposo. Segundo a testemunha, o dr. Roger lhe disse que, caso desejasse, poderia “apurar” a origem de seu bebê, oferecendo-lhe um embrião nobre e com características semelhantes às delas e do marido. E ela foi mais além, dizendo que o médico lhe afirmara cinicamente que ela não precisaria se preocupar que o que ele tinha para oferecer não era nada coletado em “nenhuma neguinha de rua por aí”. Palavras de uma das maiores autoridades em fertilização humana do Brasil. Devia ser processado por racismo também.   
 
E de denúncia em denúncia, vê-se que o dr. Roger, escancaradamente, vem ao longo de sua carreira nefasta praticando também vários crimes fiscais. Diz uma de suas vítimas que com nota, o preço era um; sem nota, baixava pela metade. Nessa seara, entretanto, o bigodudo tarado não está sozinho. Sem medo de errar, pode-se afirmar que esta é a prática comum, principalmente nos consultórios “muito bem freqüentados” de badalados dermatologistas, cirurgiões plásticos, ortopedistas, pediatras, endocrinologistas, etc. A sonegação corre solta e com a conivência geral de todo mundo, em especial das classes média e alta, sem sequer imaginar que, no fundo, estão pagando mais ou menos o valor real do tratamento. Essa coisa de desconto nesse ramo simplesmente não existe.
 
O dr. Roger deve estar se articulando com todas as suas armas e seu poder para se defender da chuva de acusações que hoje pesam sobre seus ombros. Não será novidade que seus advogados peçam provas materiais para que, de fato, a Justiça se pronuncie. Não será fácil, pois, como se sabe, o médico vem praticando seus crimes desde a juventude. Seria preciso revirar um baú de horrores de mais de quarenta anos. Mas agora a batalha a ser travada parece um caminho sem volta. Suas vítimas, certamente, terão que ser muito fortes, assertivas e, acima de tudo, corajosas para, quem sabe, enfrentá-lo cara a cara em um tribunal. Não é difícil imaginar o que se passa na cabeça dessas pessoas e seus familiares. Quem, diante de tanta canalhice, pode ter certeza de alguma coisa? Será que os filhos são mesmo filhos de quem acham que são? Serão dúvidas que poderão ficar sem resposta para o resto da vida.
 
Em suma, depois de mais essa, só nos resta pedir ao mundo que pare, pois temos que descer. Faz pouquíssimo tempo que fiz esse apelo ao saber que um monstro austríaco, por mais de duas décadas, mantiveera em cativeiro e abusara de sua filha, engravidando-a várias vezes. Com aquela história macabra, achei que tínhamos chegado no fundo do poço da insanidade humana. Mas como dizem os entendidos, os psicopatas sociais estão sempre à nossa espreita e jamais deixarão de nos surpreender. Esse dr. Roger coloca o Brasil no mapa mundial dos exemplos de psicopatas dignos de entrarem para a história como um dos casos mais escabrosos de desvios moral, ético e comportamental. E, por isso, caso tudo fique provado, a punição deve ser exemplar. Não há como ser diferente. O primeiro passo foi dado. O rei está nu. O capítulo mais complicado desse enredo é mostrar que sessenta mulheres feridas e agredidas não são loucas nem estão mentindo. Dr. Roger que ponha seus bigodes de molho, pois, como se diz no popular, "o bicho vai pegar". Vai pegar. Pára o mundo que eu quero descer!         
 


 





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