Muito além das arquibancadas: comunidade LGBT+ ocupa o campo e transforma o futebol

Em ano de Copa, o futebol volta a mobilizar paixões, reunir famílias e dominar as conversas em todo o país. Mais do que um esporte, ele faz parte da identidade cultural brasileira. No entanto, durante décadas, esse universo foi marcado por exclusões e preconceitos que afastaram muitas pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ dos gramados, das arquibancadas e dos espaços de liderança esportiva.
Historicamente associado a padrões rígidos de masculinidade, o futebol nem sempre acolheu a diversidade. Identidades de gênero e orientações sexuais dissidentes foram frequentemente alvo de discriminação, levando atletas, torcedores e profissionais do esporte a esconderem quem eram para serem aceitos.
Nos últimos anos, porém, essa realidade tem sido transformada por iniciativas que promovem inclusão, representatividade e respeito. Em diferentes regiões do Brasil, pessoas LGBTQIAPN+ vêm ocupando espaços no esporte, criando projetos e mostrando que a paixão pelo futebol não conhece barreiras.

Uma dessas histórias é a de Nega Tonha, que se tornou a primeira goleira trans de Juazeiro, no norte da Bahia. Sua trajetória representa um marco importante para a população trans no esporte e inspira outras pessoas a ocuparem os campos sem abrir mão de suas identidades. Em uma modalidade ainda marcada pela transfobia, sua presença desafia estereótipos e reafirma que talento, dedicação e amor pelo futebol são maiores que qualquer preconceito.
“Estar em campo é também afirmar que nós existimos e temos o direito de ocupar todos os espaços”, destaca Nega Tonha.
Outro exemplo de transformação é o trabalho desenvolvido pelo Fênix Futebol Clube, equipe formada por homens trans e trans masculinos. O projeto nasceu da necessidade de criar um ambiente seguro e acolhedor para atletas que frequentemente encontram dificuldades para participar de competições e atividades esportivas.

À frente da iniciativa está Lohan Sampaio, presidente do clube e defensor da inclusão no esporte. Mais do que um time, o Fênix tornou-se um espaço de pertencimento, fortalecimento da autoestima e construção de novas referências para a população trans, demonstrando o potencial do futebol como ferramenta de inclusão social.
A diversidade também ganha espaço por meio da atuação de atletas e dirigentes que fazem do esporte um instrumento de visibilidade e combate à discriminação.

É o caso de Lívia Ferreira, atacante do Arvoredo Futebol Clube, que representa a força e a resistência das mulheres lésbicas dentro do futebol. Sua atuação contribui para ampliar a visibilidade de atletas LGBTQIAPN+ e reforça a importância do respeito à diversidade no esporte feminino.
Já Elivelton Brandão transformou sua paixão pelo futebol em uma iniciativa pioneira na Bahia. Fundador e atacante do Dendê Futebol Clube, ele lidera o primeiro time de futebol gay do estado. Criado com o objetivo de combater a LGBTfobia por meio do esporte, o projeto oferece um ambiente acolhedor para que atletas gays possam praticar futebol sem medo de discriminação.

Ao longo dos anos, o Dendê Futebol Clube tornou-se símbolo de resistência, representatividade e inclusão, mostrando que o futebol pode ser um espaço de convivência e respeito para todos.
As trajetórias de Nega Tonha, Lohan Sampaio, Lívia Ferreira e Elivelton Brandão revelam mudanças importantes no cenário esportivo brasileiro. Mais do que representatividade, suas histórias evidenciam a luta por cidadania, igualdade de direitos e acesso a espaços historicamente marcados pela exclusão.
Em um país apaixonado por futebol, garantir que todas as pessoas possam jogar, torcer e participar do esporte de forma segura é fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva.
Neste clima de Copa, essas experiências lembram que o futebol se torna ainda mais bonito quando há espaço para todos em campo. E que cada vitória contra o preconceito aproxima o esporte dos valores de respeito, diversidade e igualdade que devem inspirar as próximas gerações.