HIV em pauta

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Instituto Vida Nova: 26 anos entre a dor, a luta e o amor que transforma vidas

Genilson Coutinho,
05/05/2026 | 13h05

Antes de ser uma instituição, o Instituto Vida Nova (IVN) foi um gesto. Um gesto de urgência, de coragem e de amor em um dos períodos mais duros da epidemia de HIV/aids no Brasil.

Era o ano 2000. O medo ainda ditava o silêncio, o preconceito expulsava, e o diagnóstico muitas vezes vinha acompanhado de abandono. Foi nesse cenário que o ativista e empreendedor social Américo Nunes, ao lado de seu parceiro de vida e luta, Jorge Eduardo, decidiu fazer o oposto do mundo: acolher.

Nascia ali o Instituto Vida Nova. Não como um serviço — mas como um abrigo. Não como um projeto — mas como um compromisso com a vida.

Hoje, 26 anos depois, o Instituto celebra uma trajetória que mistura resistência, cuidado e transformação. E também carrega a saudade: Jorge já partiu. Mas sua presença continua viva — nos corredores, nas histórias e nas pessoas que seguem sendo acolhidas todos os dias.

Onde a vida recomeça

Ao entrar no espaço do Instituto, na zona leste de São Paulo, é possível ver sinais concretos de cuidado: a academia ao ar livre, as paredes coloridas, os espaços coletivos. Mas o que realmente define o lugar não está nas estruturas — está nas relações. Ali, ninguém é número. Ninguém é reduzido a um diagnóstico.

“Aqui eu me sinto melhor do que na minha própria casa. Ninguém é mais do que ninguém. Estamos todos no mesmo barco”, diz Adilson Batista, voluntário e assistido há mais de 15 anos.

A história dele é um retrato de uma geração inteira que enfrentou o HIV quando o tratamento ainda era mais duro e menos acessível.

“Quando eu cheguei, em 2002, eu tomava 26 comprimidos por dia. Eu estava muito fraco, com doenças oportunistas, sem perspectiva. Aqui foi onde eu consegui me reerguer.”

Hoje, Adilson vive com HIV indetectável — e com algo que vai além do controle clínico: dignidade.

Um espaço que transforma quem chega – e quem fica

O Instituto Vida Nova atende atualmente mais de 900 pessoas vivendo com HIV, oferecendo atendimento psicológico, fisioterapia, atividades físicas e rodas de conversa. Mas, para quem vive o cotidiano da instituição, os números não dão conta do impacto.

“Celebrar o aniversário do Instituto Vida Nova é muito mais do que marcar uma data. É reconhecer uma trajetória de coragem inabalável e de acolhimento que transforma realidades”, afirma Jaime Marcelo, agente de prevenção.

Recém-chegado ao Instituto, ele já percebe o alcance do trabalho: “O IVN consegue fazer algo essencial: traduzir o conhecimento científico em uma linguagem acessível. Da periferia às universidades, ele combate o preconceito com informação e presença.”

E vai além: “Não existe acolhimento sem luta. O Instituto ocupa espaços, cobra políticas públicas, exige respeito. Isso também é cuidado.”

Essa dimensão política — de enfrentamento ao estigma — acompanha o DNA da organização desde sua fundação.

De assistida à diretora: uma história de transformação

Poucas histórias traduzem tão bem o impacto do Instituto quanto a de Eliane Nazert Moniz de Câmara. Hoje diretora, ela chegou ao IVN há 22 anos como assistida.

“Falar do Vida Nova sempre me emociona, porque faz parte da minha história. O Instituto entrou na minha vida para me renovar, para me dar uma nova chance. Foi através do seu Américo e do Jorge que eu tive a oportunidade de trabalhar. Desde então, nunca mais saí.”

Ao longo dos anos, Eliane reconstruiu não apenas sua vida profissional, mas sua relação com o mundo. “Eu venci meus medos aqui. Hoje eu amo desafios. Amo o que faço. Tudo é feito com muito amor e dedicação.”

Mas ela também carrega um sonho — que resume um dos maiores desafios da instituição:

“Eu tenho um grande sonho: que o Instituto tenha uma sede própria. Pode parecer alto, mas eu sei o quanto esse lugar é necessário. Eu mesma não consigo ficar longe daqui. E sei que muitas outras pessoas também não conseguem.”

É amor em movimento

Para quem esteve desde o início, ver o Instituto chegar aos 26 anos é testemunhar uma construção coletiva. “Desde sempre foi muita luta, muito trabalho, muito afinco, muito amor”, diz Valdelice Almada Senatore, uma das fundadoras.

A emoção aparece na forma como ela descreve o presente:

“Hoje, ver tudo isso que o Vida Nova faz… é uma coisa maravilhosa. É ver pessoas aprendendo, evoluindo, crescendo em todos os sentidos. É amor em movimento.”

O impacto do Instituto não atinge apenas quem chega em busca de apoio — transforma também quem trabalha ali.

“Trabalhar com esse público tem sido uma das experiências mais importantes da minha vida”, conta Wilson, profissional de educação física. “Eu aprendo todos os dias. E dá pra ver claramente o quanto esse trabalho faz diferença de verdade na vida das pessoas.”

Ele resume em uma palavra: “Gratidão. É isso que eu sinto por fazer parte disso.”

Duas décadas de pertencimento

Há histórias que atravessam o tempo dentro do Instituto. Adriano é uma delas. “Vai fazer 20 anos que eu estou no Vida Nova. Aqui eu encontrei carinho, conhecimento sobre o HIV, e muitas amizades.”

Ele não precisa de discursos longos para explicar o que significa estar ali. “Vida Nova é isso: amizade, cuidado… e estar junto.”

Projetos que alcançam onde muitos não chegam

Com o passar dos anos, o Instituto expandiu sua atuação para além de suas paredes, criando projetos que levam prevenção, cuidado e informação a territórios vulneráveis.

Entre eles:

* Promotoras de Saúde na Prevenção da Sífilis, com rodas de conversa dentro das casas
* Qualivida II – Mais Saúde na Feira, que une saúde e segurança alimentar
* Prevenção da Tuberculose, com ações educativas nas residências
* Agora Você Tá Pronto, voltado à prevenção em espaços de maior exposição
* Academia Malhação Vida Nova, promovendo saúde física e bem-estar

São iniciativas que reconhecem uma realidade: o acesso à saúde ainda é desigual — e precisa ser buscado ativamente.

Entre tantas histórias, há também o silêncio deixado por quem partiu. Jorge Eduardo, cofundador do Instituto, já não está presente. Mas sua ausência não é vazio — é memória ativa. Seu nome segue sendo lembrado não apenas como fundador, mas como alguém que ajudou a construir um espaço onde vidas continuam sendo salvas todos os dias.

Mesmo com uma trajetória consolidada, o Instituto enfrenta desafios que ameaçam sua continuidade e expansão. A falta de uma sede própria limita o crescimento. A necessidade constante de recursos financeiros exige esforço permanente. E o preconceito — ainda presente — continua sendo uma das maiores barreiras enfrentadas por quem vive com HIV/aids.

Um futuro que ainda precisa ser construído

O Instituto Vida Nova nasceu da urgência. Cresceu na resistência. E segue, 26 anos depois, sustentado por algo simples — e poderoso: o cuidado com o outro.

O sonho que move a equipe é ambicioso: um mundo onde o HIV não seja mais cercado de estigma, onde o acolhimento não seja uma necessidade emergencial. Até lá, o Instituto segue sendo aquilo que Américo Nunes e Jorge Eduardo imaginaram: Um lugar onde ninguém é deixado para trás.

“Vida Nova, pra mim, é amor. Amor ao próximo. Amor ao que eu faço. É isso que transforma o mundo”, diz Eliane.

E talvez seja essa a essência dessa história: em um mundo que muitas vezes exclui, o Instituto Vida Nova insiste — há 26 anos —em fazer o contrário. Em acolher. Em cuidar. Em fazer viver.

Fonte: Agência AIDS