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Bahia integra pesquisa global que aposta nos jovens para ampliar o acesso à PrEP

Tedson Souza,
29/07/2026 | 14h07

Foto: Genilson Coutinho

A primeira pessoa a falar sobre PrEP para muitos adolescentes de Salvador não veste jaleco branco. Não atende em consultório nem espera o paciente chegar a uma unidade de saúde.

Ela pode estar dançando na Batekoo, caminhando pelo Porto da Barra ou conversando com amigos na Praia da Gamboa.

É dessa cena, distante da imagem tradicional dos serviços de saúde, que parte a contribuição baiana para o ComPrEP, uma pesquisa global apresentada na 26ª Conferência Internacional de AIDS (IAS 2026), no Rio de Janeiro. O estudo reúne pesquisadores de diferentes países para desenvolver e avaliar estratégias capazes de ampliar o acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP) entre adolescentes e jovens, tendo a Bahia como um de seus polos de pesquisa.

Os resultados foram apresentados durante a sessão “Reimagining PrEP delivery for youth through peer leadership and community insights”, que reuniu pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Fiocruz-Bahia, Universidade de São Paulo (USP) e da University of Alabama at Birmingham (UAB).

Na Bahia, um dos polos brasileiros do ComPrEP, pesquisadores da UFBA, UNEB e Fiocruz-Bahia desenvolvem estratégias que aproximam adolescentes dos serviços de prevenção ao HIV por meio da chamada navegação por pares. Coube à epidemiologista Inês Dourado, professora da UFBA, apresentar ao público internacional a experiência desenvolvida no estado e os desafios de levar a prevenção até quem mais precisa.

Quando o cuidado muda de endereço

Durante décadas, a prevenção ao HIV foi pensada a partir dos serviços de saúde. O usuário precisava procurar o posto, marcar consulta, enfrentar o medo do julgamento e, só então, conhecer a PrEP.

A pesquisa apresentada no IAS propõe inverter essa lógica.

Em vez de esperar que os adolescentes procurem o serviço, o cuidado passa a ocupar os territórios onde eles vivem, constroem amizades e exercem sua sexualidade.

Segundo Inês Dourado, a eficácia da PrEP já está consolidada pela ciência. O desafio agora é reduzir as barreiras sociais que impedem muitos jovens de iniciar ou manter o uso da medicação.

Entre essas barreiras estão o medo de que pais ou responsáveis descubram o tratamento, o estigma ainda associado ao HIV, a dificuldade de deslocamento até os serviços de saúde e a ausência de espaços seguros para conversar sobre sexualidade.

“Não basta oferecer uma tecnologia altamente eficaz. É preciso criar estratégias que façam sentido para a vida desses jovens”, destacou a pesquisadora ao apresentar os fundamentos do projeto.

A prevenção também acontece na Batekoo

Foi dessa necessidade que nasceu a estratégia de navegação por pares.

Em vez de depender exclusivamente de médicos e outros profissionais de saúde, adolescentes e jovens passam a ser acompanhados por pessoas da própria comunidade, capacitadas para orientar sobre PrEP, esclarecer dúvidas e facilitar o acesso aos serviços.

São jovens que compartilham linguagens, experiências e vivências semelhantes às daqueles que desejam alcançar.

Na Bahia, essa aproximação acontece justamente onde a juventude está.

A pesquisa leva suas ações para espaços de convivência como a Batekoo, um dos maiores movimentos de cultura negra e LGBTQIA+ do país, além de locais históricos de sociabilidade LGBTQIA+ em Salvador, como o Porto da Barra e a Praia da Gamboa.

É ali, em conversas informais e longe do ambiente hospitalar, que surgem perguntas sobre prevenção, sexualidade e HIV.

A relação construída pelos navegadores de pares reduz o medo do julgamento e transforma informação científica em diálogo cotidiano.

Uma experiência baiana em uma pesquisa global

O ComPrEP reúne pesquisadores de diferentes países interessados em compreender como ampliar o acesso à PrEP entre adolescentes e jovens em contextos marcados por desigualdades sociais e pelo estigma.

A Bahia é um dos polos dessa pesquisa internacional e contribui com uma experiência construída a partir da realidade local.

Ao apresentar os resultados no IAS 2026, Inês Dourado mostrou que a prevenção combinada não depende apenas da disponibilidade dos medicamentos, mas também da capacidade de construir vínculos de confiança com aqueles que permanecem mais distantes dos serviços de saúde.

Essa experiência produz evidências científicas que poderão contribuir para o aperfeiçoamento de políticas públicas voltadas à prevenção do HIV no Brasil e em outros países participantes do estudo.

Muito além do consultório

Ao final da sessão, uma pergunta permaneceu no ar.

Quem tem mais chances de convencer um adolescente a iniciar a PrEP?

Um profissional de saúde que ele nunca viu ou alguém que frequenta os mesmos espaços, fala a mesma linguagem e conhece os mesmos medos?

Talvez uma das respostas mais importantes apresentadas no IAS 2026 tenha sido justamente essa.

A prevenção não começa quando o jovem entra no consultório.

Ela começa muito antes.

Pode começar em uma conversa durante a Batekoo.

Em um encontro no Porto da Barra.

Ou em um fim de tarde na Praia da Gamboa.

E é justamente quando a ciência decide ocupar esses territórios, reconhecendo os saberes e as redes de sociabilidade da juventude, que a prevenção deixa de ser apenas uma política pública e passa a fazer parte da vida cotidiana.

Reportagem produzida por Tedson Souza para o site Dois Terços durante a cobertura da 26ª Conferência Internacional de AIDS (IAS 2026), no Rio de Janeiro.