No Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, cantora lança audiovisual do EP “Amores Pandêmicos”
Depois de lançar o EP “Amores Pandêmicos” (clique aqui ) nas plataformas digitais, a cantora e compositora Ligia Callaz apresenta o audiovisual do projeto no próximo sábado, dia 29 de agosto, em seu canal no YouTube. Em 6 canções, a artista traz o protagonismo feminino ao evidenciar o amor entre mulheres e faz reflexões sobre os desafios e a importância do afeto em tempos difíceis. Não por acaso, é no Dia Nacional da Visibilidade Lésbica que Ligia completa o seu lançamento.
“Neste trabalho, trago histórias de mulheres que ouvi, vi e vivi durante o período da pandemia, entre os anos de 2020 e 2023. Na camiseta [presente na capa do projeto], está estampado um número escrito em algarismo romano, fazendo referência à quantidade de pessoas que morreram de Covid aqui no Brasil. Foram 716.626 amores que partiram”, explica Ligia, que sentiu na pele o pesar do adeus. Em 2020 e 2021, respectivamente, a artista perdeu Giano e Valmon Mendes, primo e tio, assim como outras pessoas queridas.
Cantora independente de MPB, Ligia também carrega consigo as influências do Jazz e Indie/Folk. Foi juntando esses elementos a uma sensibilidade aguçada que a artista, nascida no Sul da Bahia, na cidade de Buerarema, enxergou no confinamento uma possibilidade de contar as histórias de muitas mulheres que estavam passando por desafios e lutos, ajudando-as a transformar essas dores em arte.
Entre todas as faixas do EP, o público pode esperar uma arte sensível, sincera e potente.Inclusive, Ligia faz questão de detalhar as canções que apresenta. “A 1ª faixa do disco é ‘Encontro’, feita a partir de uma história que eu ouvi. Fala sobre a surpresa dos encontros, após um longo período de reflexão e, sobretudo, do encontro com a gente mesma. Já a canção ‘Pele’ é a história de um corpo marcado pela renúncia e pela dor que, ao se permitir um novo encontro, vai tateando devagar, reencontrando o caminho da confiança, do prazer, com respeito e conexão. Na sequência vem ‘Lambendo as Pedras’, que escrevi em meia hora de espera , em frente a um mar revolto, imenso, que batia com força nas pedras, ‘aumentando o barulho da minha paz’. Em ‘Pura conexão’, música escrita em 2021, enquanto eu estava com Covid-19. É a história de um sonho, que parecia bem real. Nele me veio a confirmação do querer entre duas mulheres, da liberdade de existir e amar”.
Em ‘Presente de Iemanjá’, Ligia fala da ligação com a espiritualidade e de um desejo concedido. “A música conta a história de uma mulher, que ao se conectar com o divino pediu um amor e teve seu pedido atendido. Já a canção ‘Cantar Mundo’ é uma poesia coletiva, feita em uma dinâmica de roda feminina formada por 8 mulheres, onde trabalhamos a escuta, a consciência corporal e a expressão vocal, criando repertório e refinando a vivência a partir das histórias vividas e apresentadas por essas mulheres”, revela Ligia.
Mês do Orgulho e Visibilidade Lésbica
Como mulher lésbica, a cantora sabe os desafios impostos pela sociedade e, por isso, em seu projeto, Ligia traz participações de outras mulheres, inclusive de sua companheira, a musicoterapeuta e compositora Júlia Neves e de cantautoras da região, como Laiô, Luana Carla, Ize Duque e Màja, visando fortalecer a comunidade LGBTQIAPN+ e levar arte para todas as pessoas.
“Esse trabalho foi cercado, desde sempre, por muitas mulheres, nem todas do universo LGBT. Primeiro minha mãe, depois amigas e parceiras de composição. Lembra aquela história de ninguém solta a mão de ninguém? Aí, na última faixa, “Cantar Mundo”, como uma forma de homenageá-las, convidei mais 6 “cantautoras” da região para dividirem a faixa comigo e outras 30 mulheres para formarem um coro. Foi uma experiência incrível. A união dessas mulheres, o amor e a entrega envolvidos nesse trabalho são de uma expressão fortíssima de cumplicidade, parceria e apoio. E todas nós nos sentimos muito felizes com o resultado”.
Embora muitas das composições tratem de sentimentos universais, como a saudade, o desejo, a solidão e o afeto durante o isolamento, a narrativa do álbum é construída a partir da experiência de mulheres que amam outras mulheres. Experiência que se conecta com a vivência e identidade da própria Lígia.
“Eu vivi várias fases de aceitação e de vivência de minha sexualidade e todas bem difíceis. Ser lésbica no interior tem um grande peso, ainda mais no Brasil, onde as mulheres sofrem tanta violência. É algo bastante perturbador que as pessoas esperem e cobrem de você um comportamento preestabelecido, a partir da desqualificação e demonização de quem você é. Levei um tempo pra me livrar disso internamente e de me sentir confortável na minha pele. E sei que muita mulher ainda passa por isso”. O mês da visibilidade lésbica a mim me faz sentir bem, forte, acolhida, integrada e ‘normal’. Espero que este trabalho também tenha esse efeito para outras mulheres.
