Meio milhão de reais e um encontro, entre homens, com Neymar
Homens também pagam caro por aquilo que desejam. E talvez este seja um dos preços mais curiosos da masculinidade: R$ 600 mil.
Três amigos pagaram o equivalente ao preço de três apartamentos populares para viver uma experiência desejada por boa parte dos homens apaixonados por futebol. Eles passarão um fim de semana inteirinho na casa de Neymar Jr., em Mangaratiba, no Rio.
E, para quem está se perguntando como esse encontro vai acontecer, eu explico: os três serão levados de helicóptero até o craque para poderem desfrutar do kartódromo particular do menino Ney. Tudo muito masculino e, aparentemente, muito divertido.
Para isso, tiveram de arrematar o prêmio em um leilão promovido pelo próprio ídolo do futebol. Cada um desembolsou R$ 200 mil, numa espécie de vaquinha milionária.
E é por essa e tantas outras histórias que fico me perguntando por que os homens parecem estabelecer relações históricas tão intensas de afetividade com outros homens, enquanto passam boa parte da vida tentando garantir que ninguém confunda isso com desejo?
A começar pelo primeiro homem da vida de muitos deles: o pai. Depois vêm os heróis dos quadrinhos, os jogadores de futebol, os atores, os cantores, os políticos, os empresários: todos que de alguma forma ocupam os lugares de poder.
O garoto quer o corpo do atleta. A roupa do cantor. O dinheiro do empresário. A coragem do super-herói. A autoridade do pai. O talento do jogador. O poder do político. E, em algum momento, aprende também que é melhor não parecer interessado demais.
Mas será que ainda há alguém que duvida que homens são homoafetivos? Mesmo depois que uma pesquisa — se é que podemos chamar assim — do PlocSocial revelar que 84% dos homens heterossexuais fãs de Neymar topariam um relacionamento com o jogador.
Antes que alguém me acuse de ter descoberto a homossexualidade masculina em um churrasco de domingo, vamos estabelecer uma coisa: homoafetividade não é sinônimo de homossexualidade. Um homem pode estabelecer vínculos de intimidade, admiração, lealdade, proteção e carinho com outros homens sem que isso implique desejo sexual por eles. E pode, simultaneamente, sentir desejo sexual por mulheres.
O problema talvez esteja menos no afeto e mais na maneira como a masculinidade tradicional aprendeu a organizá-lo.
Desde cedo, muitos homens descobrem que podem demonstrar camaradagem, proteção, admiração e até contato físico com outros homens, contanto que tudo isso receba um nome socialmente confortável: amizade, irmandade, parceria, resenha. É quase um pacto silencioso. Pode abraçar. Pode dormir na mesma cama. Pode viajar junto. Pode dividir segredo. Pode dizer “te amo, irmão”. Só não pode parecer que existe qualquer possibilidade de uma segunda leitura.
O que Neymar tem que custa tão caro? Talvez não seja o que ele tem, mas o que ele representa.
Neymar é o corpo, o dinheiro, a fama, a habilidade, a liberdade, a juventude, o sucesso, a celebridade e, sobretudo, uma determinada imagem de masculinidade transformada em símbolo ─ ou espetáculo vivo. Ele não é apenas um jogador admirado. É uma espécie de espelho no qual muitos homens podem enxergar aquilo que gostariam de ser ou aquilo que gostariam que os outros homens reconhecessem neles.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto.
Porque, se um homem paga R$ 200 mil para passar um fim de semana na casa de outro homem, a pergunta mais interessante talvez não seja se ele deseja aquele homem. A pergunta é: o que exatamente ele deseja quando deseja estar tão perto dele?
A resposta pode ser simplesmente Neymar. Pode ser a experiência. Pode ser o status. Pode ser a fantasia de entrar, por alguns dias, no universo daquele homem que parece ter tudo. Ou pode ser algo muito mais profundo: o desejo de estar próximo de uma figura masculina que representa uma versão idealizada de si mesmo.
A sociedade patriarcal talvez tenha produzido um dos maiores paradoxos da masculinidade: ensinou os homens a admirar profundamente outros homens, a medir-se por eles, a imitá-los e a buscar sua aprovação, mas também a desconfiar de qualquer afeto que possa ser confundido com desejo.
Porque, na modernidade, o homem pode até dizer “eu te amo, irmão”, mas precisa acrescentar “sem viadagem” para garantir que ninguém entenda errado.
E talvez seja justamente esse “sem viadagem” que diga mais sobre a masculinidade do que todo o resto.
Afinal, se homens não pudessem amar, admirar e desejar simbolicamente outros homens, por que teriam passado tanto tempo tentando provar que não fazem isso?
Sobre a coluna asssuntasó!
A assuntasó! pauta a modernidade com leveza e transforma as neuroses da vida em matéria-prima para crônicas que relatam quem ousa viver o presente.
Will Assunção é cronista da modernidade e coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que a existência gira em torno do absurdo do cotidiano.
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