O Mounjaro roubou a minha libido?

Mal havíamos nos acomodado no Nakaya, um refúgio gastronômico que serve o melhor japonês da cidade, quando um amigo, em plenos 42 anos, saudável — exceto por alguns quilos que a balança insistia em denunciar — largou os hashis sobre a mesa e disparou, como alguém que não decide se está indignado ou prestes a pedir desculpas por existir:
— Minha libido despencou, e eu ainda nem cheguei aos 50. Tudo isso depois que comecei a usar a p**** do Mounjaro. Às vezes, o tesão simplesmente desaparece por dias, e eu fico devendo sexo ao meu namorado. E agora, o que eu faço?
Havia algo de curioso naquela cena. E não era apenas o fato de Taigor namorar um homem dez anos mais velho, daqueles que parecem ter assinado um contrato com a genética: corpo esculpido, cabelos grisalhos impecáveis e uma autoconfiança que chega antes dele em qualquer ambiente. Diante desse conjunto de virtudes, meu amigo frequentemente se vê comparando o próprio reflexo ao do namorado — um esporte emocional que raramente termina em vitória.
Durante décadas, homens — especialmente homens gays — reclamaram da barriga, da calvície, das rugas e do colesterol. Agora, pela primeira vez, parecia que a queixa era outra: o medicamento que prometia devolver o corpo dos sonhos talvez estivesse cobrando seu preço justamente no departamento responsável por torná-los interessantes.
— O quê? — pergunto, com interesse genuíno, depois de alguns segundos de silêncio. Um silêncio respeitoso, como se ele tivesse acabado de mencionar a morte — ou o preço do aluguel no Itaigara. Enquanto isso, me esforço para lembrar se algum dia já havia passado por algo parecido ou para imaginar como é brochar em plena luta contra a balança.
— Só pode ser o Mounjaro! — retrucou, categórico. — Porque eu não tenho nenhum traço de ansiedade nem qualquer questão emocional que pudesse afetar minha ereção.
Saquei o celular do bolso e procurei um artigo que havia lido semanas antes sobre os efeitos colaterais das famosas canetas emagrecedoras. Olhei para ele como quem busca a aprovação da plateia e li um trecho interessante:
“A hipótese mais discutida atualmente é que a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, pode influenciar a libido indiretamente, por meio dos mesmos circuitos cerebrais envolvidos na motivação e na recompensa.”
Meu amigo para. Pisca. Processa.
Continuo a leitura:
— Embora o saldo final do tratamento seja considerado positivo, alguns pacientes relatam queda temporária do desejo sexual nas primeiras semanas. Entre as possíveis causas estão o déficit calórico mais agressivo, a fadiga decorrente da adaptação do organismo e as alterações hormonais associadas ao processo de emagrecimento.
Ele apoia o cotovelo na mesa e encara o nada por alguns instantes. Talvez estivesse calculando quantos quilos a menos justificariam as noites a menos de sexo com seu namorado.
E foi nesse momento que me ocorreu uma pergunta curiosa: numa sociedade obcecada por padrões estabelecidos ─ muitos deles inalcançáveis─, será que estamos preparados para descobrir que o corpo ideal pode não vir acompanhado da vida ideal?
Naquele instante — e não por acaso — lembrei de outro amigo que jura manter ereções mais frequentes sempre que intensifica os treinos de pernas.
— E aumentar suas idas à academia? — sugeri, com a confiança desproporcional de quem acredita ter acabado de resolver um problema que desafia endocrinologistas e psicólogos há décadas. — Talvez intensificar a musculação ajude. Treinar costuma favorecer a produção de testosterona e pode contribuir para manter a libido em alta.
Ele me lançou um olhar de ceticismo, como quem escuta mais uma daquelas soluções mágicas que só funcionam em podcast de Pablo Marçal e nunca na vida real. Porém, segundos depois, o semblante rijo cedeu lugar a um sorriso discreto. Não exatamente um sorriso de entusiasmo, mas o sorriso de quem encontra uma saída possível para um problema que parecia não ter escapatória.
— Talvez não seja uma má ideia — admitiu. — Mas, além da atividade física, talvez eu precise conversar com meu médico sobre a dose e ajustar melhor minha alimentação, não acha? Até porque perder peso sem perder a libido — ou a namorado — requer um pouco mais de estratégia — piscou com a confiança de quem planeja uma revanche contra o próprio destino.
Livre da aflição de ver sua libido encurralada numa disputa entre autoestima e virilidade, Taigor parece ter finalmente encontrado o caminho do equilíbrio para tentar fazer as pazes com a sua vida sexual.
Depois de dividirmos um petit gâteau — até porque ninguém enfrenta uma crise da vida adulta sem chocolate —, ele pegou o seu iPhone e, ali mesmo à mesa, agendou uma consulta médica pelo WhatsApp. Precisava decidir se manteria a dose atual de Mounjaro por mais tempo ou se era hora de reavaliar o tratamento.
Dias depois, veio a resposta.
Diante do médico, descobriu, aliviado, que seu caso provavelmente não passava de um período de adaptação ao medicamento. A explicação era menos dramática do que imaginara: em alguns pacientes, a libido pode diminuir nas primeiras semanas de tratamento e voltar gradualmente à medida que o organismo se ajusta.
Curiosamente, ouvir que o emagrecimento metabólico poderia, no longo prazo, ajudar a restaurar parte da vitalidade que o excesso de peso costuma sequestrar soou para ele quase como uma declaração de amor.
E talvez fosse.
Meses depois, encontrei o casal caminhando pela Olívia. Os dois pareciam mais leves. Não apenas pelos quilos perdidos. Mas por exibirem aquele tipo de sorriso indiscreto que casais felizes tentam disfarçar sem muito sucesso. O sorriso de quem a vida sexual vibra ─ ou geme ─ de felicidade.
Ao vê-los desaparecer pela avenida, não pude deixar de me perguntar: numa época em que a medicina promete transformar nossos corpos, será que o verdadeiro desafio continua sendo o mesmo de sempre: encontrar um jeito de não perder a nós mesmos no processo?
Sobre a coluna asssuntasó!
A assuntasó! pauta a modernidade com leveza e transforma as neuroses da vida em matéria-prima para crônicas que relatam quem ousa viver o presente.
Will Assunção é cronista da modernidade e coleciona quase duas décadas de jornalismo — o suficiente para suspeitar que a existência gira em torno do absurdo do cotidiano.
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