HIV em pauta

Notícias

Ouça este post.

Estudos associam inibidores da integrase a maior risco de diabetes em pessoas vivendo com HIV

Genilson Coutinho,
09/06/2026 | 14h06

Pesquisas publicadas na revista Lancet HIV apontam aumento moderado do risco de diabetes tipo 2 após a troca para medicamentos da classe dos inibidores da integrase; especialistas defendem monitoramento mais rigoroso

Dois estudos publicados na revista científica Lancet HIV acenderam um alerta sobre possíveis efeitos metabólicos associados aos inibidores da integrase, classe de antirretrovirais atualmente recomendada como tratamento de primeira linha para o HIV em diversos países, incluindo o Brasil. As pesquisas identificaram um aumento moderado no risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 entre pessoas vivendo com HIV que passaram a utilizar esses medicamentos.

Os resultados reforçam um debate que vem ganhando espaço nos últimos anos. Embora os inibidores da integrase — como dolutegravir e bictegravir — sejam considerados altamente eficazes no controle da infecção pelo HIV e apresentem perfil de segurança favorável, estudos anteriores já haviam associado seu uso ao ganho de peso, à resistência à insulina e a outras alterações metabólicas.

Agora, as novas análises sugerem que os impactos podem ir além do aumento de peso corporal.

Maior risco após troca de tratamento

Um dos estudos analisou dados de mais de 16 mil pessoas acompanhadas pela North American Aids Cohort Collaboration on Research and Design (NA-ACCORD), uma das maiores redes de pesquisa sobre HIV da América do Norte.

Os pesquisadores avaliaram pessoas que trocaram um inibidor de protease (IP) ou um inibidor da transcriptase reversa não nucleosídeo (ITRNN) por um inibidor da integrase e compararam sua evolução com a de participantes que permaneceram nos esquemas anteriores.

Entre aqueles que substituíram um inibidor de protease por um inibidor da integrase, foi observado um aumento de 38% no risco de desenvolver diabetes tipo 2. O risco mostrou-se mais elevado especialmente nos dois primeiros anos após a mudança terapêutica.

Já entre os participantes que trocaram um ITRNN por um inibidor da integrase, não foi identificada diferença estatisticamente significativa na incidência de diabetes.

Um dos achados mais relevantes foi que o ganho de peso não explicou sozinho o aumento do risco. Mesmo em análises que controlaram o impacto da variação de peso corporal, a associação entre a troca de medicamento e o desenvolvimento de diabetes permaneceu significativa.

Os autores também não encontraram diferenças importantes entre os diversos medicamentos da classe dos inibidores da integrase, sugerindo que o efeito observado pode estar relacionado à classe terapêutica como um todo e não a um fármaco específico.

Dados do estudo REPRIEVE reforçam preocupação

As conclusões foram corroboradas por uma segunda análise realizada com participantes do estudo REPRIEVE, um dos maiores ensaios clínicos internacionais envolvendo pessoas vivendo com HIV.

Originalmente desenvolvido para avaliar o impacto da pitavastatina na prevenção de doenças cardiovasculares, o estudo permitiu aos pesquisadores investigar os efeitos metabólicos da mudança para esquemas contendo inibidores da integrase.

Durante o acompanhamento, quase 3 mil participantes migraram para essa classe de medicamentos, enquanto pouco mais de 5 mil permaneceram em regimes sem inibidores da integrase.

Após um período médio de observação de 2,8 anos, os pesquisadores verificaram que aqueles que fizeram a mudança apresentaram:

* 41% mais risco de desenvolver obesidade;
* 50% mais risco de desenvolver diabetes tipo 2;
* 45% mais risco de desenvolver hipertensão arterial.

Apesar dessas associações, o estudo não encontrou aumento significativo no risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral, durante o período analisado.

Segundo os pesquisadores, os resultados indicam que os mecanismos envolvidos podem ser mais complexos do que o simples ganho de peso.

As análises mostraram que mesmo após o ajuste para alterações no índice de massa corporal, o risco aumentado de diabetes e hipertensão permaneceu praticamente inalterado, sugerindo que os inibidores da integrase podem influenciar processos metabólicos por vias ainda não totalmente compreendidas.

Impacto para a prática clínica

Os autores destacam que os benefícios dos inibidores da integrase continuam amplamente reconhecidos e que os medicamentos permanecem como componente central das estratégias modernas de tratamento do HIV.

No entanto, os novos dados reforçam a necessidade de vigilância metabólica mais intensa, sobretudo entre pessoas com fatores de risco pré-existentes para diabetes, obesidade ou doenças cardiovasculares.

No estudo norte-americano, os pesquisadores recomendam atenção especial nos dois primeiros anos após a mudança para um regime baseado em inibidores da integrase, período em que o risco de diabetes se mostrou mais pronunciado.

Especialistas defendem rastreamento precoce

Em editorial que acompanha a publicação dos estudos na Lancet HIV, dois especialistas franceses em HIV ressaltam que os resultados devem servir de alerta para profissionais de saúde e gestores de programas de tratamento.

“Considerando os riscos metabólicos demonstrados em ambos os estudos, o rastreio precoce de diabetes e hipertensão, juntamente com o controle proativo dos fatores de risco cardiovascular, poderia evitar danos a longo prazo.”

Os especialistas também observam que os participantes do estudo REPRIEVE apresentavam risco cardiovascular baixo a moderado no início do acompanhamento e que metade deles recebeu tratamento com estatina, fator que pode ter contribuído para reduzir a ocorrência de eventos cardiovasculares durante o período analisado.

Embora os mecanismos biológicos ainda estejam sendo investigados, os estudos reforçam a importância do acompanhamento regular da glicemia, da pressão arterial e do peso corporal entre pessoas vivendo com HIV que utilizam ou passam a utilizar inibidores da integrase, especialmente diante do envelhecimento dessa população e do aumento das comorbidades metabólicas observadas nas últimas décadas.

Essa versão está mais próxima do formato de reportagem de saúde publicada em portais como Agência Aids, com contextualização, hierarquização das informações e linguagem acessível sem perder o rigor científico.

Da Agência Aids