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Mães, sim: como o cuidado, a ciência e o SUS tornaram possível gestar sem transmitir HIV aos filhos

Genilson Coutinho,
08/05/2026 | 09h05

Um diagnóstico que já não interrompe sonhos

No consultório, no posto de saúde, nas salas de espera dos hospitais públicos e dentro de casa, muitas mulheres ainda recebem o diagnóstico de HIV acompanhadas de um medo silencioso: o de nunca poder viver a maternidade. Durante décadas, o vírus foi cercado por desinformação, preconceito e sentenças antecipadas sobre o futuro das mulheres que convivem com ele. Para muitas, ouvir “você vive com HIV” parecia também ouvir que certos sonhos precisariam ser abandonados. Mas a ciência mudou essa história.

Hoje, mulheres vivendo com HIV podem engravidar, gestar e dar à luz bebês sem o vírus. E mais do que uma possibilidade rara, isso já é uma realidade construída diariamente por meio do acesso ao pré-natal, diagnóstico precoce, tratamento adequado e políticas públicas que colocaram o Brasil entre os países que mais avançaram no combate à transmissão vertical — quando o HIV é transmitido da mãe para o bebê.

Neste mês em que se celebra o Dia das Mães, falar sobre maternidade e HIV também é falar sobre esperança, direito à saúde e dignidade. É lembrar que, com acompanhamento correto, ser mãe deixou de ser um sonho impossível para milhares de mulheres.

Como acontece a transmissão vertical

De acordo com a médica pediatra, sanitarista e epidemiologista Carmen Silvia Bruniera Domingues, a transmissão vertical pode acontecer em três momentos: durante a gestação, no parto ou após o nascimento, por meio da amamentação.

Ainda assim, ela reforça que os avanços conquistados nas últimas décadas transformaram completamente esse cenário.

“Ao longo do tempo ocorreu uma redução importante na transmissão vertical, decorrente do aumento da testagem no pré-natal, uso de antirretrovirais durante a gravidez e no momento do parto, profilaxia para crianças expostas e a restrição ao aleitamento materno”, explica a dra. Carmen, que coordena das Ações para Eliminação da Transmissão Vertical do HIV, da Sífilis e do HTLV no Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo.

Por trás dessa redução estão histórias que nem sempre aparecem nas estatísticas. Mulheres que descobriram o HIV durante o pré-natal e precisaram enfrentar o medo enquanto aprendiam, ao mesmo tempo, que o vírus não impediria a chegada segura de seus filhos.

Mães que iniciaram o tratamento imediatamente e acompanharam, consulta após consulta, a queda da carga viral até alcançar a indetectabilidade — condição em que o vírus fica tão controlado no organismo que não é transmitido sexualmente e tem o risco de transmissão vertical drasticamente reduzido.

O pré-natal que salva vidas

Importância do pré-natal | Biblioteca Virtual em Saúde MS

O diagnóstico precoce, segundo a especialista, é decisivo. “O uso de antirretrovirais deve começar logo após o diagnóstico, com o objetivo de tornar a carga viral indetectável, especialmente antes do parto”, destaca.

O pré-natal, nesses casos, vai muito além das consultas de rotina. É um acompanhamento contínuo, cuidadoso e estratégico para proteger duas vidas ao mesmo tempo. Durante a gestação, são realizados exames frequentes para monitorar a saúde da mãe e do bebê, avaliar a resposta ao tratamento e definir quais são as medidas mais seguras para o parto.

A própria escolha da via de nascimento depende diretamente da carga viral da gestante. Mulheres com carga viral controlada podem ter parto normal. Já em situações específicas, a cesariana pode ser indicada como forma adicional de prevenção.

O cuidado continua após o nascimento

Depois do parto, a prevenção continua. O bebê exposto ao HIV recebe profilaxia com antirretrovirais e acompanhamento especializado nos primeiros meses de vida. No Brasil, a amamentação não é recomendada para mulheres vivendo com HIV, justamente para eliminar o risco de transmissão pelo leite materno.

Para garantir a alimentação segura da criança, o Sistema Único de Saúde também fornece fórmula infantil gratuitamente.

Embora hoje existam ferramentas eficazes para evitar a transmissão vertical, especialistas reforçam que o acesso à informação ainda é um desafio. Muitas mulheres chegam tardiamente ao diagnóstico ou abandonam o tratamento por medo do estigma. Em alguns casos, o preconceito pesa tanto quanto o próprio vírus.

O peso do preconceito e o direito de maternar

Falar sobre maternidade e HIV também significa enfrentar desinformações que atravessaram gerações. Durante muito tempo, mulheres vivendo com HIV foram reduzidas ao silêncio, julgadas por desejarem ter filhos ou tratadas como incapazes de viver uma maternidade segura.

Romper com essa lógica também faz parte da prevenção.

A maternidade de mulheres vivendo com HIV ainda é cercada por olhares de julgamento, perguntas invasivas e desconfianças que não deveriam existir. Por isso, informação de qualidade e acolhimento são ferramentas fundamentais para combater o estigma e aproximar essas mulheres dos serviços de saúde.

Brasil se torna referência no enfrentamento

O Brasil tem ocupado posição de destaque nessa resposta. Em 2025, o país recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde a certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV, um reconhecimento histórico que reflete décadas de investimento em políticas públicas de saúde.

Entre as estratégias adotadas estão a ampliação da testagem no pré-natal e no momento do parto, distribuição gratuita de medicamentos antirretrovirais, acompanhamento especializado pelo SUS, oferta de fórmula infantil e fortalecimento da chamada prevenção combinada.

Mas, para além dos protocolos e indicadores, existe algo que nenhuma estatística consegue medir completamente: o impacto emocional de uma mãe ouvir que seu filho nasceu sem HIV.

“Esse sonho não é mais apenas um sonho”

Para muitas mulheres, esse resultado representa mais do que um exame negativo. É a confirmação de que o cuidado funcionou, de que o medo não venceu e de que o futuro pode, sim, ser construído longe das antigas sentenças impostas pelo preconceito.

Para a Dra. Carmen Silvia, a mensagem precisa ser clara, especialmente neste Dia das Mães.

“Esse sonho não é mais apenas um sonho. Com pré-natal adequado, início precoce do tratamento, carga viral indetectável e cuidados com o bebê, é possível evitar a transmissão”, afirma.

Em um país onde tantas mulheres ainda enfrentam barreiras para acessar saúde, acolhimento e informação, lembrar disso é fundamental. Porque maternidade e HIV não precisam caminhar lado a lado com medo ou culpa.

Quando existe acesso ao cuidado, existe também a possibilidade de viver a gravidez com segurança, dignidade e esperança.

Da Ag. AIDS