Lenacapavir avança, mas acesso desigual ainda ameaça metas globais de prevenção ao HIV
O anúncio de expansão no acesso ao lenacapavir — medicamento de longa duração para prevenção do HIV — reacende o debate sobre desigualdade no enfrentamento da epidemia. Embora a meta tenha sido ampliada para alcançar 3 milhões de pessoas até 2028, especialistas alertam que o ritmo ainda está aquém do necessário para conter novas infecções em escala global.
Em comunicado divulgado nesta terça-feira (15), o Unaids saudou o compromisso do Global Fund to Fight AIDS, TB and Malaria e dos United States em ampliar o acesso ao medicamento, administrado por meio de injeções semestrais e com eficácia de pelo menos 96% na prevenção do HIV.
Apesar do avanço, o organismo internacional foi direto: será preciso ir além. Para cumprir as metas globais e encerrar a aids como ameaça à saúde pública até 2030, ao menos 20 milhões de pessoas precisam ter acesso a métodos de prevenção baseados em antirretrovirais — um número ainda distante da realidade atual.
“Esse compromisso ampliado é um passo importante, mas precisamos avançar com urgência”, afirmou Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids. “Isso passa por viabilizar a produção em larga escala de genéricos, especialmente no continente africano, além de reduzir preços com modelos transparentes e justos, que permitam a adoção em países de baixa e média renda.”
Hoje, o lenacapavir já começou a ser distribuído em países como South Africa, Nigeria, Kenya e Mozambique, com foco em populações mais vulneráveis, como jovens mulheres, gestantes, homens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo — grupos historicamente mais expostos ao risco de infecção.
Na avaliação do Unaids, o principal gargalo agora está menos na inovação científica e mais na capacidade de garantir acesso. A entidade cobra transferência urgente de tecnologia, ampliação do licenciamento para novos fabricantes e definição de cronogramas claros de produção — medidas consideradas essenciais para garantir oferta sustentável e preços acessíveis.
O alerta ganha ainda mais peso diante dos números atuais: cerca de 1,3 milhão de pessoas continuam sendo infectadas pelo HIV todos os anos no mundo. Para o Unaids, esse patamar é “inaceitavelmente alto” diante das ferramentas já disponíveis.
“A comunidade global esperou tempo demais por opções de prevenção que realmente atendam às suas necessidades. O lenacapavir pode ser transformador — mas apenas se for acessível a todos, em qualquer lugar”, reforça a agência.
A nova estratégia global para o período de 2026 a 2031 estabelece metas ambiciosas: até o fim da década, 40 milhões de pessoas vivendo com HIV devem estar em tratamento com supressão viral, enquanto 20 milhões precisam ter acesso à prevenção. O plano também prevê a eliminação de barreiras como o estigma e a discriminação nos serviços de saúde.
Para além dos números, o momento é tratado como decisivo. A ampliação do lenacapavir é vista como uma oportunidade histórica — mas, sem equidade no acesso, o risco é repetir um padrão conhecido na resposta à aids: avanços científicos que não chegam a quem mais precisa.