Brasil leva força do ativismo para a Aids 2026 e movimento de pessoas vivendo com HIV/aids conquista espaço inédito no Global Village
O Brasil será, em julho de 2026, o centro do debate global sobre HIV/aids ao sediar a Conferência Internacional de Aids 2026, no Rio de Janeiro. Reconhecido internacionalmente por sua resposta histórica à epidemia — baseada no acesso universal ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde e na forte atuação da sociedade civil —, o país chega ao evento com uma novidade inédita: a presença articulada do Movimento Brasileiro de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (MBP+) no espaço comunitário Global Village.
Pela primeira vez, as cinco principais redes nacionais que compõem o movimento estarão juntas em um mesmo espaço, construindo e executando uma programação coletiva. Mais do que simbólico, o momento é considerado histórico por ativistas, após mais de uma década de tentativas de articulação.
“Até 2026 não houve nenhuma concretização exata para pautas em comum. São anos de diálogo que não tinham se materializado. Agora, com a importância da resposta da sociedade civil à epidemia, conseguimos criar uma agenda coletiva. Quando todas as representações entenderam que, juntas, somos mais fortes, isso se tornou possível”, afirma Thiago Rodrigues, da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+ Brasil), em entrevista à Agência Aids.
Um espaço inédito — e estratégico
O Global Village é tradicionalmente o coração comunitário da conferência, reunindo organizações, ativistas e experiências de diferentes países. É nesse espaço que o MBP+ terá um estande próprio — algo inédito para o movimento brasileiro de pessoas vivendo com HIV.
A proposta ainda está em construção, mas já aponta para uma programação dividida entre as redes ao longo dos dias do evento, com atividades que vão desde debates sobre envelhecimento, juventude e gênero até ações lúdicas e culturais.
“A ideia é mostrar o protagonismo individual de cada rede, mas também a organização coletiva do movimento brasileiro. É apresentar o que fazemos nos territórios e transformar isso em diálogo internacional”, explica Thiago.
As redes que constroem a resposta — diversidade, território e incidência
A força do MBP+ está na diversidade de suas redes — que não apenas representam diferentes segmentos da população vivendo com HIV/aids, mas também produzem conhecimento, incidem em políticas públicas e constroem respostas concretas nos territórios.
RNP+ Brasil
Criada em 1995, a RNP+ Brasil nasce de uma ruptura fundamental: deixar de ser objeto das políticas públicas para se tornar sujeito político. Ao longo de três décadas, a rede consolidou uma atuação estratégica em advocacy, controle social e defesa de direitos, sendo protagonista na construção da resposta brasileira ao HIV/aids. Hoje, além de sua atuação histórica, também cumpre um papel articulador dentro do MBP+, impulsionando agendas comuns e fortalecendo a incidência coletiva.
RNAJVHA (Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids)
Formada por jovens entre 12 e 29 anos, a RNAJVHA atua na linha de frente da inclusão social e da participação política das juventudes vivendo com HIV. A rede trabalha com uma abordagem biopsicossocial, enfrentando estigmas que atravessam a adolescência e a juventude, e promovendo o engajamento em espaços de decisão. Sua atuação é marcada pela pluralidade — acolhendo jovens independentemente de gênero, orientação sexual, raça ou forma de transmissão.
MNCP (Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas)
Com mais de duas décadas de trajetória, o MNCP é uma das principais referências do ativismo de mulheres vivendo com HIV no Brasil. Sua atuação combina incidência política, produção de conhecimento e fortalecimento coletivo, com destaque para estratégias de comunicação e empoderamento, como o uso do storytelling para dar visibilidade às experiências dessas mulheres. O movimento também tem papel decisivo na construção de políticas públicas mais sensíveis às desigualdades de gênero.
RNTTHP (Rede Nacional de Travestis, Mulheres Trans e Homens Trans Vivendo e Convivendo com HIV)
Com atuação nacional e presença nos territórios, a RNTTHP se organiza como uma articulação político-comunitária que une mobilização social, formação de lideranças e incidência em políticas públicas. Sua atuação é orientada por uma perspectiva interseccional, que reconhece as múltiplas vulnerabilidades vividas pela população trans, mas também suas potências. A rede atua com foco no cuidado integral, na prevenção combinada e na afirmação de que o acesso à saúde é um direito — e uma questão de justiça social.
RBPI+ (Rede Brasileira de Pessoas Idosas Vivendo com HIV/Aids)
Mais recente na composição do movimento, a RBPI+ traz para o centro do debate uma dimensão muitas vezes invisibilizada: o envelhecimento com HIV. A rede atua no combate ao etarismo, na defesa de políticas públicas para a população idosa e na promoção de autonomia e qualidade de vida. Sua entrada no MBP+, em 2024, amplia o alcance do movimento e reforça a necessidade de olhar para todas as fases da vida dentro da resposta à epidemia.
Juntas, essas redes formam uma frente política unificada, que transforma vivências em ação concreta e reafirma que a resposta ao HIV precisa ser construída com base na diversidade, na equidade e na participação social.
Um marco político — e uma disputa em curso
Apesar da conquista do espaço no Global Village, o movimento enfrenta agora um desafio concreto: garantir condições para que essa participação aconteça de forma qualificada.
Atualmente, o Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis prevê apoio para apenas um representante por rede — o que, segundo o movimento, é insuficiente diante da dimensão histórica e política da participação.
“Não priorizar a presença das redes de pessoas vivendo com HIV/aids em uma conferência dessa magnitude não faz sentido. A gente acredita que o mínimo necessário são três representantes por rede, para dar conta da programação e da representação política”, afirma Thiago.
A reivindicação será levada à reunião da Comissão de Articulação com Movimentos Sociais (CAMS), que acontece nesta sexta-feira, em São Paulo, e deve reunir representantes das redes e do governo.
Para Thiago Rodrigues, o que está em jogo vai além da participação em um evento internacional. Trata-se da consolidação de um movimento que, apesar de existir há anos, nunca havia conseguido executar uma agenda conjunta.
Para o MBP+, garantir a presença qualificada das redes no evento é, mais do que uma questão logística: é uma afirmação política.
É dizer, diante do mundo, que a resposta brasileira continua sendo construída com base na diversidade, na participação social e na centralidade das pessoas vivendo com HIV/aids. E que, quando essas vozes se encontram, o impacto pode ir muito além de um estande.
