Divirta-se, mas cuide da saúde no Carnaval
por Dr. David Uip
Fevereiro chegou e é tempo de Carnaval, de diversão e folia, marcado por celebrações, encontros e uma intensificação nas interações sociais. Durante as festas, obviamente, as pessoas querem extravasar alegria, mas é fundamental lembrar o cuidado com a saúde, ter atenção redobrada, especialmente no que diz respeito à prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
O clima de euforia, associado ao consumo excessivo de álcool e outras drogas, pode levar a decisões impulsivas a relações sexuais desprotegidas, elevando o risco de contaminação pelo HIV e outros microrganismos. O uso abusivo de bebidas alcoólicas e o consumo de substâncias psicoativas reduzem o senso crítico e alteram a percepção de quanto o nosso corpo é capaz de suportar. E isso é um perigo.
Em meio às festas, blocos e desfiles carnavalescos, muitas pessoas acabam se empolgando além da conta e abrem mão do uso do preservativo, seja por descuido, esquecimento ou falsa sensação de segurança. Esse comportamento favorece a transmissão de doenças como a Aids, sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites virais e HPV, dentre outras. Apesar da evolução nos tratamentos, essas infecções continuam sendo importantes problemas de saúde pública no Brasil.
Além disso, relações sexuais sem camisinha aumentam o risco de gravidez indesejada, que traz consequências para toda a vida.
O preservativo, masculino ou feminino, permanece como a forma mais eficaz de prevenção contra a maioria das ISTs e também contra a gravidez não planejada. Ela deve ser utilizada em todos os tipos de relações sexuais, do início ao fim do contato. Levar preservativos consigo e saber utilizá-los corretamente é uma atitude simples, responsável e essencial durante a folia. Um ato de prevenção é capaz de evitar exposição desnecessária a doenças.
Caso aconteçam relações sexuais desprotegidas ou em situações de risco, é fundamental procurar imediatamente um serviço de saúde ou centro de referência. Nesses casos, pode ser que os profissionais de plantão recomendem a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) ao HIV, um tratamento de emergência que deve ser iniciado preferencialmente nas primeiras horas e, no máximo, até 72 horas após a exposição. A PEP é oferecida gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e pode reduzir significativamente o risco de infecção pelo vírus HIV quando utilizada corretamente.
Nesse ponto, cabe ressaltar ainda que a rede pública de saúde está disponível para atendimentos de urgência e emergência tanto para os foliões locais quanto para os turistas.
É importante reforçar também o acompanhamento após o período de risco, mesmo depois que seja administrada a PEP. O teste para HIV deve ser realizado cerca de 30 dias após a relação, respeitando a chamada “janela imunológica”, que é o tempo necessário para que o exame detecte a infecção com maior precisão.
Também é fundamental realizar exames para sífilis e outras ISTs, já que muitas dessas doenças podem permanecer assintomáticas por semanas ou meses, mas ainda assim causar complicações e serem transmitidas a outras pessoas.
A prevenção não deve ser vista como um obstáculo à diversão, mas como parte do cuidado consigo mesmo e com o outro. Aproveitar o Carnaval de forma saudável é possível quando se alia prazer à responsabilidade. Informação, prevenção e acesso rápido aos serviços de saúde são as melhores estratégias para que a festa termine apenas com boas lembranças. Afinal de contas, com saúde é possível aproveitar muito mais carnavais.
* David Uip é médico infectologista, reitor do Centro Universitário FMABC, diretor nacional de Infectologia da Rede D’Or e professor convidado do Grupo Educacional CEUMA e da MasteryMed. Foi secretário de Estado da Saúde de São Paulo (2013 – 2018)
